{"id":3751,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/rosebud-e-a-jangada\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"rosebud-e-a-jangada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/rosebud-e-a-jangada\/","title":{"rendered":"ROSEBUD E A JANGADA"},"content":{"rendered":"<p>Quem conhece a filmografia de Orson Welles sabe que o criador de \u201cCidad\u00e3o Kane\u201d era um ser estranho, merc\u00ea de toda a sua genialidade. Revi, nestes dias, Cidad\u00e3o Kane e, em seguida, li o livro \u201cOrson Welles no Cear\u00e1\u201d, do cr\u00edtico de cinema Firmino Holanda.Com maestria, Holanda narra a filmagem n\u00e3o conclu\u00edda de \u201cIt\u2019s all true\u201d (\u00c9 tudo verdade) e, especialmente, descreve, como agrad\u00e1vel cronista, a ambi\u00eancia da \u00e9poca. O livro \u00e9 bom no come\u00e7o, meio e fim.<br \/>\nO filme Cidad\u00e3o Kane, para os que ainda n\u00e3o ouviram falar sobre ele ou n\u00e3o tiveram a ventura de assisti-lo, trata, em r\u00e1pidas pinceladas, da hist\u00f3ria de um menino pobre que, ao receber uma inesperada heran\u00e7a, sai da prov\u00edncia, estuda, cresce e vira um magnata da imprensa, casa, tem uma amante, tenta a carreira pol\u00edtica, sofre chantagem e cai em desgra\u00e7a. Durante as suas filmagens, Orson Welles, que tinha como refer\u00eancia a vida do empres\u00e1rio jornal\u00edstico William Randolph Hearst, monta um jogo psicol\u00f3gico forte e, por conta disso, padeceu deste todas as formas de restri\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e bloqueios, s\u00f3 concluindo-as gra\u00e7as \u00e0 tenacidade que os seus 24 anos lhe conferia. Foi acusado at\u00e9 de comunista, por atacar um \u00edcone do capitalismo americano e mostrar a sua decad\u00eancia. Era 1941, os Estados Unidos entrava na II \u00aa Guerra Mundial e o patriotismo americano, como acontece em \u00e9pocas de crise, estava exacerbado.<br \/>\nTalvez para provar n\u00e3o ser comunista, Orson Welles, fazendo parte da \u201cpol\u00edtica da boa vizinhan\u00e7a\u201d encetada pelos Estados Unidos, veio filmar no Brasil no ano seguinte, 1942, o que seria o filme n\u00e3o conclu\u00eddo, \u201cTudo \u00e9 verdade\u201d. Filmou o carnaval de 42 no Rio de Janeiro e veio ao Cear\u00e1, motivado por uma reportagem da revista \u201cTime\u201d sobre a aventura de quatro jangadeiros cearenses que viajaram mar afora, sem b\u00fassola e sem mapa, de Fortaleza ao Rio de Janeiro. Welles desceu no campo de pouso do Alto da Balan\u00e7a, hospedou-se no Excelsior Hotel, enturmou-se no Jangada Clube, um buc\u00f3lico bangal\u00f4 na Praia de Iracema \u00e0 beira mar, onde parte da elite de Fortaleza se encontrava, e reuniu os her\u00f3is do mar para ouvir a narrativa de sua epopeia.<br \/>\nConviveu com ricos, mas tomou-se de amores pelos pescadores que, \u00e0quela \u00e9poca, aportavam suas jangadas na Praia de Iracema, especialmente Manoel Jacar\u00e9, o l\u00edder do grupo do raid destemido. Manoel e os seus companheiros voltaram ao Rio para, com Welles, filmarem a chegada triunfal (j\u00e1 acontecida) \u00e0 antiga capital da Rep\u00fablica. Um barco &#8211; com os equipamentos e o pessoal de filmagem \u2013 puxava a jangada. O cabo soltou-se, a jangada virou e Manoel Jacar\u00e9 desapareceu para sempre na ba\u00eda da Guanabara.<br \/>\nVolto ao Cidad\u00e3o Kane para falar de um pequeno tren\u00f3 que o personagem principal, quando crian\u00e7a, usava para deslizar no gelo e cujo nome, Rosebud, \u00e9 uma esp\u00e9cie de enigma at\u00e9 o final do filme. Agora, uma ideai me ocorreu: seria a jangada uma esp\u00e9cie de tren\u00f3 dos mares a fazer uma liga\u00e7\u00e3o no imagin\u00e1rio de Welles? Ou o mastro que teria batido na cabe\u00e7a de Manoel Jacar\u00e9 seria a antevis\u00e3o da marca da maldade de Welles?