{"id":3774,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/angela\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"angela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/angela\/","title":{"rendered":"\u00c2NGELA"},"content":{"rendered":"<p>Acasos acontecem? Justo no instante em que pretendo sair, ocupado e apreensivo, ponho meus olhos (n\u00e3o me liberto do v\u00edcio de ler at\u00e9 nessas ocasi\u00f5es) em texto de Jorge Medauar: \u201ctanto entendo um gemido de crian\u00e7a como o solu\u00e7ar oculto de um av\u00f4\u201d. Do mesmo Medauar, como por magia, leio em seguida: \u201cBem sei que por misteriosos la\u00e7os, minha vida na tua est\u00e1 contida. E quando me descubro nos teus tra\u00e7os, quero que tudo em mim renas\u00e7a e viva\u201d.<br \/>\nDeus sabe que foi assim. Entre o banho corrido e a sa\u00edda para o hospital, eis que me deparo, sem querer, com esses textos do escritor consagrado Jorge Medauar. N\u00e3o procurei, n\u00e3o pedi, n\u00e3o pesquisei. Eles vieram ter \u00e0s minhas m\u00e3os, exato naquele instante, talvez por uma fada madrinha, acolitada pelo acaso.<br \/>\nFoi precedido e acompanhado pelo eco do que li, que me dirigi, banhado e de olhos brilhando, ao hospital. Como se o mundo n\u00e3o tivesse pressa, fico preso em um engarrafamento e me contento em pensar e orar sem ora\u00e7\u00f5es, se \u00e9 que tenho direito, por Alessandra, minha filha primeira, que vai parir pela primeira vez. Seria um parto normal, mas, decorrido o prazo, n\u00e3o houve a dilata\u00e7\u00e3o e o tempo urge.<br \/>\n\u00c9 come\u00e7o de noite, c\u00e9u estrelado e corre uma brisa junto ao mar. O engarrafamento persiste. Enquanto os carros buzinam, como se dissessem: \u201ctem algu\u00e9m com pressa aqui, deixem passar\u201d, lembro do dia 24 de setembro de 1971 quando Alexa veio ao mundo com seus olhos mi\u00fados, fei\u00e7\u00f5es finas e bonitas, para dar luz \u00e0 minha vida. Pois hoje, tantos setembros passados, l\u00e1 vai de novo, Alessandra, colocar mais um pouco de luz em meu caminho.<br \/>\nSaio do engarrafamento (era um carro de resgate de bombeiros) e consigo chegar, a tempo, ao hospital. Quarto repleto: m\u00e3e, irm\u00e3s, marido com sua fam\u00edlia, e amigas. Todos, em um tagarelar nervoso, pr\u00f3prio dessas ocasi\u00f5es.<br \/>\nEla, a futura m\u00e3e, est\u00e1 tranquila, bonita com seus fartos cabelos soltos e com um sorriso especial, devolve o meu beijo e responde ao meu abra\u00e7o, como a dizer: vai dar tudo bem. E l\u00e1 se vai ela de maca acompanhada pelo s\u00e9quito da afetividade e eu me quedo sozinho no quarto que lhe dar\u00e1 o atestado de m\u00e3e. Corro os olhos pelo quarto e sorrio vendo que trouxeram o aparato que conhe\u00e7o t\u00e3o bem.<br \/>\nN\u00e3o conto os minutos e, de repente, l\u00e1 vem \u00c2ngela, a neta t\u00e3o esperada, ainda nas m\u00e3os do pediatra. N\u00e3o me rendo aos car\u00f5es, e mesmo com a f\u00e9 que n\u00e3o tenho de todo, fa\u00e7o um sinal da cruz em sua testa. Quero lhe dar as boas vindas a este mundo e palavras n\u00e3o fazem sentido. Um gesto, sim.<br \/>\nM\u00e3e e filha est\u00e3o nos bra\u00e7os uma da outra. Agora, todos riem, alegres, filmando e fotografando. A anestesia fez sua parte e Alessandra diz: \u201cquero ter todos com ces\u00e1ria\u201d. \u00c9 uma defini\u00e7\u00e3o de futuro. E eu, l\u00e1 dentro do que tenho de mais profundo, misturo gra\u00e7as e sorrisos ao \u201csolu\u00e7ar oculto de um av\u00f4\u201d. Deus te aben\u00e7oe, \u00c2ngela.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/05\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acasos acontecem? Justo no instante em que pretendo sair, ocupado e apreensivo, ponho meus olhos (n\u00e3o me liberto do v\u00edcio de ler at\u00e9 nessas ocasi\u00f5es) em texto de Jorge Medauar: \u201ctanto entendo um gemido de crian\u00e7a como o solu\u00e7ar oculto de um av\u00f4\u201d. Do mesmo Medauar, como por magia, leio em seguida: \u201cBem sei que por misteriosos la\u00e7os, minha vida na tua est\u00e1 contida. E quando me descubro nos teus tra\u00e7os, quero que tudo em mim renas\u00e7a e viva\u201d.<br \/>\nDeus sabe que foi assim. Entre o banho corrido e a sa\u00edda para o hospital, eis que me deparo, sem querer, com esses textos do escritor consagrado Jorge Medauar. N\u00e3o procurei, n\u00e3o pedi, n\u00e3o pesquisei. Eles vieram ter \u00e0s minhas m\u00e3os, exato naquele instante, talvez por uma fada madrinha, acolitada pelo acaso.<br \/>\nFoi precedido e acompanhado pelo eco do que li, que me dirigi, banhado e de olhos brilhando, ao hospital. Como se o mundo n\u00e3o tivesse pressa, fico preso em um engarrafamento e me contento em pensar e orar sem ora\u00e7\u00f5es, se \u00e9 que tenho direito, por Alessandra, minha filha primeira, que vai parir pela primeira vez. Seria um parto normal, mas, decorrido o prazo, n\u00e3o houve a dilata\u00e7\u00e3o e o tempo urge.<br \/>\n\u00c9 come\u00e7o de noite, c\u00e9u estrelado e corre uma brisa junto ao mar. O engarrafamento persiste. Enquanto os carros buzinam, como se dissessem: \u201ctem algu\u00e9m com pressa aqui, deixem passar\u201d, lembro do dia 24 de setembro de 1971 quando Alexa veio ao mundo com seus olhos mi\u00fados, fei\u00e7\u00f5es finas e bonitas, para dar luz \u00e0 minha vida. Pois hoje, tantos setembros passados, l\u00e1 vai de novo, Alessandra, colocar mais um pouco de luz em meu caminho.<br \/>\nSaio do engarrafamento (era um carro de resgate de bombeiros) e consigo chegar, a tempo, ao hospital. Quarto repleto: m\u00e3e, irm\u00e3s, marido com sua fam\u00edlia, e amigas. Todos, em um tagarelar nervoso, pr\u00f3prio dessas ocasi\u00f5es.<br \/>\nEla, a futura m\u00e3e, est\u00e1 tranquila, bonita com seus fartos cabelos soltos e com um sorriso especial, devolve o meu beijo e responde ao meu abra\u00e7o, como a dizer: vai dar tudo bem. E l\u00e1 se vai ela de maca acompanhada pelo s\u00e9quito da afetividade e eu me quedo sozinho no quarto que lhe dar\u00e1 o atestado de m\u00e3e. Corro os olhos pelo quarto e sorrio vendo que trouxeram o aparato que conhe\u00e7o t\u00e3o bem.<br \/>\nN\u00e3o conto os minutos e, de repente, l\u00e1 vem \u00c2ngela, a neta t\u00e3o esperada, ainda nas m\u00e3os do pediatra. 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