{"id":3802,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/medicos-e-impacientes\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"medicos-e-impacientes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/medicos-e-impacientes\/","title":{"rendered":"M\u00c9DICOS E (IM)PACIENTES"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quase 400 anos William Shakespeare se valia do personagem Helena, na pe\u00e7a &#8220;Bem est\u00e1 o que bem acaba&#8221;, para dizer no primeiro ato: &#8220;\u00c0s vezes est\u00e1 em n\u00f3s a medicina que em v\u00e3o ao c\u00e9u pedimos&#8221;. N\u00f3s, n\u00e3o m\u00e9dicos, muitas vezes pensamos que o m\u00e9dico \u00e9 um ser milagroso. Paradoxalmente, alguns m\u00e9dicos se deixam levar por essa mesma ideia. Todos est\u00e3o errados.<br \/>\nAs rela\u00e7\u00f5es entre pacientes e m\u00e9dicos n\u00e3o s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es comuns, pois plasmadas, de um lado, por depend\u00eancia e, n\u00e3o raro, um ar de enfado, mesmo disfar\u00e7ado por boas maneiras, do outro. Muitas respostas pedidas n\u00e3o podem ser dadas, mesmo ap\u00f3s uma anamnese (o relato dos padecimentos, segundo Miguel Torga, m\u00e9dico e escritor portugu\u00eas) bem-feita ou uma bateria de exames laboratoriais ou de imagem. H\u00e1 muito de n\u00e3o explicado, at\u00e9 pelos m\u00e9dicos que cuidam das mentes das pessoas. O m\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 apenas um elemento importante na engrenagem das respostas dadas pelo nosso corpo \u00e0s dores, sejam elas reais ou imagin\u00e1rias. Ele \u00e9 o fio condutor do processo.<br \/>\n\u00c9 prov\u00e1vel estar com Plat\u00e3o a resposta: &#8220;O maior erro dos m\u00e9dicos \u00e9 tentar curar o corpo sem procurar curar a alma. Entretanto, corpo e alma s\u00e3o um e n\u00e3o podem ser tratados separadamente. &#8220;Um m\u00e9dico e escritor, Moacyr Scliar, parece concordar com Plat\u00e3o quando diz no livro &#8220;A Paix\u00e3o Transformada&#8221;: &#8220;A situa\u00e7\u00e3o mudou por v\u00e1rias raz\u00f5es: em primeiro lugar, o m\u00e9dico perdeu a posi\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica que muitas vezes o caracterizava no passado. Depois, a medicina foi adquirindo um car\u00e1ter mais t\u00e9cnico, pouco compat\u00edvel com a express\u00e3o humanista&#8221;.<br \/>\nO outro lado da hist\u00f3ria \u00e9 quando se fala em qualidade de vida dos m\u00e9dicos. \u00c9 l\u00facido concluir necessitar o m\u00e9dico de um m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es de vida para ser uma pessoa razoavelmente feliz e, conseq\u00fcentemente, ter gosto pelo que faz. Por ter alguns amigos m\u00e9dicos posso me permitir fazer estar observa\u00e7\u00f5es. Sei como s\u00e3o respons\u00e1veis, trabalhadores, estressados, ganhando relativamente pouco, t\u00e3o carentes de afeto quanto seus pacientes, mas t\u00eam, por of\u00edcio, de tomar decis\u00f5es r\u00e1pidas que podem salvar ou n\u00e3o vidas ou n\u00e3o. Essa rotina n\u00e3o os robotiza, mas pode lhes dar aquele ar de enfado j\u00e1 referido.<br \/>\nPode ser at\u00e9 exagero ou inadequada a express\u00e3o enfado. Melhor seria, quem sasbe, inc\u00f4modo, pela quase real incapacidade de estabelecer um di\u00e1logo racional com o paciente. Enquanto o m\u00e9dico procura em seus alfarr\u00e1bios mentais e na farmacologia o cutelo para ceifar a doen\u00e7a, o paciente &#8211; e sua fam\u00edlia &#8211; quer respostas, sejam m\u00e1gicas ou milagrosas.<br \/>\nTalvez pudesse ser inferido, com relativa margem de erro, que os m\u00e9dicos ao n\u00e3o se sensibilizarem com os dramas dos doentes possam, em contrapartida, maximizar os seus e de familiares, tornando-se fr\u00e1geis para resistir \u00e0s suas pr\u00f3prias dores.