{"id":3745,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-pais-do-sonho\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"o-pais-do-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-pais-do-sonho\/","title":{"rendered":"O PA\u00cdS DO SONHO"},"content":{"rendered":"<p>Uma vez, ao voltar de uma das minhas visitas \u00e0 Alemanha, escrevi um artigo (Alemanha de rasp\u00e3o) em que disse que aquele pa\u00eds passava a sensa\u00e7\u00e3o de estar pronto. L\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mis\u00e9ria, a seguran\u00e7a \u00e9 perfeita, a economia \u00e9 forte, os parques e as florestas s\u00e3o bem cuidados e o povo tem amor pr\u00f3prio. Hoje, ap\u00f3s o segundo gol de Ronaldo, agradeci a Deus pelo fato da Alemanha j\u00e1 ter tudo. N\u00f3s precisamos de sonho, esperan\u00e7a e n\u00e3o nada mais parecido com o sonho brasileiro que futebol. Ganhamos com a alegria de meninos favelados que conseguiram, com os p\u00e9s, a rever\u00eancia de pa\u00edses ricos que os idolatram.<br \/>\n\u00c9 o menino pobre do interior pernambucano que se soma ao favelado carioca e este ao moleque ga\u00facho. S\u00e3o tantos, a maioria j\u00e1 rica e consagrada, pela gra\u00e7a de suas fintas e a pontaria de seus chutes.<br \/>\nA Alemanha n\u00e3o precisava do campeonato. A Alemanha tem o Euro e pode trabalhar amanh\u00e3 com mais afinco em suas milhares de f\u00e1bricas robotizadas. O brasil sim precisava desta ta\u00e7a, onde n\u00e3o h\u00e1 concavidade, mas uma bola sendo erguida como se fora \u2013 e \u00e9 \u2013 um cetro.<br \/>\nEm meio a tanta crise, a uma campanha eleitoral marcada pela perf\u00eddia, a espionagem e o uso exacerbado do marketing, ao descr\u00e9dito mundial provocado pela gan\u00e2ncia de investidores sem p\u00e1tria e sem hora, o brasil precisava beijar o ouro. Mesmo que de forma fugaz. Um pa\u00eds que, quem sabe, precise da rudeza e do sentimentalismo de um sargent\u00e3o, que est\u00e1 faltando para colocar ordem em nossa grande casa. Avulta, em meio do Del\u00edrio coletivo, a certeza de que basta algu\u00e9m falar grosso, bater na mesa e saber afagar, quando poss\u00edvel. Chega de parecer primeiro mundo. N\u00e3o d\u00e1 pra esconder nossas mazelas com a visita obrigat\u00f3ria de autoridades \u00e0s escolas de samba. \u00c9 preciso assumir o que somos, mas cozinhar a nossa dignidade com todo o misticismo inato. Paradoxal? Claro. Este \u00e9 um pa\u00eds assim, nenhum se compara a ele.<br \/>\nEsta li\u00e7\u00e3o do futebol nos remete \u00e0 capacidade de manter acesa a esperan\u00e7a, mesmo que nos vejam com olhos atravessados, tor\u00e7am o nariz ao nosso exotismo e n\u00e3o acreditam que a bagun\u00e7a \u00e9 a ordem do caos com uma pitada de felicidade.<br \/>\nQueremos t\u00e3o pouco. \u00c9 s\u00f3 deixar que as favelas exportem talentos, que os intelectuais n\u00e3o sejam t\u00e3o pomposos e a alegria para substituir a viol\u00eancia. H\u00e1 neste pa\u00eds muito a fazer. Nada est\u00e1 pronto, tudo precisa ser cuidado e as pessoas podem se unir para isso. O futebol, na sua singeleza, nos aponta o caminho. Acreditem em sonho. Sonho tem cinco letras, as cinco letras do penta.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 07\/02\/2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vez, ao voltar de uma das minhas visitas \u00e0 Alemanha, escrevi um artigo (Alemanha de rasp\u00e3o) em que disse que aquele pa\u00eds passava a sensa\u00e7\u00e3o de estar pronto. L\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mis\u00e9ria, a seguran\u00e7a \u00e9 perfeita, a economia \u00e9 forte, os parques e as florestas s\u00e3o bem cuidados e o povo tem amor pr\u00f3prio. Hoje, ap\u00f3s o segundo gol de Ronaldo, agradeci a Deus pelo fato da Alemanha j\u00e1 ter tudo. N\u00f3s precisamos de sonho, esperan\u00e7a e n\u00e3o nada mais parecido com o sonho brasileiro que futebol. Ganhamos com a alegria de meninos favelados que conseguiram, com os p\u00e9s, a rever\u00eancia de pa\u00edses ricos que os idolatram.<br \/>\n\u00c9 o menino pobre do interior pernambucano que se soma ao favelado carioca e este ao moleque ga\u00facho. S\u00e3o tantos, a maioria j\u00e1 rica e consagrada, pela gra\u00e7a de suas fintas e a pontaria de seus chutes.<br \/>\nA Alemanha n\u00e3o precisava do campeonato. A Alemanha tem o Euro e pode trabalhar amanh\u00e3 com mais afinco em suas milhares de f\u00e1bricas robotizadas. O brasil sim precisava desta ta\u00e7a, onde n\u00e3o h\u00e1 concavidade, mas uma bola sendo erguida como se fora \u2013 e \u00e9 \u2013 um cetro.<br \/>\nEm meio a tanta crise, a uma campanha eleitoral marcada pela perf\u00eddia, a espionagem e o uso exacerbado do marketing, ao descr\u00e9dito mundial provocado pela gan\u00e2ncia de investidores sem p\u00e1tria e sem hora, o brasil precisava beijar o ouro. Mesmo que de forma fugaz. Um pa\u00eds que, quem sabe, precise da rudeza e do sentimentalismo de um sargent\u00e3o, que est\u00e1 faltando para colocar ordem em nossa grande casa. Avulta, em meio do Del\u00edrio coletivo, a certeza de que basta algu\u00e9m falar grosso, bater na mesa e saber afagar, quando poss\u00edvel. Chega de parecer primeiro mundo. N\u00e3o d\u00e1 pra esconder nossas mazelas com a visita obrigat\u00f3ria de autoridades \u00e0s escolas de samba. \u00c9 preciso assumir o que somos, mas cozinhar a nossa dignidade com todo o misticismo inato. Paradoxal? Claro. Este \u00e9 um pa\u00eds assim, nenhum se compara a ele.<br \/>\nEsta li\u00e7\u00e3o do futebol nos remete \u00e0 capacidade de manter acesa a esperan\u00e7a, mesmo que nos vejam com olhos atravessados, tor\u00e7am o nariz ao nosso exotismo e n\u00e3o acreditam que a bagun\u00e7a \u00e9 a ordem do caos com uma pitada de felicidade.<br \/>\nQueremos t\u00e3o pouco. \u00c9 s\u00f3 deixar que as favelas exportem talentos, que os intelectuais n\u00e3o sejam t\u00e3o pomposos e a alegria para substituir a viol\u00eancia. H\u00e1 neste pa\u00eds muito a fazer. Nada est\u00e1 pronto, tudo precisa ser cuidado e as pessoas podem se unir para isso. O futebol, na sua singeleza, nos aponta o caminho. Acreditem em sonho. Sonho tem cinco letras, as cinco letras do penta.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 07\/02\/2002.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3745","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3745","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3745"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3745\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}