{"id":3759,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-amor-cura\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"o-amor-cura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-amor-cura\/","title":{"rendered":"O AMOR CURA?"},"content":{"rendered":"<p>Em uma cidade qualquer deste mundo morava um homem muito solit\u00e1rio. At\u00e9 a\u00ed nada de novo ou surpreendente, pois em todas as cidades h\u00e1 pessoas, homens e mulheres, muito solit\u00e1rias. Mas esse se imaginava muito mais solit\u00e1rio, de verdade. E a sua solid\u00e3o era t\u00e3o forte que, ele pr\u00f3prio, ao olhar no seu rachado, manchado e quase opaco espelho, falava a si pr\u00f3prio: &#8211; como vai? E ele pr\u00f3prio respondia: vou s\u00f3.<br \/>\nN\u00e3o tinha amigos, colegas, conhecidos, advers\u00e1rios, confidentes, amores, ex-amores ou parentes. Morava s\u00f3, no fim de uma rua esburacada, num casebre velho que nem chave tinha, bastava uma tramela por dentro e um pano que servia de cal\u00e7o ao sair pela \u00fanica porta. Herdara de uma tia-av\u00f3 que morrera t\u00edsica, o \u00fanico parente que lhe restara, pois a m\u00e3e faleceu no seu parto e nunca conheceu o pai. Herdara era maneira de dizer, pois nem a tia, tampouco ele, tinha qualquer documento de propriedade. Tamb\u00e9m ningu\u00e9m se importava com isso.<br \/>\nEra biscateiro. Pintava ruim, as torneiras consertadas logo voltavam a vazar, os pregos pregados saiam tortos, as paredes rebocadas nunca ficavam lisas e, um dia, ao se meter a eletricista, levou um choque, caiu da escada e da\u00ed levado a um hospital p\u00fablico com politraumatismo. Ficou em coma e ao acordar n\u00e3o se lembrava sequer do nome do hospital onde estava. Sabia ser grande, fracas luzes, cheirando a urina e a \u00e9ter, ouvindo dia e noite choros, gemidos e gritos, e as pessoas de branco o tratando apenas como o prontu\u00e1rio 35 da enfermaria 07.<br \/>\nEngessaram bra\u00e7os, tronco e pernas. Enfaixaram a cabe\u00e7a. Ningu\u00e9m dizia seu nome, n\u00e3o falavam com ele. Apenas aplicavam inje\u00e7\u00f5es, faziam curativos, abriam sua boca e colocam p\u00edlulas com um pouco de \u00e1gua. Todo engessado criara escaras nas costas. Ele sabia que ia morrer, at\u00e9 porque a vida n\u00e3o o interessava mais.<br \/>\nGemia baixo at\u00e9 quando sentiu que uma auxiliar de enfermagem o tratava com muito carinho. N\u00e3o sabia nada de amor, mas notou que ela ficava mais tempo que as outras ao lado dele. Limpava-o, penteava seu cabelo, brincava com ele, mas pouco se falavam. Os olhos eram os mensageiros. Ela aparecia pela manh\u00e3 e ficava at\u00e9 o fim da tarde. \u00c0s vezes, pela madrugada. Tirava turnos de colegas, o cobria de aten\u00e7\u00f5es e sempre arranjava uma comidinha extra. Ele foi dando aten\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. Viu-se pedindo a Deus para ficar bom.<br \/>\nUm ano depois, estava sarado, com pequenas sequelas e uma carteira de aposentado na m\u00e3o rendendo um sal\u00e1rio m\u00ednimo mensal. Olhou para a auxiliar de enfermagem, a sua, ao sair do hospital e criou coragem para perguntar: quer morar comigo? Ela respondeu: n\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 que vai morar comigo. E saiu protegendo o seu ainda lento andar. O dia estava claro e as nuvens brincavam nos c\u00e9us.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 21\/07\/2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma cidade qualquer deste mundo morava um homem muito solit\u00e1rio. At\u00e9 a\u00ed nada de novo ou surpreendente, pois em todas as cidades h\u00e1 pessoas, homens e mulheres, muito solit\u00e1rias. Mas esse se imaginava muito mais solit\u00e1rio, de verdade. E a sua solid\u00e3o era t\u00e3o forte que, ele pr\u00f3prio, ao olhar no seu rachado, manchado e quase opaco espelho, falava a si pr\u00f3prio: &#8211; como vai? E ele pr\u00f3prio respondia: vou s\u00f3.<br \/>\nN\u00e3o tinha amigos, colegas, conhecidos, advers\u00e1rios, confidentes, amores, ex-amores ou parentes. Morava s\u00f3, no fim de uma rua esburacada, num casebre velho que nem chave tinha, bastava uma tramela por dentro e um pano que servia de cal\u00e7o ao sair pela \u00fanica porta. Herdara de uma tia-av\u00f3 que morrera t\u00edsica, o \u00fanico parente que lhe restara, pois a m\u00e3e faleceu no seu parto e nunca conheceu o pai. Herdara era maneira de dizer, pois nem a tia, tampouco ele, tinha qualquer documento de propriedade. Tamb\u00e9m ningu\u00e9m se importava com isso.<br \/>\nEra biscateiro. Pintava ruim, as torneiras consertadas logo voltavam a vazar, os pregos pregados saiam tortos, as paredes rebocadas nunca ficavam lisas e, um dia, ao se meter a eletricista, levou um choque, caiu da escada e da\u00ed levado a um hospital p\u00fablico com politraumatismo. Ficou em coma e ao acordar n\u00e3o se lembrava sequer do nome do hospital onde estava. Sabia ser grande, fracas luzes, cheirando a urina e a \u00e9ter, ouvindo dia e noite choros, gemidos e gritos, e as pessoas de branco o tratando apenas como o prontu\u00e1rio 35 da enfermaria 07.<br \/>\nEngessaram bra\u00e7os, tronco e pernas. Enfaixaram a cabe\u00e7a. Ningu\u00e9m dizia seu nome, n\u00e3o falavam com ele. Apenas aplicavam inje\u00e7\u00f5es, faziam curativos, abriam sua boca e colocam p\u00edlulas com um pouco de \u00e1gua. Todo engessado criara escaras nas costas. Ele sabia que ia morrer, at\u00e9 porque a vida n\u00e3o o interessava mais.<br \/>\nGemia baixo at\u00e9 quando sentiu que uma auxiliar de enfermagem o tratava com muito carinho. N\u00e3o sabia nada de amor, mas notou que ela ficava mais tempo que as outras ao lado dele. Limpava-o, penteava seu cabelo, brincava com ele, mas pouco se falavam. Os olhos eram os mensageiros. Ela aparecia pela manh\u00e3 e ficava at\u00e9 o fim da tarde. \u00c0s vezes, pela madrugada. Tirava turnos de colegas, o cobria de aten\u00e7\u00f5es e sempre arranjava uma comidinha extra. Ele foi dando aten\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. Viu-se pedindo a Deus para ficar bom.<br \/>\nUm ano depois, estava sarado, com pequenas sequelas e uma carteira de aposentado na m\u00e3o rendendo um sal\u00e1rio m\u00ednimo mensal. Olhou para a auxiliar de enfermagem, a sua, ao sair do hospital e criou coragem para perguntar: quer morar comigo? Ela respondeu: n\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 que vai morar comigo. E saiu protegendo o seu ainda lento andar. O dia estava claro e as nuvens brincavam nos c\u00e9us.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 21\/07\/2002.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3759","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3759","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3759"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3759\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3759"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3759"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3759"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}