{"id":3780,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-nova-sao-paulo\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"a-nova-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-nova-sao-paulo\/","title":{"rendered":"A NOVA S\u00c3O PAULO"},"content":{"rendered":"<p>Estou em S\u00e3o Paulo. Meus ouvidos n\u00e3o convivem bem com o tom monoc\u00f3rdio da m\u00fasica baiana que rola a\u00ed neste final de semana. Por mais boa vontade que demonstre, n\u00e3o encontro sentido para tanto barulho em uma festa que n\u00e3o tem nada a ver com nossa cultura, incomoda o tr\u00e2nsito, compromete a higiene, causa transtorno a moradores, transformando as frentes de seus pr\u00e9dios em barricadas e \u00e9 pobre como manifesta\u00e7\u00e3o popular. O pior \u00e9 que, quando voltar, ainda estar\u00e3o armados os camarotes onde pessoas desfilaram suas vaidades. O desarme tem a velocidade inversamente proporcional \u00e0 da montagem e depende do destino itinerante desse circo. E os canteiros ficam servindo de dep\u00f3sitos, enquanto os oper\u00e1rios armam suas redes nas \u00e1rvores e caminh\u00f5es gigantescos atrapalham o tr\u00e2nsito.<br \/>\nComo sou curioso, estou conhecendo essa regi\u00e3o nova que fica para os lados de Santo Amaro, uma avenida com o nome pomposo de Na\u00e7\u00f5es Unidas, por abrigar multinacionais e pretens\u00f5es de ser uma esp\u00e9cie de Av. Paulista do s\u00e9culo XXI. Sou um estranho em S\u00e3o Paulo pela falta de um mar que d\u00ea refer\u00eancia. J\u00e1 vim dezenas de vezes e nada de saber direito onde ficam os lugares aonde tenho de ir. Em alguns bairros ainda me mexo, noutros fico igual a cego em tiroteio. Poucas vezes atrevi-me a dirigir em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nO tr\u00e2nsito \u00e9 lento, agora que as peruas clandestinas perderam o medo de competir com os \u00f4nibus e t\u00e1xis. Em toda esquina tem vendedor ambulante e flanelinha. A maioria com cara de nordestino e se abriga deste frio de fim de julho com agasalhos velhos. Jovens com pouca esperan\u00e7a, mas com risos nos l\u00e1bios e as m\u00e3os cheias de quinquilharias para vender a motoristas amedrontados \u2013 com os vidros dos carros fechados \u2013 enquanto o sinal, que \u00e9 conhecido aqui como farol, fica vermelho. S\u00e3o os \u201cbaianos\u201d daqui, o nosso produto de exporta\u00e7\u00e3o mais conhecido e discriminado, fruto de uma regi\u00e3o que conviveu de forma passiva com pol\u00edticos salvadores de uma p\u00e1tria especial, a deles, e esqueceu dos incautos eleitores, at\u00e9 que a mis\u00e9ria os enxote para as cidades grandes e, muitas vezes, \u00e0 delinqu\u00eancia.<br \/>\nMas, falava que estava me sentindo estranho e \u00e9 verdade. H\u00e1 hotel com campo de golfe, passo por um centro de conven\u00e7\u00f5es bonito e moderno e vejo o nome: Credicard Hall. Mas, ali perto, tem uma favela que se multiplica a cada dia. Acho que \u00e9 um subproduto da nova globaliza\u00e7\u00e3o que nos impele a aceitar, goela abaixo, o que a m\u00eddia e as grandes empresas imp\u00f5em com seu poder e tent\u00e1culos. Somos todos marionetes nesse jogo em que a regra \u00e9 n\u00e3o ter regra e isso fica patente aqui em S\u00e3o Paulo, uma cidade dividida em guetos e amedrontada pelo paradoxo de sua pujan\u00e7a e pela mis\u00e9ria avizinhada e vis\u00edvel. Paro um pouco para pensar e concluo o \u00f3bvio: as grandes cidades brasileiras n\u00e3o s\u00e3o diferentes de S\u00e3o Paulo. Fortaleza est\u00e1 t\u00e3o desumana quanto. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que os estrangeiros ainda est\u00e3o chegando por a\u00ed e vindo, parece, com vontade de ficar. S\u00e3o recebidos com festa, t\u00eam direito a financiamentos, gostam do sol, do mar, da m\u00e3o de obra barata, mas n\u00e3o t\u00eam sonhos, t\u00eam metas.