{"id":3749,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/lua-da-mel\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"lua-da-mel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/lua-da-mel\/","title":{"rendered":"LUA DA MEL"},"content":{"rendered":"<p>Procurei descobrir a origem da express\u00e3o lua-de-mel e encontrei quatro vers\u00f5es. Todas muitas antigas, as duas primeiras meras lendas. Na antiga Germ\u00e2nia, Alemanha de hoje, os noivos casavam \u00e0 \u00e9poca da lua-nova e levavam uma mistura de \u00e1gua e mel para beber ao luar em busca da felicidade. A segunda: no tempo em que as jovens eram capturadas, muitas vezes contra sua vontade, os raptores escondiam-nas por um m\u00eas, de uma lua-cheia a outra lua-cheia, para apaixon\u00e1-las, ou convenc\u00ea-las a casar e, para isso, davam-lhes uma bebida afrodis\u00edaca \u00e0 base de mel que, segundo a lenda, surtia bom efeito. A terceira, deve-se a um costume dos romanos que untavam com mel a soleira das portas dos noivos. E a quarta, entre os povos orientais, os noivos recebiam mel e vinho e depois se retiravam, permanecendo longe do povoado por certo tempo, o equivalente a uma lua, que poderia significar uma semana ou um m\u00eas.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 preciso conhecer a origem da express\u00e3o vinda do latim (luna, lua e melle, mel), nem o tratado sobre as abelhas, a melissografia, para saber ser o mel tirado do n\u00e9ctar das flores, e guardado em favos ou alv\u00e9olos, para servir de alimento \u00e0s suas larvas ou \u00e0s pessoas. E tamb\u00e9m que designa, desde tempos imemoriais, as primeiras semanas seguintes ao casamento.<br \/>\nAnteontem foi lua cheia. Fase em que esse astro feminino est\u00e1 vis\u00edvel, claro, belo e pleno de luz. Sa\u00ed de onde estava e, por momentos, fiquei s\u00f3, ao relento, olhando para a distante lua, a me fazer perguntas sem encontrar respostas. Era plenil\u00fanio. O terceiro dia de lua cheia quando ela refletia o esplendor de sua luminosidade naquela noite entre preces, risos, c\u00e2nticos, choros, cumprimentos, abra\u00e7os, votos, luzes, flashes, m\u00fasicas, comidas e bebidas, De vez em quando uma nuvem branca, outra mais espessa, encobria a fosforesc\u00eancia da regente das mar\u00e9s e das mentes. Soprava um vento e eu absorvia o ar como fonte de energia, pois a emo\u00e7\u00e3o dava um sacolejo na alma fazendo o corpo responder por reflexo. Mas, como a volubilidade da pr\u00f3pria lua, isso tamb\u00e9m passou.<br \/>\nAnteontem, para quem n\u00e3o se lembra, foi primeiro de mar\u00e7o. Sessenta dias desde que o ano come\u00e7ou e, como se sabe, o ano \u00e9 o pai de todos os meses e dias. Segundo um calend\u00e1rio-folhinha, editado em Petr\u00f3polis, era o Dia da Ora\u00e7\u00e3o da Mulher. Sou pouco de ave-marias e pais-nossos. Mesmo assim, por mais alinhavada que fosse, brotou l\u00e1 de dentro uma ora\u00e7\u00e3o em meio a sentimentos v\u00e1rios. Nessa mesma folhinha, um pensamento de Madame de Sta\u00ebl: \u201cquando sozinhos, vigiemos nossos pensamentos; em fam\u00edlia, nosso g\u00eanio; em p\u00fablico, nossa l\u00edngua\u201d. Pois \u00e9.<br \/>\nVoltei a olhar a lua e ela n\u00e3o estava entre os astros distra\u00edda. Batia firme, bisbilhoteira, espreitava tudo, teimava em pratear as flores. Independente das cores, mostrava sua face inteira, arredondada, como a dizer que o mundo gira e nos leva de rold\u00e3o, sem que o presente seja sempre a linha reta ligada ao passado e tampouco o futuro a mera e \u00fanica esperan\u00e7a do hoje. Quis fazer mais uma pergunta e eis que uma nuvem a cobriu, por certo a esquivando de mim.