{"id":3783,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/enfim-sex\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"enfim-sex","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/enfim-sex\/","title":{"rendered":"ENFIM, SEX"},"content":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo \u00e9 \u201cEnfim, sex\u201d mesmo. Explico no final.<br \/>\nFoi h\u00e1 muito tempo, no meio da Segunda Guerra que minha m\u00e3e resolveu mostrar minha cara ao mundo. Com a festa do meu primeiro anivers\u00e1rio pronta, sendo o primeiro filho, o primeiro neto, o Brasil resolveu complicar: justo no dia decretou guerra \u00e0s pot\u00eancias do Eixo. Resumo da opereta: a festinha teve como m\u00fasica de fundo o notici\u00e1rio de um r\u00e1dio a v\u00e1lvula em que o Presidente Vargas dizia ao povo brasileiro que n\u00e3o deixaria Hitler tomar conta do mundo. Hitler n\u00e3o deve ter dormido e meu pai, no albor dos seus 21 anos, tremia de medo de ser escolhido \u201cvolunt\u00e1rio\u201d. Terminada a guerra houve o famoso julgamento de Nuremberg, enquanto isso eu me perdi no centro da cidade, mas soube dizer o meu nome e onde morava.<br \/>\nPrepararam outra festa para mim: a da Primeira Comunh\u00e3o. Pois n\u00e3o \u00e9 que a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira resolveu perder o Campeonato Mundial de Futebol em pleno Maracan\u00e3, enquanto aprendia a dizer o ato de contri\u00e7\u00e3o e usava um terno de casimira azul com as cal\u00e7as curtas.<br \/>\nTive meus 15 minutos de gl\u00f3ria ao conversar com muita gente importante por a\u00ed, mas sempre \u00e9 bom lembrar a s\u00edndrome do cavalo de Napole\u00e3o. Quem ficou na hist\u00f3ria foi o franc\u00eas e n\u00e3o o cavalo que o conduzia.<br \/>\nFormei-me em pleno alvorecer da Revolu\u00e7\u00e3o e casei \u00e0 \u00e9poca do Ato Institucional n\u00ba 05. Da\u00ed para c\u00e1 muita coisa aconteceu, o tempo passou ligeiro, mas n\u00e3o o suficiente para me levar muito a s\u00e9rio, do trabalho \u00e1rduo e sem tr\u00e9gua. Se a vida nos \u00e9 dada de gra\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para siso. Rio quieto, com medo que pensem que sou doido. V\u00e1 l\u00e1 que eu seja mais ou menos normal, pois acredito ter senso de integridade, fiz muita bobagem e, hoje, como o t\u00edtulo de uma velha se\u00e7\u00e3o da revista \u201cSele\u00e7\u00f5es\u201d, rio, pois rir \u00e9 o melhor rem\u00e9dio, Chorei tamb\u00e9m, l\u00e1grimas divididas ou solit\u00e1rias. . Tive e tenho problemas. Enfim, l\u00e1grimas lubrificam. As cicatrizes pensam as feridas, respiro fundo, o oxig\u00eanio brota, irrigo sonhos e fa\u00e7o sempre pactos com a esperan\u00e7a.<br \/>\nBati pernas, muitas vezes, pelo mundo afora, mas sou daqui e aceito cr\u00edticas, paci\u00eancia. Procuro ter consci\u00eancia dos meus erros, purgo minhas culpas e, \u00e0s vezes, a dor \u00e9 grande. Tenho medos, mas nunca fugi da luta. Fa\u00e7o for\u00e7a para ser congruente, ponderando palavras e atitudes, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Quando n\u00e3o d\u00e1 para segurar, digo o que sinto. Sou amigo, sem efusividades. N\u00e3o gosto de puxar saco e oba oba. Amei e amo, tenho la\u00e7os e engodos, sou passado e presente, caminho meus passos arrevesados de canhoto em um mundo destro e, \u00e0s vezes, trope\u00e7o, literalmente. Levanto a cabe\u00e7a e sigo em frente, sempre consciente das minhas limita\u00e7\u00f5es, desimport\u00e2ncia e finitude. Tenho bem lembrado um prov\u00e9rbio mexicano: \u201cPegue o que quiser, disse Deus, mas pague por isso\u201d. Paguei e devo ainda, com a consci\u00eancia do muito a agradecer.<br \/>\nMas falei que explicaria o sex. Uma amiga me disse certa vez: gastei muito para fazer pl\u00e1stica, ficar bonita e s\u00f3 encontrei sex. Eu disse que bom, voc\u00ea encontrou um homem sexy. N\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o entendeu nada, ela respondeu, s\u00f3 encontro homem sex, sexagen\u00e1rio. Pois \u00e9, a contragosto meu e alegria, afinal, de amigos, alguns da on\u00e7a, passo a fazer parte dessa categoria.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 26\/08\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo \u00e9 \u201cEnfim, sex\u201d mesmo. Explico no final.