{"id":3772,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/saraminda-e-sarney\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"saraminda-e-sarney","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/saraminda-e-sarney\/","title":{"rendered":"SARAMINDA E SARNEY"},"content":{"rendered":"<p>Saraminda, o novo livro de Jos\u00e9 Sarney, prova que ele n\u00e3o \u00e9 bem normal. \u00c9 preciso ter muito de louco para misturar personagens, beirar a cria\u00e7\u00e3o de um realismo fant\u00e1stico (\u201cVoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 morta? Aqui todos morrem e vivem\u201d.) com uma latinidade t\u00e3o clamada pelo mexicano Carlos Fuentes e que o escritor brasileiro, via de regra, n\u00e3o costuma exercer.<br \/>\nFalar de comida (\u201cUm brochete de rabo de jacar\u00e9, frito com banha de anta e conhaque, um hoko e um assado de cochon bois\u201d), moda (\u201cO vestido tinha a saia comprida, de pregas que ca\u00edam da cintura e eram acompanhados pelas dobras at\u00e9 a barra da saia circundada por uma cinta de rendas e de franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas tamb\u00e9m rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas al\u00e9m da cintura, ladeadas por duas fileiras de bot\u00f5es cobertos de cetim e pequenos bordados\u201d) e de uma guerra que n\u00e3o houve entre o Brasil e a Fran\u00e7a pelo territ\u00f3rio do Amap\u00e1 (\u201cacabo de saber que a Fran\u00e7a perdeu estas terras que agora s\u00e3o do Brasil. Foi uma decis\u00e3o da Su\u00ed\u00e7a. Amanh\u00e3, s\u00f3 vai haver uma bandeira, a do Brasil\u201d).<br \/>\nSaraminda sugere que Jos\u00e9 Sarney n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtico comportado, pois exp\u00f5e, mesmo sem querer ou querendo, o seu lado sensual ao descrever como um retratista de pico de pena ou crayon o corpo (\u201cNela o sangue bret\u00e3o, judeu, \u00edndio, banto misturou-se ao longo dos s\u00e9culos, concentrou-se nos olhos, afinou os l\u00e1bios, alongou-lhe o pesco\u00e7o, deu-lhe sorte e sedu\u00e7\u00e3o\u201d), a faceirice ( \u201cEu quero que voc\u00ea tenha alegria e felicidade. Prazer de coisa de amor de gente que se junta&#8230; Quero que voc\u00ea receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda, enrolado em veludo, cheirando a patchuli\u201d), as falas (\u201d Seu Cleto, me trate com respeito. N\u00e3o sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas n\u00e3o sou uma sem-vergonha\u201d) dessa mulher t\u00e3o simples e paradoxal, como se fora uma personagem vivida pela S\u00f4nia Braga dos \u00e1ureos tempos.<br \/>\nSaraminda induz que Jos\u00e9 Sarney n\u00e3o \u00e9 rico. Se o fosse n\u00e3o descreveria com tanta paix\u00e3o a avidez dos garimpeiros, a cobi\u00e7a (\u201cO garimpo \u00e9 de uma solid\u00e3o imensa. Quando a gente olha, parece que n\u00e3o \u00e9 no mundo. O ouro n\u00e3o tem cheiro. Se tivesse, o homem ia farejar e saberia onde ele est\u00e1\u201d) e a lux\u00faria (\u201ctive vontade de beijar, beijar com for\u00e7a, ficar deitado nele, mas me controlei, n\u00e3o dei modos para n\u00e3o verem onde estava minha bestitude\u201d) que o ouro ( \u201cN\u00e3o achei que fosse ouro, de t\u00e3o feia, e pude ent\u00e3o compreender que a beleza do ouro est\u00e1 nos homens\u201d.) exerce sobre a raz\u00e3o e o imagin\u00e1rio de pessoas rudes com est\u00e9ticas comprometidas pelas rugas e as rusgas que terminam em sangue para aplacar a ira dos deuses.<br \/>\nSaraminda revela que Sarney n\u00e3o \u00e9 romancista. \u00c9 um esp\u00e9cime novo, um poemancista com imagens (\u201cNa casa de sombras, era o remoer da lembran\u00e7a que alimentava os fantasmas\u201d) e figuras (\u201cEra um brinquedo muito triste esse jogo de gostar\u201d) dignas, quem sabe, de um Jorge Lu\u00eds Borges.