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 03\/03\/2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Procurei descobrir a origem da express\u00e3o lua-de-mel e encontrei quatro vers\u00f5es. Todas muitas antigas, as duas primeiras meras lendas. Na antiga Germ\u00e2nia, Alemanha de hoje, os noivos casavam \u00e0 \u00e9poca da lua-nova e levavam uma mistura de \u00e1gua e mel para beber ao luar em busca da felicidade. A segunda: no tempo em que as jovens eram capturadas, muitas vezes contra sua vontade, os raptores escondiam-nas por um m\u00eas, de uma lua-cheia a outra lua-cheia, para apaixon\u00e1-las, ou convenc\u00ea-las a casar e, para isso, davam-lhes uma bebida afrodis\u00edaca \u00e0 base de mel que, segundo a lenda, surtia bom efeito. A terceira, deve-se a um costume dos romanos que untavam com mel a soleira das portas dos noivos. E a quarta, entre os povos orientais, os noivos recebiam mel e vinho e depois se retiravam, permanecendo longe do povoado por certo tempo, o equivalente a uma lua, que poderia significar uma semana ou um m\u00eas.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 preciso conhecer a origem da express\u00e3o vinda do latim (luna, lua e melle, mel), nem o tratado sobre as abelhas, a melissografia, para saber ser o mel tirado do n\u00e9ctar das flores, e guardado em favos ou alv\u00e9olos, para servir de alimento \u00e0s suas larvas ou \u00e0s pessoas. E tamb\u00e9m que designa, desde tempos imemoriais, as primeiras semanas seguintes ao casamento.<br \/>\nAnteontem foi lua cheia. Fase em que esse astro feminino est\u00e1 vis\u00edvel, claro, belo e pleno de luz. Sa\u00ed de onde estava e, por momentos, fiquei s\u00f3, ao relento, olhando para a distante lua, a me fazer perguntas sem encontrar respostas. Era plenil\u00fanio. O terceiro dia de lua cheia quando ela refletia o esplendor de sua luminosidade naquela noite entre preces, risos, c\u00e2nticos, choros, cumprimentos, abra\u00e7os, votos, luzes, flashes, m\u00fasicas, comidas e bebidas, De vez em quando uma nuvem branca, outra mais espessa, encobria a fosforesc\u00eancia da regente das mar\u00e9s e das mentes. Soprava um vento e eu absorvia o ar como fonte de energia, pois a emo\u00e7\u00e3o dava um sacolejo na alma fazendo o corpo responder por reflexo. Mas, como a volubilidade da pr\u00f3pria lua, isso tamb\u00e9m passou.<br \/>\nAnteontem, para quem n\u00e3o se lembra, foi primeiro de mar\u00e7o. Sessenta dias desde que o ano come\u00e7ou e, como se sabe, o ano \u00e9 o pai de todos os meses e dias. Segundo um calend\u00e1rio-folhinha, editado em Petr\u00f3polis, era o Dia da Ora\u00e7\u00e3o da Mulher. Sou pouco de ave-marias e pais-nossos. Mesmo assim, por mais alinhavada que fosse, brotou l\u00e1 de dentro uma ora\u00e7\u00e3o em meio a sentimentos v\u00e1rios. Nessa mesma folhinha, um pensamento de Madame de Sta\u00ebl: \u201cquando sozinhos, vigiemos nossos pensamentos; em fam\u00edlia, nosso g\u00eanio; em p\u00fablico, nossa l\u00edngua\u201d. Pois \u00e9.<br \/>\nVoltei a olhar a lua e ela n\u00e3o estava entre os astros distra\u00edda. Batia firme, bisbilhoteira, espreitava tudo, teimava em pratear as flores. 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Quis fazer mais uma pergunta e eis que uma nuvem a cobriu, por certo a esquivando de mim.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 03\/03\/2002.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3749","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3749"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3749\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}