{"id":3738,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/rachel-e-o-ato-de-escrever\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"rachel-e-o-ato-de-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/rachel-e-o-ato-de-escrever\/","title":{"rendered":"RACHEL E O ATO DE ESCREVER"},"content":{"rendered":"<p>Ter\u00e7a-feira, manh\u00e3 cedo. O telefone toca. \u00c9 Nat\u00e9rcia Campos quem me relata o telefonema recebido, minutos antes, da amiga Maria Luiza de Queiroz. A irm\u00e3 de Raquel fala de sua \u00faltima noite, insone como que conversando com os seus mortos queridos. Aquietara-se s\u00f3 \u00e0s cinco horas e \u00e0s seis j\u00e1 havia partido, sem lamentos ou ais, como a cearense forte que sempre foi. N\u00e3o h\u00e1 meios de entender a hora da morte, mas h\u00e1 sentido em louvar a vida. Rachel com ch. Ch de chama: o fogo que a incendiou e que deu luz \u00e0 liberdade intelectual da mulher. Ao gerar \u201cO Quinze\u201d em 1930, com 20 anos, decretava o fim da submiss\u00e3o liter\u00e1ria das que haviam nascido apenas para estudar, casar e cuidar da fam\u00edlia. Rachel foi chamego de seus leitores e chama que ainda ardia aos 93 anos. Fez-se grande com seu jeito simples, direto e s\u00e1bio de dizer o que pensava, em entrevistas, cr\u00f4nicas e romances conhecidos de todos. Sem alardes, mas com a t\u00eampera dos que esperam a justi\u00e7a dos homens, foi a primeira mulher a entrar, em 1977, na, at\u00e9 ent\u00e3o machista, Academia Brasileira de Letras.<br \/>\nRachel n\u00e3o era produto da m\u00eddia. Ela era a m\u00eddia. N\u00e3o era uma marqueteira, mas produto de sua compet\u00eancia. N\u00e3o bajulava, era bajulada, mesmo contra a sua vontade. N\u00e3o era objeto de contempla\u00e7\u00e3o, mas um cani\u00e7o ou baob\u00e1, dependendo das circunst\u00e2ncias, com ra\u00edzes fincadas em dores sentidas, em vit\u00f3rias alcan\u00e7adas e saudades acalentadas. Era tripartida: Fortaleza, onde deixou o seu umbigo; Quixad\u00e1, onde assentou seu cora\u00e7\u00e3o; e o Rio, onde pousou seu corpo por mais tempo e para o sempre.<br \/>\nN\u00e3o vou apreciar a obra liter\u00e1ria de Rachel. Quase todos j\u00e1 leram O Quinze, As Tr\u00eas Marias, Caminhos de Pedras, Dora Doralina e Memorial de Maria Moura, para ficar nos trabalhos mais consagrados. Prefiro reverenci\u00e1-la. Curvo-me \u00e0 sua face expressiva de cronista, quando fala com propriedade do ato de ler e do of\u00edcio de escrever.<br \/>\nEm cr\u00f4nica intitulada \u201cEscrever\u201d, publicada em 2000, no jornal \u201cO Estado de S.Paulo\u201d, Rachel assevera: \u201cExiste ainda uma outra maneira de ver estimulada a voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dos jovens: \u00e9 uma casa aberta onde todo mundo l\u00ea, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem direito \u00e0 cr\u00edtica, a falar o que pensa sobre a produ\u00e7\u00e3o de pais, irm\u00e3os, tios e visitas \u00edntimas, numa esp\u00e9cie de tribunal liter\u00e1rio exercido \u00e0 mesa de jantar. E sobre escrever de verdade, ela assevera: \u201cMas voltando ao assunto da voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para o cantor \u00e9 preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes na sua especialidade \u2013 medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam do seu of\u00edcio, n\u00e3o conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus sempre \u00e9 parco na concess\u00e3o de dotes\u201d.<br \/>\nEm mar\u00e7o de 2003, no mesmo jornal, Rachel afirma, j\u00e1 no t\u00edtulo, que \u201cA inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem para todos\u201d. Diz: \u201cA no\u00e7\u00e3o comum que se tem a respeito do escritor \u00e9 que s\u00e3o pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, s\u00e3o periodicamente visitadas por uma esp\u00e9cie de ilumina\u00e7\u00e3o das musas ou do Esp\u00edrito Santo, ou de um outro esp\u00edrito propriamente dito \u2013 fen\u00f4meno a que se d\u00e1 o nome de \u2018\u2019inspira\u00e7\u00e3o\u2019. O escritor fica sendo assim uma esp\u00e9cie de agente ou m\u00e9dium, que apenas capta as inspira\u00e7\u00f5es sobre ele descidas, manipulando-as no papel&#8230; E continua: Pode ser que existam esses privilegiados \u2013 mas os que conhe\u00e7o s\u00e3o diferentes&#8230;O processo todo \u00e9 penoso e dolorido&#8230;\u201d concluindo, com brilhantismo: \u201cTalvez com autores de imagina\u00e7\u00e3o rica o fen\u00f4meno se passe diferente&#8230; A\u00ed a sensa\u00e7\u00e3o criadora deve ser de plenitude e gratifica\u00e7\u00e3o. Mas esses s\u00e3o as estrelas. A arraia mi\u00fada escrevente \u2013 ai de n\u00f3s \u2013 \u00e9 mesmo assim como eu disse: pena, padece e s\u00f3 ent\u00e3o escreve\u201d. Rachel mudou de cen\u00e1rio e sabe que seu agnosticismo, mesmo citando Deus, n\u00e3o ser\u00e1 empecilho para, na dimens\u00e3o em que estiver, velar pela arraia mi\u00fada que pena, padece e tenta escrever. