{"id":3773,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/temos-medo\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"temos-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/temos-medo\/","title":{"rendered":"TEMOS MEDO"},"content":{"rendered":"<p>Aproprio-me do trecho inicial de \u201cA Casa\u201d. Da escritora Nat\u00e9rcia Campos: \u201cFui feita com esmero, contaram os ventos, antes que eu mesmo dessa verdade tomasse tento\u201d. Hoje, as casas feitas com esmero est\u00e3o sendo abandonadas e demolidas, tudo em nome do medo e em busca da seguran\u00e7a perdida.<br \/>\nFui, como a maioria das pessoas, criado em uma casa. As casas tinham jardins e quintais, mas n\u00e3o possu\u00edam grades, alarmes, c\u00e2meras, cercas el\u00e9tricas e vigias. Eram, simplesmente, casas.<br \/>\nHoje, quase todos fogem de casas. Minha m\u00e3e ainda resiste. Mora, cercada de plantas, em uma casa toda gradeada, trancada e encadeada. Tem medo, mas gosta de mexer em jardim, criar um pequeno e inofensivo c\u00e3o e colher umas poucas frutas de seu quintal. J\u00e1 sofreu pequenos furtos, mas ainda n\u00e3o foi vitimada por viol\u00eancias comuns \u00e0s grandes cidades. Ela resiste e n\u00f3s, seus filhos, temos medo.<br \/>\nTemos medo, n\u00e3o por paranoia, mas pela viol\u00eancia e consci\u00eancia da degrada\u00e7\u00e3o urbana a que somos submetidos por nossas a\u00e7\u00f5es predadoras e por omiss\u00f5es de cidadania. As grandes cidades brasileiras est\u00e3o mostrando a face crua do desaparelhamento policial, do descompasso da distribui\u00e7\u00e3o de renda e do desemprego oriundo de uma economia que n\u00e3o tem mais sua sustenta\u00e7\u00e3o no trabalho. Por outro lado, a \u201cdelinqu\u00eancia rom\u00e2ntica\u201d cedeu lugar aos assaltos planejados, aos sequestros e a uma corrup\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte que cria a sua pr\u00f3pria teia de autossustenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm \u201cMorte e vida de grandes cidades\u201d, Jane Jacobs (Ed. Martins Fontes) diz que: \u201c\u00c9 in\u00fatil tentar esquivar-se da quest\u00e3o da inseguran\u00e7a urbana tentando tornar mais seguros outros elementos da localidade, como p\u00e1tios internos ou \u00e1reas de recrea\u00e7\u00e3o cercadas. Por defini\u00e7\u00e3o, mais uma vez, as ruas da cidade devem ocupar-se de boa parte da incumb\u00eancia de lidar com desconhecidos, j\u00e1 que \u00e9 por elas que eles transitam\u201d.<br \/>\nUm dos males das grandes cidades \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o estamos acostumados a lidar com desconhecidos. Fomos todos acostumados a saber quem s\u00e3o as pessoas que encontramos no trabalho, no lazer e nas ruas. Hoje, isso \u00e9 imposs\u00edvel. V\u00e1 a um cinema, teatro, igreja, loja ou restaurante e verificar\u00e1 como tem gente desconhecida. O desconhecido nos mete medo.<br \/>\nJane Jacobs, por outro lado, critica os urbanistas que advogavam a recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas urbanas com a constru\u00e7\u00e3o de apartamentos ou conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda. Segundo ela, \u201ctornaram-se n\u00facleos de delinqu\u00eancia, vandalismo e desesperan\u00e7a social generalizada, piores do que os corti\u00e7os que pretendiam substituir.\u201d Seria a institucionaliza\u00e7\u00e3o de uma aparta\u00e7\u00e3o social garantidora da ordem urbana?<br \/>\nCreio que a inseguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 bem mais profunda e \u00e9 f\u00e1cil \u2013 e simplista \u2013 culpar somente o poder p\u00fablico. Ela, a inseguran\u00e7a, nos deve remeter \u00e0 discuss\u00e3o urgente do nosso descomprometimento social. N\u00e3o \u00e9 o ato de pagar impostos que nos exime de uma responsabilidade solid\u00e1ria. Temos medo sim, da inseguran\u00e7a e da viol\u00eancia, mas nos constrange dizer que temos mais medo de uma sociedade alienada que est\u00e1 medindo seu poderio pelo gasto com seguran\u00e7a privada quando n\u00e3o percebe o caos social gerado por sua indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 29\/04\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aproprio-me do trecho inicial de \u201cA Casa\u201d. Da escritora Nat\u00e9rcia Campos: \u201cFui feita com esmero, contaram os ventos, antes que eu mesmo dessa verdade tomasse tento\u201d. Hoje, as casas feitas com esmero est\u00e3o sendo abandonadas e demolidas, tudo em nome do medo e em busca da seguran\u00e7a perdida.