{"id":3755,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/as-tres-bebidas\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"as-tres-bebidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/as-tres-bebidas\/","title":{"rendered":"AS TR\u00caS BEBIDAS"},"content":{"rendered":"<p>Era a primeira vez em que essas tr\u00eas mulheres estavam reunidas. E foi \u00e0 noite, na mesa de um bar, em meio \u00e0 rua, ouvindo os passantes e at\u00e9 os ru\u00eddos de um camel\u00f4 imitando gatos num saco. Somavam anos, enganos e desenganos, mas se mostravam educadas e gentis, embora, como j\u00e1 disse algu\u00e9m: mulher \u00e9 sempre muito severa ao julgar uma semelhante.<br \/>\nSem que combinassem, sorviam bebidas diferentes. Uma, a mais velha, a observadora, ficava com o gosto amargo do Campari, como se estivesse sentada em uma pizza italiana. A outra, a risonha, deliciava-se com o calor da tequila transformada em Marguerita numa imagin\u00e1ria bodega mexicana. A terceira, a sonhadora, foi buscar nas terras altas da Esc\u00f3cia o seu n\u00e9ctar e, como se num pub londrino estivesse, bebia goles do seu u\u00edsque.<br \/>\nO Campari poderia ser apenas uma bebida, mas tamb\u00e9m retratar uma trajet\u00f3ria, mostrando como nada havia sido doce e ameno. O amargor da bebida parecia ser a confirma\u00e7\u00e3o da luta j\u00e1 t\u00e3o larga em tempo e que ainda n\u00e3o quedara suave, pois ora navegava em meio a procelas, sem que fosse barca\u00e7a ou timoneira.<br \/>\nA Marguerita talvez simbolizasse a sexualidade forte, agu\u00e7ada pelo sal da borda da ta\u00e7a. S\u00f3 que n\u00e3o se vive na borda e a\u00ed o agave da tequila mostrava a crueza da aguardente, sem refino e sem sofismas.<br \/>\nO U\u00edsque \u00e9 uma bebida longa que vai entorpecendo as dores, agu\u00e7ando os sentidos e tentando repor a alma em seu devido canto, mesmo que o pranto j\u00e1 n\u00e3o brote pelos olhos, mas umede\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE a conversou tomou o rumo dos descompromissos. A mais velha usou de sua arg\u00facia para dizer verdades, misturando verve com a crueza da realidade, sem perder o senso de humor que se fazia v\u00e1rio.<br \/>\nA da marguerita apenas intervia, como uma moderadora de di\u00e1logos, a espica\u00e7ar, fustigar e plantar revela\u00e7\u00f5es na boca de cada interlocutora.<br \/>\nA terceira, despia-se de suas m\u00e1goas e mostrava a inquietude guardada com cautela, mas transbordante em gestos e amuos.<br \/>\nA carne crua do salm\u00e3o era o \u00fanico elo entre elas. Um elo tenro que, pouco a pouco, desaparecia entre pequenas e literais garfadas, s\u00f3 acompanhadas do p\u00e3o torrado que j\u00e1 perdera suas caracter\u00edsticas e propriedades. Mas, era noite leve e tudo se dizia sem medo, sem reparar que, em mesa cont\u00edgua, pessoas estranhas a tudo ouvissem. Importava n\u00e3o, eram as dores do mundo que as tornavam semelhantes, embora, quem sabe, pouco tivessem em comum.<\/p>\n<p>CR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 26\/05\/2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era a primeira vez em que essas tr\u00eas mulheres estavam reunidas. E foi \u00e0 noite, na mesa de um bar, em meio \u00e0 rua, ouvindo os passantes e at\u00e9 os ru\u00eddos de um camel\u00f4 imitando gatos num saco. Somavam anos, enganos e desenganos, mas se mostravam educadas e gentis, embora, como j\u00e1 disse algu\u00e9m: mulher \u00e9 sempre muito severa ao julgar uma semelhante.<br \/>\nSem que combinassem, sorviam bebidas diferentes. Uma, a mais velha, a observadora, ficava com o gosto amargo do Campari, como se estivesse sentada em uma pizza italiana. A outra, a risonha, deliciava-se com o calor da tequila transformada em Marguerita numa imagin\u00e1ria bodega mexicana. A terceira, a sonhadora, foi buscar nas terras altas da Esc\u00f3cia o seu n\u00e9ctar e, como se num pub londrino estivesse, bebia goles do seu u\u00edsque.<br \/>\nO Campari poderia ser apenas uma bebida, mas tamb\u00e9m retratar uma trajet\u00f3ria, mostrando como nada havia sido doce e ameno. O amargor da bebida parecia ser a confirma\u00e7\u00e3o da luta j\u00e1 t\u00e3o larga em tempo e que ainda n\u00e3o quedara suave, pois ora navegava em meio a procelas, sem que fosse barca\u00e7a ou timoneira.<br \/>\nA Marguerita talvez simbolizasse a sexualidade forte, agu\u00e7ada pelo sal da borda da ta\u00e7a. S\u00f3 que n\u00e3o se vive na borda e a\u00ed o agave da tequila mostrava a crueza da aguardente, sem refino e sem sofismas.<br \/>\nO U\u00edsque \u00e9 uma bebida longa que vai entorpecendo as dores, agu\u00e7ando os sentidos e tentando repor a alma em seu devido canto, mesmo que o pranto j\u00e1 n\u00e3o brote pelos olhos, mas umede\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE a conversou tomou o rumo dos descompromissos. A mais velha usou de sua arg\u00facia para dizer verdades, misturando verve com a crueza da realidade, sem perder o senso de humor que se fazia v\u00e1rio.<br \/>\nA da marguerita apenas intervia, como uma moderadora de di\u00e1logos, a espica\u00e7ar, fustigar e plantar revela\u00e7\u00f5es na boca de cada interlocutora.<br \/>\nA terceira, despia-se de suas m\u00e1goas e mostrava a inquietude guardada com cautela, mas transbordante em gestos e amuos.<br \/>\nA carne crua do salm\u00e3o era o \u00fanico elo entre elas. 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