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 09\/11\/2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ter\u00e7a-feira, manh\u00e3 cedo. O telefone toca. \u00c9 Nat\u00e9rcia Campos quem me relata o telefonema recebido, minutos antes, da amiga Maria Luiza de Queiroz. A irm\u00e3 de Raquel fala de sua \u00faltima noite, insone como que conversando com os seus mortos queridos. Aquietara-se s\u00f3 \u00e0s cinco horas e \u00e0s seis j\u00e1 havia partido, sem lamentos ou ais, como a cearense forte que sempre foi. N\u00e3o h\u00e1 meios de entender a hora da morte, mas h\u00e1 sentido em louvar a vida. Rachel com ch. Ch de chama: o fogo que a incendiou e que deu luz \u00e0 liberdade intelectual da mulher. Ao gerar \u201cO Quinze\u201d em 1930, com 20 anos, decretava o fim da submiss\u00e3o liter\u00e1ria das que haviam nascido apenas para estudar, casar e cuidar da fam\u00edlia. Rachel foi chamego de seus leitores e chama que ainda ardia aos 93 anos. Fez-se grande com seu jeito simples, direto e s\u00e1bio de dizer o que pensava, em entrevistas, cr\u00f4nicas e romances conhecidos de todos. Sem alardes, mas com a t\u00eampera dos que esperam a justi\u00e7a dos homens, foi a primeira mulher a entrar, em 1977, na, at\u00e9 ent\u00e3o machista, Academia Brasileira de Letras.<br \/>\nRachel n\u00e3o era produto da m\u00eddia. Ela era a m\u00eddia. N\u00e3o era uma marqueteira, mas produto de sua compet\u00eancia. N\u00e3o bajulava, era bajulada, mesmo contra a sua vontade. N\u00e3o era objeto de contempla\u00e7\u00e3o, mas um cani\u00e7o ou baob\u00e1, dependendo das circunst\u00e2ncias, com ra\u00edzes fincadas em dores sentidas, em vit\u00f3rias alcan\u00e7adas e saudades acalentadas. Era tripartida: Fortaleza, onde deixou o seu umbigo; Quixad\u00e1, onde assentou seu cora\u00e7\u00e3o; e o Rio, onde pousou seu corpo por mais tempo e para o sempre.<br \/>\nN\u00e3o vou apreciar a obra liter\u00e1ria de Rachel. Quase todos j\u00e1 leram O Quinze, As Tr\u00eas Marias, Caminhos de Pedras, Dora Doralina e Memorial de Maria Moura, para ficar nos trabalhos mais consagrados. Prefiro reverenci\u00e1-la. Curvo-me \u00e0 sua face expressiva de cronista, quando fala com propriedade do ato de ler e do of\u00edcio de escrever.<br \/>\nEm cr\u00f4nica intitulada \u201cEscrever\u201d, publicada em 2000, no jornal \u201cO Estado de S.Paulo\u201d, Rachel assevera: \u201cExiste ainda uma outra maneira de ver estimulada a voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dos jovens: \u00e9 uma casa aberta onde todo mundo l\u00ea, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem direito \u00e0 cr\u00edtica, a falar o que pensa sobre a produ\u00e7\u00e3o de pais, irm\u00e3os, tios e visitas \u00edntimas, numa esp\u00e9cie de tribunal liter\u00e1rio exercido \u00e0 mesa de jantar. E sobre escrever de verdade, ela assevera: \u201cMas voltando ao assunto da voca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para o cantor \u00e9 preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes na sua especialidade \u2013 medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam do seu of\u00edcio, n\u00e3o conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus sempre \u00e9 parco na concess\u00e3o de dotes\u201d.<br \/>\nEm mar\u00e7o de 2003, no mesmo jornal, Rachel afirma, j\u00e1 no t\u00edtulo, que \u201cA inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem para todos\u201d. Diz: \u201cA no\u00e7\u00e3o comum que se tem a respeito do escritor \u00e9 que s\u00e3o pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, s\u00e3o periodicamente visitadas por uma esp\u00e9cie de ilumina\u00e7\u00e3o das musas ou do Esp\u00edrito Santo, ou de um outro esp\u00edrito propriamente dito \u2013 fen\u00f4meno a que se d\u00e1 o nome de \u2018\u2019inspira\u00e7\u00e3o\u2019. O escritor fica sendo assim uma esp\u00e9cie de agente ou m\u00e9dium, que apenas capta as inspira\u00e7\u00f5es sobre ele descidas, manipulando-as no papel&#8230; E continua: Pode ser que existam esses privilegiados \u2013 mas os que conhe\u00e7o s\u00e3o diferentes&#8230;O processo todo \u00e9 penoso e dolorido&#8230;\u201d concluindo, com brilhantismo: \u201cTalvez com autores de imagina\u00e7\u00e3o rica o fen\u00f4meno se passe diferente&#8230; A\u00ed a sensa\u00e7\u00e3o criadora deve ser de plenitude e gratifica\u00e7\u00e3o. Mas esses s\u00e3o as estrelas. A arraia mi\u00fada escrevente \u2013 ai de n\u00f3s \u2013 \u00e9 mesmo assim como eu disse: pena, padece e s\u00f3 ent\u00e3o escreve\u201d. 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