<br \/>\nFoi h\u00e1 muito tempo, no meio da Segunda Guerra que minha m\u00e3e resolveu mostrar minha cara ao mundo. Com a festa do meu primeiro anivers\u00e1rio pronta, sendo o primeiro filho, o primeiro neto, o Brasil resolveu complicar: justo no dia decretou guerra \u00e0s pot\u00eancias do Eixo. Resumo da opereta: a festinha teve como m\u00fasica de fundo o notici\u00e1rio de um r\u00e1dio a v\u00e1lvula em que o Presidente Vargas dizia ao povo brasileiro que n\u00e3o deixaria Hitler tomar conta do mundo. Hitler n\u00e3o deve ter dormido e meu pai, no albor dos seus 21 anos, tremia de medo de ser escolhido \u201cvolunt\u00e1rio\u201d. Terminada a guerra houve o famoso julgamento de Nuremberg, enquanto isso eu me perdi no centro da cidade, mas soube dizer o meu nome e onde morava.<br \/>\nPrepararam outra festa para mim: a da Primeira Comunh\u00e3o. Pois n\u00e3o \u00e9 que a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira resolveu perder o Campeonato Mundial de Futebol em pleno Maracan\u00e3, enquanto aprendia a dizer o ato de contri\u00e7\u00e3o e usava um terno de casimira azul com as cal\u00e7as curtas.<br \/>\nTive meus 15 minutos de gl\u00f3ria ao conversar com muita gente importante por a\u00ed, mas sempre \u00e9 bom lembrar a s\u00edndrome do cavalo de Napole\u00e3o. Quem ficou na hist\u00f3ria foi o franc\u00eas e n\u00e3o o cavalo que o conduzia.<br \/>\nFormei-me em pleno alvorecer da Revolu\u00e7\u00e3o e casei \u00e0 \u00e9poca do Ato Institucional n\u00ba 05. Da\u00ed para c\u00e1 muita coisa aconteceu, o tempo passou ligeiro, mas n\u00e3o o suficiente para me levar muito a s\u00e9rio, do trabalho \u00e1rduo e sem tr\u00e9gua. Se a vida nos \u00e9 dada de gra\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para siso. Rio quieto, com medo que pensem que sou doido. V\u00e1 l\u00e1 que eu seja mais ou menos normal, pois acredito ter senso de integridade, fiz muita bobagem e, hoje, como o t\u00edtulo de uma velha se\u00e7\u00e3o da revista \u201cSele\u00e7\u00f5es\u201d, rio, pois rir \u00e9 o melhor rem\u00e9dio, Chorei tamb\u00e9m, l\u00e1grimas divididas ou solit\u00e1rias. . Tive e tenho problemas. Enfim, l\u00e1grimas lubrificam. As cicatrizes pensam as feridas, respiro fundo, o oxig\u00eanio brota, irrigo sonhos e fa\u00e7o sempre pactos com a esperan\u00e7a.<br \/>\nBati pernas, muitas vezes, pelo mundo afora, mas sou daqui e aceito cr\u00edticas, paci\u00eancia. Procuro ter consci\u00eancia dos meus erros, purgo minhas culpas e, \u00e0s vezes, a dor \u00e9 grande. Tenho medos, mas nunca fugi da luta. Fa\u00e7o for\u00e7a para ser congruente, ponderando palavras e atitudes, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Quando n\u00e3o d\u00e1 para segurar, digo o que sinto. Sou amigo, sem efusividades. N\u00e3o gosto de puxar saco e oba oba. Amei e amo, tenho la\u00e7os e engodos, sou passado e presente, caminho meus passos arrevesados de canhoto em um mundo destro e, \u00e0s vezes, trope\u00e7o, literalmente. Levanto a cabe\u00e7a e sigo em frente, sempre consciente das minhas limita\u00e7\u00f5es, desimport\u00e2ncia e finitude. Tenho bem lembrado um prov\u00e9rbio mexicano: \u201cPegue o que quiser, disse Deus, mas pague por isso\u201d. Paguei e devo ainda, com a consci\u00eancia do muito a agradecer.<br \/>\nMas falei que explicaria o sex. Uma amiga me disse certa vez: gastei muito para fazer pl\u00e1stica, ficar bonita e s\u00f3 encontrei sex. Eu disse que bom, voc\u00ea encontrou um homem sexy. N\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o entendeu nada, ela respondeu, s\u00f3 encontro homem sex, sexagen\u00e1rio. Pois \u00e9, a contragosto meu e alegria, afinal, de amigos, alguns da on\u00e7a, passo a fazer parte dessa categoria.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 26\/08\/2001.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3783","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3783","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3783"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3783\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3783"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3783"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3783"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}