{"id":3778,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/moreira-redivivo\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"moreira-redivivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/moreira-redivivo\/","title":{"rendered":"MOREIRA REDIVIVO"},"content":{"rendered":"<p>Quando leio o endeusamento de alguns cr\u00edticos liter\u00e1rios do leste e do sul a Rubem Fonseca sobre \u201cSecre\u00e7\u00f5es, Excre\u00e7\u00f5es e Desatinos\u201d, tenho saudade de Moreira Campos. Fico, igualmente, desapontado ao ver que na sele\u00e7\u00e3o feita por \u00cdtalo Moriconi, integrante do Instituto de Letras da UERJ, para \u201cOs cem melhores contos brasileiros\u201d, n\u00e3o consta nenhum de Moreira Campos. N\u00e3o importa que n\u00e3o tenha embasamento te\u00f3rico para desancar ou elogiar algu\u00e9m. Mas, seria a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e a est\u00e9tica dos dejetos org\u00e2nicos o produto requintado de Fonseca?<br \/>\nRetorno ao dia 12 de junho de 1995, quando em que publiquei neste Di\u00e1rio do Nordeste o artigo \u201cMoreira Campos e o Sil\u00eancio\u201d. Nele, respondia a Carlos Em\u00edlio Correia Lima que, indignado, reclamava do sil\u00eancio da cr\u00edtica liter\u00e1ria brasileira ao registro da morte de Moreira Campos. Eis um trecho do que escrevi \u00e0 \u00e9poca: \u201cN\u00e3o bastam o nosso ufanismo e a consci\u00eancia de que se cometem injusti\u00e7as contra nossos autores. \u00c9 preciso muito mais. \u00c9 importante que saiam de seus casulos, de suas trincheiras e batalhem no campo minado que \u00e9 o mercado editorial\u201d.<br \/>\nTenho a mesma opini\u00e3o sobre o assunto. Os culpados, quem sabe, sejamos n\u00f3s, leitores e autores cearenses, que acendemos um pseudo holofote em terra que se pretende da Luz, mas sofre, a terra, h\u00e1 muito de um apag\u00e3o auto cr\u00edtico, pela vaidade provinciana e pelo medo de enfrentar o rito de passagem que \u00e9 o de procurar ser algu\u00e9m fora do \u00fatero do Cear\u00e1. Por essas raz\u00f5es, Nat\u00e9rcia Campos, Carlos D\u2019Alge e n\u00f3s, resolvemos reunir, conhecedores da obra de Moreira Campos, carente de mais divulga\u00e7\u00e3o. Descontadas as vaidades de alguns poucos, eclodiu, um alerta e um chamamento a quantos se fecham em suas igrejinhas e convescotes, aos ecos dos pr\u00f3prios escritos e vozes aliadas a um gestual estudado, para uma abertura que contemple at\u00e9 o paradoxo e a humildade de se discutir literatura dentro dos limites de Cine-Teatro Benfica. Acontece que esse cine-teatro foi fincado no mesmo ch\u00e3o em que Moreira Campos mourejou seus escritos. Seria, quem sabe, uma estrutura geol\u00f3gico-liter\u00e1ria \u00fanica a fazer brotar centros de conhecimento. A casa de Moreira Campos foi inundada por estudantes, desejosos de ser algu\u00e9m. Quem sabe, um novo Moreira Campos.<br \/>\nIsso tudo n\u00e3o me faz cair no exagero de dizer que Moreira Campos seria um Hemingway brasileiro, mas me atrevo a afirmar que ele deve estar no podium, sem medo de ultrapassar, entre outros, os mitos Dalton Trevisan e Rubem Fonseca.<br \/>\nVou buscar em H\u00e9lio P\u00f3lvora a g\u00eanese do crescimento de Moreira Campos, em que identifica sinais de Graciliano Ramos em Vidas Marginais, de 1949. Mas, \u00e9 o mesmo H\u00e9lio P\u00f3lvora quem solta o rastilho da liberta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Moreira Campos, na arte de sintetizar o n\u00facleo ficcional. Segundo ele, o Mestre Moreira Campos, poderia manter como divisa de sua arte a observa\u00e7\u00e3o de Gorki a Thekhov: \u201ctamb\u00e9m sei que voc\u00ea \u00e9 um homem a quem basta uma palavra a fim de criar uma imagem, uma frase para armar um conto \u2013 um conto maravilhoso que desce \u00e0s profundezas e significados da vida, tal como uma perfuradora que penetra na terra\u201d.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 01\/07\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando leio o endeusamento de alguns cr\u00edticos liter\u00e1rios do leste e do sul a Rubem Fonseca sobre \u201cSecre\u00e7\u00f5es, Excre\u00e7\u00f5es e Desatinos\u201d, tenho saudade de Moreira Campos. 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Eis um trecho do que escrevi \u00e0 \u00e9poca: \u201cN\u00e3o bastam o nosso ufanismo e a consci\u00eancia de que se cometem injusti\u00e7as contra nossos autores. \u00c9 preciso muito mais. \u00c9 importante que saiam de seus casulos, de suas trincheiras e batalhem no campo minado que \u00e9 o mercado editorial\u201d.<br \/>\nTenho a mesma opini\u00e3o sobre o assunto. Os culpados, quem sabe, sejamos n\u00f3s, leitores e autores cearenses, que acendemos um pseudo holofote em terra que se pretende da Luz, mas sofre, a terra, h\u00e1 muito de um apag\u00e3o auto cr\u00edtico, pela vaidade provinciana e pelo medo de enfrentar o rito de passagem que \u00e9 o de procurar ser algu\u00e9m fora do \u00fatero do Cear\u00e1. Por essas raz\u00f5es, Nat\u00e9rcia Campos, Carlos D\u2019Alge e n\u00f3s, resolvemos reunir, conhecedores da obra de Moreira Campos, carente de mais divulga\u00e7\u00e3o. Descontadas as vaidades de alguns poucos, eclodiu, um alerta e um chamamento a quantos se fecham em suas igrejinhas e convescotes, aos ecos dos pr\u00f3prios escritos e vozes aliadas a um gestual estudado, para uma abertura que contemple at\u00e9 o paradoxo e a humildade de se discutir literatura dentro dos limites de Cine-Teatro Benfica. Acontece que esse cine-teatro foi fincado no mesmo ch\u00e3o em que Moreira Campos mourejou seus escritos. Seria, quem sabe, uma estrutura geol\u00f3gico-liter\u00e1ria \u00fanica a fazer brotar centros de conhecimento. A casa de Moreira Campos foi inundada por estudantes, desejosos de ser algu\u00e9m. Quem sabe, um novo Moreira Campos.<br \/>\nIsso tudo n\u00e3o me faz cair no exagero de dizer que Moreira Campos seria um Hemingway brasileiro, mas me atrevo a afirmar que ele deve estar no podium, sem medo de ultrapassar, entre outros, os mitos Dalton Trevisan e Rubem Fonseca.<br \/>\nVou buscar em H\u00e9lio P\u00f3lvora a g\u00eanese do crescimento de Moreira Campos, em que identifica sinais de Graciliano Ramos em Vidas Marginais, de 1949. Mas, \u00e9 o mesmo H\u00e9lio P\u00f3lvora quem solta o rastilho da liberta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Moreira Campos, na arte de sintetizar o n\u00facleo ficcional. 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