{"id":3790,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-morte\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-morte\/","title":{"rendered":"A MORTE"},"content":{"rendered":"<p>Leio &#8211; e me aproprio de cita\u00e7\u00f5es &#8211; um ensaio feito sobre a morte, por Janaina Fidalgo (caderno \u201cEquil\u00edbrio\u201d, da Folha de S\u00e3o Paulo). Lembro que uma pessoa amiga dizia ser eu chegado a um enterro. Mera goza\u00e7\u00e3o ou erro de perspectiva. N\u00e3o tenho prazer algum em ir a enterro, muito pelo contr\u00e1rio. Mas, se alguma pessoa ligada a mim morre, acho um dever ir ao enterro. N\u00e3o sou de fingir sentimentos, dar aqueles abra\u00e7os, mas compare\u00e7o e me comporto com aten\u00e7\u00e3o e respeito.<br \/>\nAo longo da vida, quer queiramos ou n\u00e3o, sentimos a morte rondar por perto. Ora \u00e9 um parente pr\u00f3ximo, um amigo querido ou uma pessoa not\u00f3ria que a m\u00eddia se encarrega de enfocar, com detalhes sobre sua vida e morte. No fundo, parece que ficamos felizes por continuarmos vivos quando algu\u00e9m morre.<br \/>\nN\u00e3o estamos falando em tempo de cat\u00e1strofes e guerras, quando a banaliza\u00e7\u00e3o da morte mostra a iniquidade dos homens. Falamos da morte no varejo, uma a uma, e aos fins de semana, por conta dos sinistros ocorridos no atacado com acidentes e choques de ve\u00edculos, pegas de jovens e crimes. Se ningu\u00e9m pr\u00f3ximo \u00e9 atingido, apenas passamos os olhos pelo jornal ou, bocejando, vemos a not\u00edcia na televis\u00e3o. \u00c9 assim que o mundo gira, a indiferen\u00e7a est\u00e1 arraigada em nossa civiliza\u00e7\u00e3o hedonista e ego\u00edsta.<br \/>\nE isso \u00e9, talvez, o que nos mant\u00e9m vivos e relativamente saud\u00e1veis. J\u00e1 Albert Camus, escritor franc\u00eas, dizia que \u201co homem \u00e9 a \u00fanica criatura que se recusa a ser o que \u00e9\u201d. Falava assim para lembrar a nossa condi\u00e7\u00e3o de mortal, pois queremos esconder a morte, escamote\u00e1-la do nosso viver. Segundo o antrop\u00f3logo Ac\u00e1cio Almeida Santos, a propaga\u00e7\u00e3o de funer\u00e1rias, onde os vel\u00f3rios s\u00e3o realizados, s\u00e3o recursos \u201cde afastamento, ao colocar a morte para fora de casa&#8230;. para fingir que ela n\u00e3o existe.\u201d Se um parente de algu\u00e9m morre em um hospital ou em um desastre, e o seu corpo \u00e9 velado fora de casa, a fam\u00edlia fica aliviada mais r\u00e1pida, pois finge ou disfar\u00e7a a realidade.<br \/>\nA psic\u00f3loga Maria Helena Pereira Franco advoga a ideia de que, em nosso dia a dia, as perdas ( rela\u00e7\u00f5es cortadas, desemprego, n\u00e3o passar em concurso etc) deveriam ser entendidas como uma forma de prepara\u00e7\u00e3o, pois \u201ctrabalhar com essa experi\u00eancia negativa, que causa dor, traz crescimento e \u00e9 uma maneira de entender o cotidiano, de tocar a vida e avaliar o que \u00e9 e como enfrentar a morte\u201d.<br \/>\nGl\u00e1ucia Rezende Tavares, fundadora do grupo \u201cApoio a Perdas Irrepar\u00e1veis\u201d, mostra, sem paran\u00f3ia ou morbidez, como devemos conviver com a inexorabilidade de morrer. Para ela: \u201cO melhor preparo para a morte \u00e9 viver bem a vida. \u00c9 como calibrar o farol do carro. Curto para n\u00e3o cair nos buracos e longo para ver as curvas. Lide com a vida no dia-a-dia, mas saiba que existe essa proje\u00e7\u00e3o (a morte) para o futuro\u201d. Por outro lado, Ariano Suassuna, do alto dos seus 74 anos, diz \u2013 e eu ouvi \u2013 que n\u00e3o vai morrer e tem mais \u00e9 que se preocupar em viver. E voc\u00ea?