{"id":3782,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/aprendiz-de-pai\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"aprendiz-de-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/aprendiz-de-pai\/","title":{"rendered":"APRENDIZ DE PAI"},"content":{"rendered":"<p>Fazemos exames para passar a cada ano no col\u00e9gio, servir ao Ex\u00e9rcito, entrar na universidade, ter a carteira de motorista, arranjar emprego e tantos outros mais. Para fazer esses exames, n\u00f3s nos preparamos, estudamos, perguntamos, pesquisamos.<br \/>\nE ningu\u00e9m faz nenhum tipo de curso ou exame para ser pai, uma das mais importantes fun\u00e7\u00f5es ou tarefas de nossa vida. Mesmo que se leia alguns livros, somos totalmente despreparados ao iniciar nossa \u201ccarreira\u201d de pai.<br \/>\nDe repente, se sai de uma maternidade com uma criaturinha nos bra\u00e7os enrolada em panos. Vamos procurando entender seus sinais e movimentos. Entre fraldas e cueiros faz xixi a toda hora, chora quando est\u00e1 com fome ou dor e n\u00e3o fala nada. O pai, esse ser perif\u00e9rico, fica desesperado e tenta conviver com o novo, sem saber direito como proceder. A m\u00e3e leva nove meses de vantagem, e s\u00e3o, ela e a criatura, naturalmente, \u00edntimos. Pois bem, o pai vai errando e tentando aprender. Antigamente, existiam as av\u00f3s, as tias, as velhas e fi\u00e9is agregadas das fam\u00edlias para ajudar, mas a vida mudou e hoje instituiu-se a familiar nuclear e cada um cuida de si.<br \/>\nDepois de muito leite, pediatra, vacinas, papinha, mingau e conversa ta-ti-bi-tate, a criaturinha passa a engatinhar e se meter nos locais mais esquisitos da casa. \u00c9 um pulo para come\u00e7ar a andar. Com um jeito de b\u00eabado em fim de festa, l\u00e1 vem a criaturinha rindo at\u00e9 que bate a cabe\u00e7a na mesa mais pr\u00f3xima. E correndo se vai ao m\u00e9dico que, para completar, nos chama de leigo ou, simplesmente pai, como se isso fosse sin\u00f4nimo de ignorante.<br \/>\nAfinal, chega o dia da primeira aula no maternal e l\u00e1 se est\u00e1 a criaturinha com um aparato de farda, pasta, merendeira mais parecendo um escoteiro indo acampar. H\u00e1 choro na despedida e se fica com o cora\u00e7\u00e3o batendo acelerado.<br \/>\nVem a escola de verdade, a seguir, e tome acordar cedo para ajudar a criaturinha a se levantar, vestir a farda, n\u00e3o esquecer do dever de casa, dos livros, do dinheirinho para o lanche e dos pagamentos extras que a escola sempre cobra.<br \/>\nA criatura cresceu, come\u00e7a a ficar adulta, j\u00e1 tem uma turma de amigos, tranca-se no quarto, coloca o som nas alturas e n\u00e3o quer mais papo com o coroa do pai. S\u00f3 fala por monoss\u00edlabos e diz que o pai n\u00e3o entende nada. E \u00e9 verdade. Ent\u00e3o, chega \u2013 para quem ainda pode \u2013 o tempo de mandar a criatura fazer um desses programas de interc\u00e2mbio no exterior e o besteirol come\u00e7a com as informa\u00e7\u00f5es dos pais que j\u00e1 mandaram antes, o enxoval e a partida triunfal, rumo \u00e0 fama e um \u00e1lbum de fotografia. De repente, um cara que nunca vimos mais gordo, passa a ser \u201co pai americano\u201d de nossa criatura. Ora, ora. Retorna da viagem, quase sempre, com uns quilinhos a mais, um ingl\u00eas para demonstra\u00e7\u00e3o aos amigos e novos cds com m\u00fasica de cantores pops.<br \/>\nVem o vestibular e a fam\u00edlia se transforma. \u00c9 um clima de guerra. Aulas a toda hora, livros espalhados, choros fora de hora, nervosismo, at\u00e9 que o jornal publica a rela\u00e7\u00e3o e se a criatura foi aprovada, sobe \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de her\u00f3i familiar, digna de todas as aten\u00e7\u00f5es e recompensas. A m\u00e3e ajuda na cobran\u00e7a.<br \/>\nA criatura \u00e9 gente e, como tal, namora, fica, rola, ama, odeia, paquera e ai n\u00e3o se sabe como agir. Hoje, j\u00e1 n\u00e3o se conhece mais o pai ou a m\u00e3e da nova companhia da nossa criatura, pois o mundo mudou. O Jos\u00e9 \u00e9 Jos\u00e9, a Maria \u00e9 Maria, sem sobrenomes. E, olhar atento, tentando sondar, conversa-se com a outra criatura filha do outro pai, pisando em ovos para n\u00e3o causar melindres.