{"id":3791,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-sermoes-do-telles\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"os-sermoes-do-telles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-sermoes-do-telles\/","title":{"rendered":"OS SERM\u00d5ES DO TELLES"},"content":{"rendered":"<p>Acabo de ler \u201cSerm\u00f5es de Pradaria\u201d, poemas de Jos\u00e9 Telles, do\u00eddo homem maduro, acostumado, por of\u00edcio, a abolir a dor alheia. Telles, m\u00e9dico e poeta, \u00e9, provavelmente, maior do que ele imagina ser como ente liter\u00e1rio. N\u00e3o sou de louva\u00e7\u00f5es. Dizem, at\u00e9, que minha ess\u00eancia natural tamb\u00e9m se faz presente na parcim\u00f4nia de elogios. Quem sabe.<br \/>\nN\u00e3o gozo da intimidade de Teles. Trafegamos apenas entre copos, gente amostrada e tr\u00eafega de emo\u00e7\u00f5es em tardes vol\u00faveis e incertas de s\u00e1bados. Como se aqueles momentos pudessem dar o perfil de cada um. Doce e falsa ilus\u00e3o.<br \/>\nTelles revela ter amizades placentares e isso deve ser bebido em virtuais ta\u00e7as amni\u00f3ticas. \u00c9 preciso sempre ter cuidado com os cord\u00f5es umbilicais que transcendem as placentas. Cortar \u00e9, paradoxalmente, muitas vezes, atar e dar nova vida \u00e0 vida.<br \/>\nO poeta escancara louvor a algumas mulheres \u2013 maravilhosas, segundo ele \u2013 com a admira\u00e7\u00e3o do p\u00f4r do sol. Se fosse psicanalista diria que Bitupit\u00e1, onde Telles nasceu, fica do lado onde o sol se p\u00f5e e essas mulheres s\u00e3o, talvez, mulheres de n\u00e3o-bitupit\u00e1 ou a nega\u00e7\u00e3o inconsciente do rega\u00e7o primal. Sei l\u00e1. Quem sabe, as mulheres de Bitupit\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o, em sua singeleza, maravilhas verdadeiras? Conheceram o Telles desnudo, sem sobretudo e cachecol, e o aceitam assim.<br \/>\nCreio que a poesia de Teles o autoriza tamb\u00e9m como anestesiologista, pois fornece o substrato humanista t\u00e3o importante no trato com a alma do paciente. M\u00e1rio Quintana, j\u00e1 maduro, disse algo muito profundo: \u201ccada verso \u00e9 uma pergunta do poeta\u201d. Telles \u00e9, portanto, um homem de muitas perguntas, profundas, nada cut\u00e2neas.<br \/>\n\u201cNo meio dos meus amigos, ningu\u00e9m percebe que meu sorriso \u00e9 alheio\u201d. Discordo. Os verdadeiros amigos, dito placentares, sim, sabem dos nossos choros antes das l\u00e1grimas. Dividem as alegrias e desenganos, conhecem nossa alma. Jacques Derrida sentencia cruelmente: \u201cquando os amigos se multiplicam, a amizade desaparece\u201d. Fico no meio termo, entre a placenta e Derrida.<br \/>\n\u201cAh! Esse peda\u00e7o de tarde sem mist\u00e9rio \u00e9 dono da minha ang\u00fastia e s\u00f3cio dessas l\u00e1grimas e o meu racioc\u00ednio \u00e9 a face tr\u00e1gica da espera\u201d. Lindo, mas o poeta imagina ser o \u00fanico cond\u00f4mino da dor. Alguns, pensam at\u00e9 ser o s\u00edndico da ang\u00fastia e das l\u00e1grimas. O poeta v\u00ea a dor sem o recurso anest\u00e9sico dos comuns. E os comuns veem os poetas como a propaga\u00e7\u00e3o desmesurada da afli\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea e deveras passageira.<br \/>\n\u201cEm compensa\u00e7\u00e3o, meu corpo dorme e cansa quando come\u00e7a a dan\u00e7a louca dos meus sonhos\u201d. \u00c9 isso a\u00ed. Na idade do p\u00f4r do sol, o cansa\u00e7o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um adicto, \u00e9 companhia impregnada, servindo para estabelecer modos aos nossos loucos sonhos e tornar-nos aptos ao real.