{"id":3799,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/todos-ou-quase\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"todos-ou-quase","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/todos-ou-quase\/","title":{"rendered":"TODOS OU QUASE"},"content":{"rendered":"<p>Cheguei cedo e tive tempo de trocar algumas palavras com ele. Leve, adocicado pelo tempo, retemperado pelas dores da vida e com o olhar de vaga mundo que se auto exilou para ter o distanciamento cr\u00edtico. E voltar ou quase.<br \/>\nRespondi \u00e0s suas gentilezas e prometi-lhe uma encomenda para a Rua Mons. Bruno. Educado, levantou-se e trocou aquele abra\u00e7o caloroso que s\u00f3 os que acreditam na sua masculinidade podem dar em ouro homem.<br \/>\nO lugar era quase o mesmo do passado, tingido de verde na esperan\u00e7a de novas gl\u00f3rias como se as festas e farras pudessem ter \u201crevivals\u201d. Postei-me equidistante e pude acompanhar a nuvem de gente que chegava. Uns por pura, franca e duradoura amizade, outros por supina vaidade e ainda uns outros que est\u00e3o sempre, aconte\u00e7am o que acontecer.<br \/>\nVia-se de tudo, desde o jornalista com e sem jornal, ao pol\u00edtico com e sem mandato, o empres\u00e1rio com e sem empresa, os que contam e os n\u00e3o, os que pensam, os que registram, os que fofocam, os colun\u00e1veis, os emergentes de todas as castas e quase todos pouco ligavam quanto tempo esperariam pelo aut\u00f3grafo absolutamente personalizado e carinhoso.<br \/>\nO tempo passava e como manda quem pode, fez-se uma mesa solene e muitos se postaram atentos e, por minutos, se quedaram mudos. Basta dizer do carinho de quem o apresentou, amigo sem ja\u00e7a, mosqueteiro de tantas andan\u00e7as e esclarecedor de detalhes v\u00edvidos de um passado que se fez presente e t\u00e3o dourado como a cor da camisa daquele que falava com a simplicidade de quem conta o que sabe, do jeito que sabe, gostem ou n\u00e3o.<br \/>\nFoi a\u00ed que me veio \u00e0 mem\u00f3ria que eu e o autor festejado, fomos sempre quase. \u00c9ramos meros Jo\u00e3o e Ant\u00f4nio, simples netos ou netos simples. Quase companheiros de jornalismo em eras de 60, quase colegas da mesma faculdade, quase ensinamos juntos e quase fomos bons amigos. E nessa condi\u00e7\u00e3o de quase \u00e9 que estou aqui para dizer quase nada. Direi apenas que minha mem\u00f3ria visual penetrou na sala da Vila Angelita e se permitiu criar asas: vi chegar \u00e0 reda\u00e7\u00e3o e pegar um palet\u00f3 emprestado para ir \u00e0 Assembleia. Tomar um avi\u00e3o para Cuba, dar prego no meio de uma estrada, transformar sonhos de uma mera jangada em frota de desejos, mudar para Bras\u00edlia, desfazer-se de parte do passado \u2013 como se isso fora poss\u00edvel \u2013 e tornar-se alado para pousar agora com asas cansadas por tantas estranjas e encher de luzes as coisas que remexem a mem\u00f3ria e azucrinam o cora\u00e7\u00e3o, pois d\u00e3o aquela arritmia que nos impele a escrever sem a preocupa\u00e7\u00e3o do memorialista, mas dos que ainda imaginam ter o direito de falar. Pois como bem disse a citada Susan Cheever: \u201cO passado \u00e9 um lugar perigoso\u201d. Ou quase&#8230;<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 06\/02\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheguei cedo e tive tempo de trocar algumas palavras com ele. Leve, adocicado pelo tempo, retemperado pelas dores da vida e com o olhar de vaga mundo que se auto exilou para ter o distanciamento cr\u00edtico. E voltar ou quase.<br \/>\nRespondi \u00e0s suas gentilezas e prometi-lhe uma encomenda para a Rua Mons. Bruno. Educado, levantou-se e trocou aquele abra\u00e7o caloroso que s\u00f3 os que acreditam na sua masculinidade podem dar em ouro homem.<br \/>\nO lugar era quase o mesmo do passado, tingido de verde na esperan\u00e7a de novas gl\u00f3rias como se as festas e farras pudessem ter \u201crevivals\u201d. Postei-me equidistante e pude acompanhar a nuvem de gente que chegava. Uns por pura, franca e duradoura amizade, outros por supina vaidade e ainda uns outros que est\u00e3o sempre, aconte\u00e7am o que acontecer.<br \/>\nVia-se de tudo, desde o jornalista com e sem jornal, ao pol\u00edtico com e sem mandato, o empres\u00e1rio com e sem empresa, os que contam e os n\u00e3o, os que pensam, os que registram, os que fofocam, os colun\u00e1veis, os emergentes de todas as castas e quase todos pouco ligavam quanto tempo esperariam pelo aut\u00f3grafo absolutamente personalizado e carinhoso.<br \/>\nO tempo passava e como manda quem pode, fez-se uma mesa solene e muitos se postaram atentos e, por minutos, se quedaram mudos. Basta dizer do carinho de quem o apresentou, amigo sem ja\u00e7a, mosqueteiro de tantas andan\u00e7as e esclarecedor de detalhes v\u00edvidos de um passado que se fez presente e t\u00e3o dourado como a cor da camisa daquele que falava com a simplicidade de quem conta o que sabe, do jeito que sabe, gostem ou n\u00e3o.<br \/>\nFoi a\u00ed que me veio \u00e0 mem\u00f3ria que eu e o autor festejado, fomos sempre quase. \u00c9ramos meros Jo\u00e3o e Ant\u00f4nio, simples netos ou netos simples. Quase companheiros de jornalismo em eras de 60, quase colegas da mesma faculdade, quase ensinamos juntos e quase fomos bons amigos. E nessa condi\u00e7\u00e3o de quase \u00e9 que estou aqui para dizer quase nada. Direi apenas que minha mem\u00f3ria visual penetrou na sala da Vila Angelita e se permitiu criar asas: vi chegar \u00e0 reda\u00e7\u00e3o e pegar um palet\u00f3 emprestado para ir \u00e0 Assembleia. Tomar um avi\u00e3o para Cuba, dar prego no meio de uma estrada, transformar sonhos de uma mera jangada em frota de desejos, mudar para Bras\u00edlia, desfazer-se de parte do passado \u2013 como se isso fora poss\u00edvel \u2013 e tornar-se alado para pousar agora com asas cansadas por tantas estranjas e encher de luzes as coisas que remexem a mem\u00f3ria e azucrinam o cora\u00e7\u00e3o, pois d\u00e3o aquela arritmia que nos impele a escrever sem a preocupa\u00e7\u00e3o do memorialista, mas dos que ainda imaginam ter o direito de falar. Pois como bem disse a citada Susan Cheever: \u201cO passado \u00e9 um lugar perigoso\u201d. Ou quase&#8230;<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 06\/02\/2000.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3799","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3799","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3799"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3799\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3799"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3799"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}