<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 24\/03\/2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem conhece a filmografia de Orson Welles sabe que o criador de \u201cCidad\u00e3o Kane\u201d era um ser estranho, merc\u00ea de toda a sua genialidade. Revi, nestes dias, Cidad\u00e3o Kane e, em seguida, li o livro \u201cOrson Welles no Cear\u00e1\u201d, do cr\u00edtico de cinema Firmino Holanda.Com maestria, Holanda narra a filmagem n\u00e3o conclu\u00edda de \u201cIt\u2019s all true\u201d (\u00c9 tudo verdade) e, especialmente, descreve, como agrad\u00e1vel cronista, a ambi\u00eancia da \u00e9poca. O livro \u00e9 bom no come\u00e7o, meio e fim.<br \/>\nO filme Cidad\u00e3o Kane, para os que ainda n\u00e3o ouviram falar sobre ele ou n\u00e3o tiveram a ventura de assisti-lo, trata, em r\u00e1pidas pinceladas, da hist\u00f3ria de um menino pobre que, ao receber uma inesperada heran\u00e7a, sai da prov\u00edncia, estuda, cresce e vira um magnata da imprensa, casa, tem uma amante, tenta a carreira pol\u00edtica, sofre chantagem e cai em desgra\u00e7a. Durante as suas filmagens, Orson Welles, que tinha como refer\u00eancia a vida do empres\u00e1rio jornal\u00edstico William Randolph Hearst, monta um jogo psicol\u00f3gico forte e, por conta disso, padeceu deste todas as formas de restri\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e bloqueios, s\u00f3 concluindo-as gra\u00e7as \u00e0 tenacidade que os seus 24 anos lhe conferia. Foi acusado at\u00e9 de comunista, por atacar um \u00edcone do capitalismo americano e mostrar a sua decad\u00eancia. Era 1941, os Estados Unidos entrava na II \u00aa Guerra Mundial e o patriotismo americano, como acontece em \u00e9pocas de crise, estava exacerbado.<br \/>\nTalvez para provar n\u00e3o ser comunista, Orson Welles, fazendo parte da \u201cpol\u00edtica da boa vizinhan\u00e7a\u201d encetada pelos Estados Unidos, veio filmar no Brasil no ano seguinte, 1942, o que seria o filme n\u00e3o conclu\u00eddo, \u201cTudo \u00e9 verdade\u201d. Filmou o carnaval de 42 no Rio de Janeiro e veio ao Cear\u00e1, motivado por uma reportagem da revista \u201cTime\u201d sobre a aventura de quatro jangadeiros cearenses que viajaram mar afora, sem b\u00fassola e sem mapa, de Fortaleza ao Rio de Janeiro. Welles desceu no campo de pouso do Alto da Balan\u00e7a, hospedou-se no Excelsior Hotel, enturmou-se no Jangada Clube, um buc\u00f3lico bangal\u00f4 na Praia de Iracema \u00e0 beira mar, onde parte da elite de Fortaleza se encontrava, e reuniu os her\u00f3is do mar para ouvir a narrativa de sua epopeia.<br \/>\nConviveu com ricos, mas tomou-se de amores pelos pescadores que, \u00e0quela \u00e9poca, aportavam suas jangadas na Praia de Iracema, especialmente Manoel Jacar\u00e9, o l\u00edder do grupo do raid destemido. Manoel e os seus companheiros voltaram ao Rio para, com Welles, filmarem a chegada triunfal (j\u00e1 acontecida) \u00e0 antiga capital da Rep\u00fablica. Um barco &#8211; com os equipamentos e o pessoal de filmagem \u2013 puxava a jangada. O cabo soltou-se, a jangada virou e Manoel Jacar\u00e9 desapareceu para sempre na ba\u00eda da Guanabara.<br \/>\nVolto ao Cidad\u00e3o Kane para falar de um pequeno tren\u00f3 que o personagem principal, quando crian\u00e7a, usava para deslizar no gelo e cujo nome, Rosebud, \u00e9 uma esp\u00e9cie de enigma at\u00e9 o final do filme. Agora, uma ideai me ocorreu: seria a jangada uma esp\u00e9cie de tren\u00f3 dos mares a fazer uma liga\u00e7\u00e3o no imagin\u00e1rio de Welles? Ou o mastro que teria batido na cabe\u00e7a de Manoel Jacar\u00e9 seria a antevis\u00e3o da marca da maldade de Welles?<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 24\/03\/2002.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3751","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3751","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3751\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}