{"id":3786,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-desenho-da-luana\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"o-desenho-da-luana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-desenho-da-luana\/","title":{"rendered":"O DESENHO DA LUANA"},"content":{"rendered":"<p>Luana tem quatro anos. \u00c9 uma menina muito inteligente, um pouco t\u00edmida e observadora. No dia do ato terrorista nos Estados Unidos ela viu alguns notici\u00e1rios de televis\u00e3o. Foi para o quarto, apanhou um papel, l\u00e1pis coloridos e desenhou uma grande torre. Cada espa\u00e7o ou andar era representado por uma cor diferente. Colidindo com a torre pintou um simulacro de avi\u00e3o bojudo. L\u00e1 no p\u00e9 da p\u00e1gina vag\u00f5es coloridos formavam um trem. Sua m\u00e3e pediu que ela assinasse o desenho. Ela recusou. Outros tentaram, sem \u00eaxito. Pode ter sido a tal da timidez, mas, por outro lado, talvez ela quisesse dizer que n\u00e3o legitimava o que vira e registrara, agregada \u00e0 sua imagina\u00e7\u00e3o, no papel. \u00c9 prov\u00e1vel que o trem seja o comboio em que todos estamos metidos sem saber qual o destino.<br \/>\nEste fato me veio \u00e0 mente, ap\u00f3s ter conversado com alguns amigos que est\u00e3o apreensivos com perguntas de filhos e netos. As perguntas mais repetidas: O que \u00e9 uma guerra? Vai haver guerra? Guerra contra quem?<br \/>\nOs brasileiros vivos, na sua maioria, n\u00e3o sabem o que \u00e9 uma guerra. A \u00faltima participa\u00e7\u00e3o brasileira em guerras foi de 1944 a1945, anos finais da Segunda Guerra Mundial. De l\u00e1 para c\u00e1, salvo o epis\u00f3dio da guerrilha do Araguaia, as nossas armas est\u00e3o virgens de guerras, embora quentes de assaltos, sequestros, assassinatos e afins.<br \/>\nComo explicar, ent\u00e3o, o que n\u00e3o entendemos. As guerras que conhecemos s\u00e3o as dos filmes americanos e as \u00faltimas, a partir da Guerra do Golfo, j\u00e1 televisionadas ao vivo. Somos, na verdade, expectadores passivos da brutalidade do mundo. Passivos em todos os sentidos: n\u00e3o participamos, tampouco nos indignamos, pois tiramos os olhos das atrocidades expostas nos jornais, revistas, televis\u00e3o e fitamos a comida nas salas de refei\u00e7\u00f5es sem mudan\u00e7a de apetite.<br \/>\nEstamos pasmos. Sem saber explicar nada e mais ainda por n\u00e3o termos a coragem de assumir que todos somos culpados. N\u00e3o adianta apenas culpar uma etnia, pa\u00eds ou grupos de fan\u00e1ticos. Eles s\u00e3o produtos da nossa indiferen\u00e7a. Da desigualdade que plantamos com a nossa ambi\u00e7\u00e3o desmedida, em busca de status que n\u00e3o leva a nada, da morte da comisera\u00e7\u00e3o e do amor ao pr\u00f3ximo. Somos, quase todos, centrados em nossos umbigos e n\u00e3o vemos um palmo adiante dos nossos narizes. O mundo tem mais de 6 bilh\u00f5es de pessoas. Metade vive em mis\u00e9ria quase absoluta. A outra metade pouco se d\u00e1 conta disso e nada faz para tornar o mundo menos injusto. Fome, doen\u00e7a, desemprego e desengano n\u00e3o s\u00e3o problemas dos outros. S\u00e3o m\u00edsseis que atingem ou atingir\u00e3o os indiferentes.<br \/>\nCada um pode e talvez deva travar uma guerra \u00edntima, sem testemunhas, a n\u00e3o ser a sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, para descobrir o quanto estamos perdidos e errados. Antes de fazermos acertos de conta com os nossos algozes, temos que apascentar as nossas consci\u00eancias, perdidas que est\u00e3o pela aus\u00eancia de valores essenciais. Nessa hora, quem sabe, o trem de nossas vidas possa ter um bom destino.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 23\/09\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luana tem quatro anos. \u00c9 uma menina muito inteligente, um pouco t\u00edmida e observadora. No dia do ato terrorista nos Estados Unidos ela viu alguns notici\u00e1rios de televis\u00e3o. Foi para o quarto, apanhou um papel, l\u00e1pis coloridos e desenhou uma grande torre. Cada espa\u00e7o ou andar era representado por uma cor diferente. Colidindo com a torre pintou um simulacro de avi\u00e3o bojudo. L\u00e1 no p\u00e9 da p\u00e1gina vag\u00f5es coloridos formavam um trem. Sua m\u00e3e pediu que ela assinasse o desenho. Ela recusou. Outros tentaram, sem \u00eaxito. Pode ter sido a tal da timidez, mas, por outro lado, talvez ela quisesse dizer que n\u00e3o legitimava o que vira e registrara, agregada \u00e0 sua imagina\u00e7\u00e3o, no papel. \u00c9 prov\u00e1vel que o trem seja o comboio em que todos estamos metidos sem saber qual o destino.<br \/>\nEste fato me veio \u00e0 mente, ap\u00f3s ter conversado com alguns amigos que est\u00e3o apreensivos com perguntas de filhos e netos. As perguntas mais repetidas: O que \u00e9 uma guerra? Vai haver guerra? Guerra contra quem?<br \/>\nOs brasileiros vivos, na sua maioria, n\u00e3o sabem o que \u00e9 uma guerra. A \u00faltima participa\u00e7\u00e3o brasileira em guerras foi de 1944 a1945, anos finais da Segunda Guerra Mundial. De l\u00e1 para c\u00e1, salvo o epis\u00f3dio da guerrilha do Araguaia, as nossas armas est\u00e3o virgens de guerras, embora quentes de assaltos, sequestros, assassinatos e afins.<br \/>\nComo explicar, ent\u00e3o, o que n\u00e3o entendemos. As guerras que conhecemos s\u00e3o as dos filmes americanos e as \u00faltimas, a partir da Guerra do Golfo, j\u00e1 televisionadas ao vivo. Somos, na verdade, expectadores passivos da brutalidade do mundo. Passivos em todos os sentidos: n\u00e3o participamos, tampouco nos indignamos, pois tiramos os olhos das atrocidades expostas nos jornais, revistas, televis\u00e3o e fitamos a comida nas salas de refei\u00e7\u00f5es sem mudan\u00e7a de apetite.<br \/>\nEstamos pasmos. Sem saber explicar nada e mais ainda por n\u00e3o termos a coragem de assumir que todos somos culpados. N\u00e3o adianta apenas culpar uma etnia, pa\u00eds ou grupos de fan\u00e1ticos. Eles s\u00e3o produtos da nossa indiferen\u00e7a. Da desigualdade que plantamos com a nossa ambi\u00e7\u00e3o desmedida, em busca de status que n\u00e3o leva a nada, da morte da comisera\u00e7\u00e3o e do amor ao pr\u00f3ximo. Somos, quase todos, centrados em nossos umbigos e n\u00e3o vemos um palmo adiante dos nossos narizes. 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