<br \/>\nVou procurar o Jos\u00e9 Sim\u00e3o, talvez, como diz ele, seja preciso um col\u00edrio alucin\u00f3geno para n\u00e3o ver e sentir como ser\u00e1 o futuro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 29\/07\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou em S\u00e3o Paulo. Meus ouvidos n\u00e3o convivem bem com o tom monoc\u00f3rdio da m\u00fasica baiana que rola a\u00ed neste final de semana. Por mais boa vontade que demonstre, n\u00e3o encontro sentido para tanto barulho em uma festa que n\u00e3o tem nada a ver com nossa cultura, incomoda o tr\u00e2nsito, compromete a higiene, causa transtorno a moradores, transformando as frentes de seus pr\u00e9dios em barricadas e \u00e9 pobre como manifesta\u00e7\u00e3o popular. O pior \u00e9 que, quando voltar, ainda estar\u00e3o armados os camarotes onde pessoas desfilaram suas vaidades. O desarme tem a velocidade inversamente proporcional \u00e0 da montagem e depende do destino itinerante desse circo. E os canteiros ficam servindo de dep\u00f3sitos, enquanto os oper\u00e1rios armam suas redes nas \u00e1rvores e caminh\u00f5es gigantescos atrapalham o tr\u00e2nsito.<br \/>\nComo sou curioso, estou conhecendo essa regi\u00e3o nova que fica para os lados de Santo Amaro, uma avenida com o nome pomposo de Na\u00e7\u00f5es Unidas, por abrigar multinacionais e pretens\u00f5es de ser uma esp\u00e9cie de Av. Paulista do s\u00e9culo XXI. Sou um estranho em S\u00e3o Paulo pela falta de um mar que d\u00ea refer\u00eancia. J\u00e1 vim dezenas de vezes e nada de saber direito onde ficam os lugares aonde tenho de ir. Em alguns bairros ainda me mexo, noutros fico igual a cego em tiroteio. Poucas vezes atrevi-me a dirigir em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nO tr\u00e2nsito \u00e9 lento, agora que as peruas clandestinas perderam o medo de competir com os \u00f4nibus e t\u00e1xis. Em toda esquina tem vendedor ambulante e flanelinha. A maioria com cara de nordestino e se abriga deste frio de fim de julho com agasalhos velhos. Jovens com pouca esperan\u00e7a, mas com risos nos l\u00e1bios e as m\u00e3os cheias de quinquilharias para vender a motoristas amedrontados \u2013 com os vidros dos carros fechados \u2013 enquanto o sinal, que \u00e9 conhecido aqui como farol, fica vermelho. S\u00e3o os \u201cbaianos\u201d daqui, o nosso produto de exporta\u00e7\u00e3o mais conhecido e discriminado, fruto de uma regi\u00e3o que conviveu de forma passiva com pol\u00edticos salvadores de uma p\u00e1tria especial, a deles, e esqueceu dos incautos eleitores, at\u00e9 que a mis\u00e9ria os enxote para as cidades grandes e, muitas vezes, \u00e0 delinqu\u00eancia.<br \/>\nMas, falava que estava me sentindo estranho e \u00e9 verdade. H\u00e1 hotel com campo de golfe, passo por um centro de conven\u00e7\u00f5es bonito e moderno e vejo o nome: Credicard Hall. Mas, ali perto, tem uma favela que se multiplica a cada dia. Acho que \u00e9 um subproduto da nova globaliza\u00e7\u00e3o que nos impele a aceitar, goela abaixo, o que a m\u00eddia e as grandes empresas imp\u00f5em com seu poder e tent\u00e1culos. Somos todos marionetes nesse jogo em que a regra \u00e9 n\u00e3o ter regra e isso fica patente aqui em S\u00e3o Paulo, uma cidade dividida em guetos e amedrontada pelo paradoxo de sua pujan\u00e7a e pela mis\u00e9ria avizinhada e vis\u00edvel. Paro um pouco para pensar e concluo o \u00f3bvio: as grandes cidades brasileiras n\u00e3o s\u00e3o diferentes de S\u00e3o Paulo. Fortaleza est\u00e1 t\u00e3o desumana quanto. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que os estrangeiros ainda est\u00e3o chegando por a\u00ed e vindo, parece, com vontade de ficar. S\u00e3o recebidos com festa, t\u00eam direito a financiamentos, gostam do sol, do mar, da m\u00e3o de obra barata, mas n\u00e3o t\u00eam sonhos, t\u00eam metas.<br \/>\nVou procurar o Jos\u00e9 Sim\u00e3o, talvez, como diz ele, seja preciso um col\u00edrio alucin\u00f3geno para n\u00e3o ver e sentir como ser\u00e1 o futuro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 29\/07\/2001.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3780","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3780","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3780"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3780\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3780"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3780"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3780"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}