<br \/>\nFui, como a maioria das pessoas, criado em uma casa. As casas tinham jardins e quintais, mas n\u00e3o possu\u00edam grades, alarmes, c\u00e2meras, cercas el\u00e9tricas e vigias. Eram, simplesmente, casas.<br \/>\nHoje, quase todos fogem de casas. Minha m\u00e3e ainda resiste. Mora, cercada de plantas, em uma casa toda gradeada, trancada e encadeada. Tem medo, mas gosta de mexer em jardim, criar um pequeno e inofensivo c\u00e3o e colher umas poucas frutas de seu quintal. J\u00e1 sofreu pequenos furtos, mas ainda n\u00e3o foi vitimada por viol\u00eancias comuns \u00e0s grandes cidades. Ela resiste e n\u00f3s, seus filhos, temos medo.<br \/>\nTemos medo, n\u00e3o por paranoia, mas pela viol\u00eancia e consci\u00eancia da degrada\u00e7\u00e3o urbana a que somos submetidos por nossas a\u00e7\u00f5es predadoras e por omiss\u00f5es de cidadania. As grandes cidades brasileiras est\u00e3o mostrando a face crua do desaparelhamento policial, do descompasso da distribui\u00e7\u00e3o de renda e do desemprego oriundo de uma economia que n\u00e3o tem mais sua sustenta\u00e7\u00e3o no trabalho. Por outro lado, a \u201cdelinqu\u00eancia rom\u00e2ntica\u201d cedeu lugar aos assaltos planejados, aos sequestros e a uma corrup\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte que cria a sua pr\u00f3pria teia de autossustenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm \u201cMorte e vida de grandes cidades\u201d, Jane Jacobs (Ed. Martins Fontes) diz que: \u201c\u00c9 in\u00fatil tentar esquivar-se da quest\u00e3o da inseguran\u00e7a urbana tentando tornar mais seguros outros elementos da localidade, como p\u00e1tios internos ou \u00e1reas de recrea\u00e7\u00e3o cercadas. Por defini\u00e7\u00e3o, mais uma vez, as ruas da cidade devem ocupar-se de boa parte da incumb\u00eancia de lidar com desconhecidos, j\u00e1 que \u00e9 por elas que eles transitam\u201d.<br \/>\nUm dos males das grandes cidades \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o estamos acostumados a lidar com desconhecidos. Fomos todos acostumados a saber quem s\u00e3o as pessoas que encontramos no trabalho, no lazer e nas ruas. Hoje, isso \u00e9 imposs\u00edvel. V\u00e1 a um cinema, teatro, igreja, loja ou restaurante e verificar\u00e1 como tem gente desconhecida. O desconhecido nos mete medo.<br \/>\nJane Jacobs, por outro lado, critica os urbanistas que advogavam a recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas urbanas com a constru\u00e7\u00e3o de apartamentos ou conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda. Segundo ela, \u201ctornaram-se n\u00facleos de delinqu\u00eancia, vandalismo e desesperan\u00e7a social generalizada, piores do que os corti\u00e7os que pretendiam substituir.\u201d Seria a institucionaliza\u00e7\u00e3o de uma aparta\u00e7\u00e3o social garantidora da ordem urbana?<br \/>\nCreio que a inseguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 bem mais profunda e \u00e9 f\u00e1cil \u2013 e simplista \u2013 culpar somente o poder p\u00fablico. Ela, a inseguran\u00e7a, nos deve remeter \u00e0 discuss\u00e3o urgente do nosso descomprometimento social. N\u00e3o \u00e9 o ato de pagar impostos que nos exime de uma responsabilidade solid\u00e1ria. Temos medo sim, da inseguran\u00e7a e da viol\u00eancia, mas nos constrange dizer que temos mais medo de uma sociedade alienada que est\u00e1 medindo seu poderio pelo gasto com seguran\u00e7a privada quando n\u00e3o percebe o caos social gerado por sua indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 29\/04\/2001.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3773","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3773"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3773\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}