<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 18\/11\/2001<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leio &#8211; e me aproprio de cita\u00e7\u00f5es &#8211; um ensaio feito sobre a morte, por Janaina Fidalgo (caderno \u201cEquil\u00edbrio\u201d, da Folha de S\u00e3o Paulo). Lembro que uma pessoa amiga dizia ser eu chegado a um enterro. Mera goza\u00e7\u00e3o ou erro de perspectiva. N\u00e3o tenho prazer algum em ir a enterro, muito pelo contr\u00e1rio. Mas, se alguma pessoa ligada a mim morre, acho um dever ir ao enterro. N\u00e3o sou de fingir sentimentos, dar aqueles abra\u00e7os, mas compare\u00e7o e me comporto com aten\u00e7\u00e3o e respeito.<br \/>\nAo longo da vida, quer queiramos ou n\u00e3o, sentimos a morte rondar por perto. Ora \u00e9 um parente pr\u00f3ximo, um amigo querido ou uma pessoa not\u00f3ria que a m\u00eddia se encarrega de enfocar, com detalhes sobre sua vida e morte. No fundo, parece que ficamos felizes por continuarmos vivos quando algu\u00e9m morre.<br \/>\nN\u00e3o estamos falando em tempo de cat\u00e1strofes e guerras, quando a banaliza\u00e7\u00e3o da morte mostra a iniquidade dos homens. Falamos da morte no varejo, uma a uma, e aos fins de semana, por conta dos sinistros ocorridos no atacado com acidentes e choques de ve\u00edculos, pegas de jovens e crimes. Se ningu\u00e9m pr\u00f3ximo \u00e9 atingido, apenas passamos os olhos pelo jornal ou, bocejando, vemos a not\u00edcia na televis\u00e3o. \u00c9 assim que o mundo gira, a indiferen\u00e7a est\u00e1 arraigada em nossa civiliza\u00e7\u00e3o hedonista e ego\u00edsta.<br \/>\nE isso \u00e9, talvez, o que nos mant\u00e9m vivos e relativamente saud\u00e1veis. J\u00e1 Albert Camus, escritor franc\u00eas, dizia que \u201co homem \u00e9 a \u00fanica criatura que se recusa a ser o que \u00e9\u201d. Falava assim para lembrar a nossa condi\u00e7\u00e3o de mortal, pois queremos esconder a morte, escamote\u00e1-la do nosso viver. Segundo o antrop\u00f3logo Ac\u00e1cio Almeida Santos, a propaga\u00e7\u00e3o de funer\u00e1rias, onde os vel\u00f3rios s\u00e3o realizados, s\u00e3o recursos \u201cde afastamento, ao colocar a morte para fora de casa&#8230;. para fingir que ela n\u00e3o existe.\u201d Se um parente de algu\u00e9m morre em um hospital ou em um desastre, e o seu corpo \u00e9 velado fora de casa, a fam\u00edlia fica aliviada mais r\u00e1pida, pois finge ou disfar\u00e7a a realidade.<br \/>\nA psic\u00f3loga Maria Helena Pereira Franco advoga a ideia de que, em nosso dia a dia, as perdas ( rela\u00e7\u00f5es cortadas, desemprego, n\u00e3o passar em concurso etc) deveriam ser entendidas como uma forma de prepara\u00e7\u00e3o, pois \u201ctrabalhar com essa experi\u00eancia negativa, que causa dor, traz crescimento e \u00e9 uma maneira de entender o cotidiano, de tocar a vida e avaliar o que \u00e9 e como enfrentar a morte\u201d.<br \/>\nGl\u00e1ucia Rezende Tavares, fundadora do grupo \u201cApoio a Perdas Irrepar\u00e1veis\u201d, mostra, sem paran\u00f3ia ou morbidez, como devemos conviver com a inexorabilidade de morrer. 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E voc\u00ea?<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 18\/11\/2001<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3790","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3790"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3790\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}