<br \/>\n\u201cE num galope aberto canso meus momentos a caminho das estrelas. Viajo nas caravelas do medo ou nas f\u00farias das mar\u00e9s, dentro dos quartos de luas e dos segredos do mundo\u201d. Poderia ter sido escrito por um poeta consagrado. E c\u00e1 fico eu, espi\u00e3o amador da arte alheia, deixando apenas o pulsar da emo\u00e7\u00e3o compartilhada, c\u00famplice sentido.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 02\/12\/2001.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de ler \u201cSerm\u00f5es de Pradaria\u201d, poemas de Jos\u00e9 Telles, do\u00eddo homem maduro, acostumado, por of\u00edcio, a abolir a dor alheia. Telles, m\u00e9dico e poeta, \u00e9, provavelmente, maior do que ele imagina ser como ente liter\u00e1rio. N\u00e3o sou de louva\u00e7\u00f5es. Dizem, at\u00e9, que minha ess\u00eancia natural tamb\u00e9m se faz presente na parcim\u00f4nia de elogios. Quem sabe.<br \/>\nN\u00e3o gozo da intimidade de Teles. Trafegamos apenas entre copos, gente amostrada e tr\u00eafega de emo\u00e7\u00f5es em tardes vol\u00faveis e incertas de s\u00e1bados. Como se aqueles momentos pudessem dar o perfil de cada um. Doce e falsa ilus\u00e3o.<br \/>\nTelles revela ter amizades placentares e isso deve ser bebido em virtuais ta\u00e7as amni\u00f3ticas. \u00c9 preciso sempre ter cuidado com os cord\u00f5es umbilicais que transcendem as placentas. Cortar \u00e9, paradoxalmente, muitas vezes, atar e dar nova vida \u00e0 vida.<br \/>\nO poeta escancara louvor a algumas mulheres \u2013 maravilhosas, segundo ele \u2013 com a admira\u00e7\u00e3o do p\u00f4r do sol. Se fosse psicanalista diria que Bitupit\u00e1, onde Telles nasceu, fica do lado onde o sol se p\u00f5e e essas mulheres s\u00e3o, talvez, mulheres de n\u00e3o-bitupit\u00e1 ou a nega\u00e7\u00e3o inconsciente do rega\u00e7o primal. Sei l\u00e1. Quem sabe, as mulheres de Bitupit\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o, em sua singeleza, maravilhas verdadeiras? Conheceram o Telles desnudo, sem sobretudo e cachecol, e o aceitam assim.<br \/>\nCreio que a poesia de Teles o autoriza tamb\u00e9m como anestesiologista, pois fornece o substrato humanista t\u00e3o importante no trato com a alma do paciente. M\u00e1rio Quintana, j\u00e1 maduro, disse algo muito profundo: \u201ccada verso \u00e9 uma pergunta do poeta\u201d. Telles \u00e9, portanto, um homem de muitas perguntas, profundas, nada cut\u00e2neas.<br \/>\n\u201cNo meio dos meus amigos, ningu\u00e9m percebe que meu sorriso \u00e9 alheio\u201d. Discordo. Os verdadeiros amigos, dito placentares, sim, sabem dos nossos choros antes das l\u00e1grimas. Dividem as alegrias e desenganos, conhecem nossa alma. Jacques Derrida sentencia cruelmente: \u201cquando os amigos se multiplicam, a amizade desaparece\u201d. Fico no meio termo, entre a placenta e Derrida.<br \/>\n\u201cAh! Esse peda\u00e7o de tarde sem mist\u00e9rio \u00e9 dono da minha ang\u00fastia e s\u00f3cio dessas l\u00e1grimas e o meu racioc\u00ednio \u00e9 a face tr\u00e1gica da espera\u201d. Lindo, mas o poeta imagina ser o \u00fanico cond\u00f4mino da dor. Alguns, pensam at\u00e9 ser o s\u00edndico da ang\u00fastia e das l\u00e1grimas. O poeta v\u00ea a dor sem o recurso anest\u00e9sico dos comuns. E os comuns veem os poetas como a propaga\u00e7\u00e3o desmesurada da afli\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea e deveras passageira.<br \/>\n\u201cEm compensa\u00e7\u00e3o, meu corpo dorme e cansa quando come\u00e7a a dan\u00e7a louca dos meus sonhos\u201d. \u00c9 isso a\u00ed. Na idade do p\u00f4r do sol, o cansa\u00e7o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um adicto, \u00e9 companhia impregnada, servindo para estabelecer modos aos nossos loucos sonhos e tornar-nos aptos ao real.<br \/>\n\u201cE num galope aberto canso meus momentos a caminho das estrelas. 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