<br \/>\nUma bela noite, depois de tantos preparativos e crises, a nossa criatura vai casar. \u00c9 o ciclo natural. Antes de colocar a gravata, olhamos no espelho uma l\u00e1grima que cai furtiva misturando sentimentos, trazendo recorda\u00e7\u00f5es e invocando gra\u00e7as. T\u00e3o nova, j\u00e1 casando, \u00e9 assim que o mundo gira. E o pai, em meio a convidados, \u00e9 um aprendiz nesse acontecimento gerador, com a gra\u00e7a de Deus, de novas criaturas.<br \/>\nE algumas m\u00e3es ao lerem este artigo poder\u00e3o dizer, com raz\u00e3o: estes pais s\u00e3o uns filhos da m\u00e3e. Pois \u00e9, ainda n\u00e3o aprendemos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/08\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazemos exames para passar a cada ano no col\u00e9gio, servir ao Ex\u00e9rcito, entrar na universidade, ter a carteira de motorista, arranjar emprego e tantos outros mais. Para fazer esses exames, n\u00f3s nos preparamos, estudamos, perguntamos, pesquisamos.<br \/>\nE ningu\u00e9m faz nenhum tipo de curso ou exame para ser pai, uma das mais importantes fun\u00e7\u00f5es ou tarefas de nossa vida. Mesmo que se leia alguns livros, somos totalmente despreparados ao iniciar nossa \u201ccarreira\u201d de pai.<br \/>\nDe repente, se sai de uma maternidade com uma criaturinha nos bra\u00e7os enrolada em panos. Vamos procurando entender seus sinais e movimentos. Entre fraldas e cueiros faz xixi a toda hora, chora quando est\u00e1 com fome ou dor e n\u00e3o fala nada. O pai, esse ser perif\u00e9rico, fica desesperado e tenta conviver com o novo, sem saber direito como proceder. A m\u00e3e leva nove meses de vantagem, e s\u00e3o, ela e a criatura, naturalmente, \u00edntimos. Pois bem, o pai vai errando e tentando aprender. Antigamente, existiam as av\u00f3s, as tias, as velhas e fi\u00e9is agregadas das fam\u00edlias para ajudar, mas a vida mudou e hoje instituiu-se a familiar nuclear e cada um cuida de si.<br \/>\nDepois de muito leite, pediatra, vacinas, papinha, mingau e conversa ta-ti-bi-tate, a criaturinha passa a engatinhar e se meter nos locais mais esquisitos da casa. \u00c9 um pulo para come\u00e7ar a andar. Com um jeito de b\u00eabado em fim de festa, l\u00e1 vem a criaturinha rindo at\u00e9 que bate a cabe\u00e7a na mesa mais pr\u00f3xima. E correndo se vai ao m\u00e9dico que, para completar, nos chama de leigo ou, simplesmente pai, como se isso fosse sin\u00f4nimo de ignorante.<br \/>\nAfinal, chega o dia da primeira aula no maternal e l\u00e1 se est\u00e1 a criaturinha com um aparato de farda, pasta, merendeira mais parecendo um escoteiro indo acampar. H\u00e1 choro na despedida e se fica com o cora\u00e7\u00e3o batendo acelerado.<br \/>\nVem a escola de verdade, a seguir, e tome acordar cedo para ajudar a criaturinha a se levantar, vestir a farda, n\u00e3o esquecer do dever de casa, dos livros, do dinheirinho para o lanche e dos pagamentos extras que a escola sempre cobra.<br \/>\nA criatura cresceu, come\u00e7a a ficar adulta, j\u00e1 tem uma turma de amigos, tranca-se no quarto, coloca o som nas alturas e n\u00e3o quer mais papo com o coroa do pai. S\u00f3 fala por monoss\u00edlabos e diz que o pai n\u00e3o entende nada. E \u00e9 verdade. Ent\u00e3o, chega \u2013 para quem ainda pode \u2013 o tempo de mandar a criatura fazer um desses programas de interc\u00e2mbio no exterior e o besteirol come\u00e7a com as informa\u00e7\u00f5es dos pais que j\u00e1 mandaram antes, o enxoval e a partida triunfal, rumo \u00e0 fama e um \u00e1lbum de fotografia. De repente, um cara que nunca vimos mais gordo, passa a ser \u201co pai americano\u201d de nossa criatura. Ora, ora. Retorna da viagem, quase sempre, com uns quilinhos a mais, um ingl\u00eas para demonstra\u00e7\u00e3o aos amigos e novos cds com m\u00fasica de cantores pops.<br \/>\nVem o vestibular e a fam\u00edlia se transforma. \u00c9 um clima de guerra. Aulas a toda hora, livros espalhados, choros fora de hora, nervosismo, at\u00e9 que o jornal publica a rela\u00e7\u00e3o e se a criatura foi aprovada, sobe \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de her\u00f3i familiar, digna de todas as aten\u00e7\u00f5es e recompensas. 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E o pai, em meio a convidados, \u00e9 um aprendiz nesse acontecimento gerador, com a gra\u00e7a de Deus, de novas criaturas.<br \/>\nE algumas m\u00e3es ao lerem este artigo poder\u00e3o dizer, com raz\u00e3o: estes pais s\u00e3o uns filhos da m\u00e3e. 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