{"id":3761,"date":"2023-12-21T09:10:53","date_gmt":"2023-12-21T12:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-ser-o-ter-e-o-parecer\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:53","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:53","slug":"o-ser-o-ter-e-o-parecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-ser-o-ter-e-o-parecer\/","title":{"rendered":"O SER, O TER E O PARECER"},"content":{"rendered":"<p>Contardo Calligaris \u00e9 um psicanalista italiano que j\u00e1 morou no Brasil e hoje vive entre os Estados Unidos, a Europa e o nosso pa\u00eds. Leitor de almas e escritor sofisticado, comparece \u00e0s quintas-feiras na Folha de S\u00e3o Paulo. Na semana passada abordou a \u201ccrise do mercado ou a crise do sujeito?\u201d, uma cr\u00f4nica-ensaio que me levou a utilizar o finito espa\u00e7o-tempo usado para devaneios em dire\u00e7\u00e3o a caminhos sem saber exatamente as sa\u00eddas. Da\u00ed, por exemplo, ter questionado tr\u00eas aspectos da vida: o ser, o ter e o parecer.<br \/>\nO ser \u00e9 a base. \u00c9 onde ficam o pa\u00eds, o estado, a cidade, o bairro, a casa em que nasceu, o tipo de fam\u00edlia que lhe trouxe ao mundo, com ra\u00e7a, origem e categoria social e formou a sua educa\u00e7\u00e3o, seja dom\u00e9stica, formal pela escola, professores e colegas, informal ou social e no que o espelho e a sua consci\u00eancia revelam e se aceita com ou sem questionamentos.<br \/>\nO ter \u00e9 aquilo que se agregou a voc\u00ea, sejam bens materiais ou a bagagens cultural, intelectual ou cient\u00edfica desenvolvidas, a partir dos valores que acredita positivos para a sua exist\u00eancia. O ter \u00e9 o que voc\u00ea n\u00e3o tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu \u00e9, sendo.<br \/>\nO problema \u00e9 que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas pessoas querem parecer o que n\u00e3o s\u00e3o e viver o que n\u00e3o t\u00eam. \u00c9 o mundo da apar\u00eancia, do sup\u00e9rfluo em que uma camisa ou um vestido, por exemplo, \u00e9 aceita n\u00e3o por sua qualidade intr\u00ednseca, mas por ostentar uma marca de alta significa\u00e7\u00e3o para a imagem de quem usa. Um rel\u00f3gio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as horas, mas pode definir uma posi\u00e7\u00e3o social de quem, diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para n\u00e3o trafegar na senda perigosa da ess\u00eancia, pois a\u00ed o terreno \u00e9 movedi\u00e7o.<br \/>\nA sociedade e, por mais que n\u00e3o queiramos estamos nela envolvidos, cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer \u00e9 o reflexo, a imagem que os outros t\u00eam de n\u00f3s, a partir de ju\u00edzos de valor falsos ou verdadeiros. \u00c9 aquilo que pode ser fabricado com \u201cmarketing pessoal \u201ce o sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensa o vazio de n\u00e3o poder ficar consigo mesmo e gostar disso. Algumas pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas. Essas pessoas, certamente, ficam \u00e0 cata do que se chama de valida\u00e7\u00e3o. A valida\u00e7\u00e3o \u00e9 acreditar no que o outro diz para admitir-se ser aquilo. N\u00e3o pesa, para o validado, a refer\u00eancia pr\u00f3pria, aquilo que a sua ess\u00eancia profunda diz, mas o que lhe \u00e9 soprado ou gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito.<br \/>\nEsse eterno questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa, talvez necessariamente, pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar e ver a autoestima a partir da pr\u00f3pria consci\u00eancia. Mas, descubro ter come\u00e7ado um assunto que n\u00e3o cabe em cr\u00f4nica. Bem apropriado seria em ensaio ou tese para os quais, infelizmente, faltam-me engenho, densidade e tempo. Como disse Chamfort: \u201ch\u00e1 tolices bem vestidas como h\u00e1 tolos bem vestidos\u201d.  <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 18\/08\/2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contardo Calligaris \u00e9 um psicanalista italiano que j\u00e1 morou no Brasil e hoje vive entre os Estados Unidos, a Europa e o nosso pa\u00eds. Leitor de almas e escritor sofisticado, comparece \u00e0s quintas-feiras na Folha de S\u00e3o Paulo. Na semana passada abordou a \u201ccrise do mercado ou a crise do sujeito?\u201d, uma cr\u00f4nica-ensaio que me levou a utilizar o finito espa\u00e7o-tempo usado para devaneios em dire\u00e7\u00e3o a caminhos sem saber exatamente as sa\u00eddas. Da\u00ed, por exemplo, ter questionado tr\u00eas aspectos da vida: o ser, o ter e o parecer.<br \/>\nO ser \u00e9 a base. \u00c9 onde ficam o pa\u00eds, o estado, a cidade, o bairro, a casa em que nasceu, o tipo de fam\u00edlia que lhe trouxe ao mundo, com ra\u00e7a, origem e categoria social e formou a sua educa\u00e7\u00e3o, seja dom\u00e9stica, formal pela escola, professores e colegas, informal ou social e no que o espelho e a sua consci\u00eancia revelam e se aceita com ou sem questionamentos.<br \/>\nO ter \u00e9 aquilo que se agregou a voc\u00ea, sejam bens materiais ou a bagagens cultural, intelectual ou cient\u00edfica desenvolvidas, a partir dos valores que acredita positivos para a sua exist\u00eancia. O ter \u00e9 o que voc\u00ea n\u00e3o tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu \u00e9, sendo.<br \/>\nO problema \u00e9 que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas pessoas querem parecer o que n\u00e3o s\u00e3o e viver o que n\u00e3o t\u00eam. \u00c9 o mundo da apar\u00eancia, do sup\u00e9rfluo em que uma camisa ou um vestido, por exemplo, \u00e9 aceita n\u00e3o por sua qualidade intr\u00ednseca, mas por ostentar uma marca de alta significa\u00e7\u00e3o para a imagem de quem usa. Um rel\u00f3gio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as horas, mas pode definir uma posi\u00e7\u00e3o social de quem, diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para n\u00e3o trafegar na senda perigosa da ess\u00eancia, pois a\u00ed o terreno \u00e9 movedi\u00e7o.<br \/>\nA sociedade e, por mais que n\u00e3o queiramos estamos nela envolvidos, cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer \u00e9 o reflexo, a imagem que os outros t\u00eam de n\u00f3s, a partir de ju\u00edzos de valor falsos ou verdadeiros. \u00c9 aquilo que pode ser fabricado com \u201cmarketing pessoal \u201ce o sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensa o vazio de n\u00e3o poder ficar consigo mesmo e gostar disso. Algumas pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas. Essas pessoas, certamente, ficam \u00e0 cata do que se chama de valida\u00e7\u00e3o. A valida\u00e7\u00e3o \u00e9 acreditar no que o outro diz para admitir-se ser aquilo. N\u00e3o pesa, para o validado, a refer\u00eancia pr\u00f3pria, aquilo que a sua ess\u00eancia profunda diz, mas o que lhe \u00e9 soprado ou gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito.<br \/>\nEsse eterno questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa, talvez necessariamente, pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar e ver a autoestima a partir da pr\u00f3pria consci\u00eancia. 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Como disse Chamfort: \u201ch\u00e1 tolices bem vestidas como h\u00e1 tolos bem vestidos\u201d.  <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 18\/08\/2002.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3761","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3761","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3761"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3761\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}