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 15\/04\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saraminda, o novo livro de Jos\u00e9 Sarney, prova que ele n\u00e3o \u00e9 bem normal. \u00c9 preciso ter muito de louco para misturar personagens, beirar a cria\u00e7\u00e3o de um realismo fant\u00e1stico (\u201cVoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 morta? Aqui todos morrem e vivem\u201d.) com uma latinidade t\u00e3o clamada pelo mexicano Carlos Fuentes e que o escritor brasileiro, via de regra, n\u00e3o costuma exercer.<br \/>\nFalar de comida (\u201cUm brochete de rabo de jacar\u00e9, frito com banha de anta e conhaque, um hoko e um assado de cochon bois\u201d), moda (\u201cO vestido tinha a saia comprida, de pregas que ca\u00edam da cintura e eram acompanhados pelas dobras at\u00e9 a barra da saia circundada por uma cinta de rendas e de franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas tamb\u00e9m rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas al\u00e9m da cintura, ladeadas por duas fileiras de bot\u00f5es cobertos de cetim e pequenos bordados\u201d) e de uma guerra que n\u00e3o houve entre o Brasil e a Fran\u00e7a pelo territ\u00f3rio do Amap\u00e1 (\u201cacabo de saber que a Fran\u00e7a perdeu estas terras que agora s\u00e3o do Brasil. Foi uma decis\u00e3o da Su\u00ed\u00e7a. Amanh\u00e3, s\u00f3 vai haver uma bandeira, a do Brasil\u201d).<br \/>\nSaraminda sugere que Jos\u00e9 Sarney n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtico comportado, pois exp\u00f5e, mesmo sem querer ou querendo, o seu lado sensual ao descrever como um retratista de pico de pena ou crayon o corpo (\u201cNela o sangue bret\u00e3o, judeu, \u00edndio, banto misturou-se ao longo dos s\u00e9culos, concentrou-se nos olhos, afinou os l\u00e1bios, alongou-lhe o pesco\u00e7o, deu-lhe sorte e sedu\u00e7\u00e3o\u201d), a faceirice ( \u201cEu quero que voc\u00ea tenha alegria e felicidade. Prazer de coisa de amor de gente que se junta&#8230; Quero que voc\u00ea receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda, enrolado em veludo, cheirando a patchuli\u201d), as falas (\u201d Seu Cleto, me trate com respeito. N\u00e3o sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas n\u00e3o sou uma sem-vergonha\u201d) dessa mulher t\u00e3o simples e paradoxal, como se fora uma personagem vivida pela S\u00f4nia Braga dos \u00e1ureos tempos.<br \/>\nSaraminda induz que Jos\u00e9 Sarney n\u00e3o \u00e9 rico. Se o fosse n\u00e3o descreveria com tanta paix\u00e3o a avidez dos garimpeiros, a cobi\u00e7a (\u201cO garimpo \u00e9 de uma solid\u00e3o imensa. Quando a gente olha, parece que n\u00e3o \u00e9 no mundo. O ouro n\u00e3o tem cheiro. Se tivesse, o homem ia farejar e saberia onde ele est\u00e1\u201d) e a lux\u00faria (\u201ctive vontade de beijar, beijar com for\u00e7a, ficar deitado nele, mas me controlei, n\u00e3o dei modos para n\u00e3o verem onde estava minha bestitude\u201d) que o ouro ( \u201cN\u00e3o achei que fosse ouro, de t\u00e3o feia, e pude ent\u00e3o compreender que a beleza do ouro est\u00e1 nos homens\u201d.) exerce sobre a raz\u00e3o e o imagin\u00e1rio de pessoas rudes com est\u00e9ticas comprometidas pelas rugas e as rusgas que terminam em sangue para aplacar a ira dos deuses.<br \/>\nSaraminda revela que Sarney n\u00e3o \u00e9 romancista. \u00c9 um esp\u00e9cime novo, um poemancista com imagens (\u201cNa casa de sombras, era o remoer da lembran\u00e7a que alimentava os fantasmas\u201d) e figuras (\u201cEra um brinquedo muito triste esse jogo de gostar\u201d) dignas, quem sabe, de um Jorge Lu\u00eds Borges.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 15\/04\/2001.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3772","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3772","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3772"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3772\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}