<br \/>\nA reportagem sensacionalista da revista Veja da semana passada sobre o uso de \u00e1lcool e drogas por m\u00e9dicos, reflete um percentual significativo. o mesmo escrito sobre m\u00e9dicos pode ser dito de jornalistas, pol\u00edticos, empres\u00e1rios etc. Por outro lado, a atual situa\u00e7\u00e3o social-econ\u00f4mico-financeira dos profissionais da medicina parece ser cr\u00edtica, mas n\u00e3o sei da exist\u00eancia de pesquisas e estudos sobre tal fato e, especialmente, a respeito da sa\u00fade f\u00edsica e mental dos m\u00e9dicos. Se h\u00e1, gostaria de conhecer. N\u00e3o existindo, \u00e9 tempo de fazer. Poderiam ser \u00fateis aos conselhos regionais de medicina e aos sindicatos dos m\u00e9dicos. Forneceriam elementos para reflex\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es importantes para o exerc\u00edcio digno dessa profiss\u00e3o que alia ci\u00eancia e arte.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 27\/02\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quase 400 anos William Shakespeare se valia do personagem Helena, na pe\u00e7a &#8220;Bem est\u00e1 o que bem acaba&#8221;, para dizer no primeiro ato: &#8220;\u00c0s vezes est\u00e1 em n\u00f3s a medicina que em v\u00e3o ao c\u00e9u pedimos&#8221;. N\u00f3s, n\u00e3o m\u00e9dicos, muitas vezes pensamos que o m\u00e9dico \u00e9 um ser milagroso. Paradoxalmente, alguns m\u00e9dicos se deixam levar por essa mesma ideia. Todos est\u00e3o errados.<br \/>\nAs rela\u00e7\u00f5es entre pacientes e m\u00e9dicos n\u00e3o s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es comuns, pois plasmadas, de um lado, por depend\u00eancia e, n\u00e3o raro, um ar de enfado, mesmo disfar\u00e7ado por boas maneiras, do outro. Muitas respostas pedidas n\u00e3o podem ser dadas, mesmo ap\u00f3s uma anamnese (o relato dos padecimentos, segundo Miguel Torga, m\u00e9dico e escritor portugu\u00eas) bem-feita ou uma bateria de exames laboratoriais ou de imagem. H\u00e1 muito de n\u00e3o explicado, at\u00e9 pelos m\u00e9dicos que cuidam das mentes das pessoas. O m\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 apenas um elemento importante na engrenagem das respostas dadas pelo nosso corpo \u00e0s dores, sejam elas reais ou imagin\u00e1rias. Ele \u00e9 o fio condutor do processo.<br \/>\n\u00c9 prov\u00e1vel estar com Plat\u00e3o a resposta: &#8220;O maior erro dos m\u00e9dicos \u00e9 tentar curar o corpo sem procurar curar a alma. Entretanto, corpo e alma s\u00e3o um e n\u00e3o podem ser tratados separadamente. &#8220;Um m\u00e9dico e escritor, Moacyr Scliar, parece concordar com Plat\u00e3o quando diz no livro &#8220;A Paix\u00e3o Transformada&#8221;: &#8220;A situa\u00e7\u00e3o mudou por v\u00e1rias raz\u00f5es: em primeiro lugar, o m\u00e9dico perdeu a posi\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica que muitas vezes o caracterizava no passado. Depois, a medicina foi adquirindo um car\u00e1ter mais t\u00e9cnico, pouco compat\u00edvel com a express\u00e3o humanista&#8221;.<br \/>\nO outro lado da hist\u00f3ria \u00e9 quando se fala em qualidade de vida dos m\u00e9dicos. \u00c9 l\u00facido concluir necessitar o m\u00e9dico de um m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es de vida para ser uma pessoa razoavelmente feliz e, conseq\u00fcentemente, ter gosto pelo que faz. Por ter alguns amigos m\u00e9dicos posso me permitir fazer estar observa\u00e7\u00f5es. Sei como s\u00e3o respons\u00e1veis, trabalhadores, estressados, ganhando relativamente pouco, t\u00e3o carentes de afeto quanto seus pacientes, mas t\u00eam, por of\u00edcio, de tomar decis\u00f5es r\u00e1pidas que podem salvar ou n\u00e3o vidas ou n\u00e3o. Essa rotina n\u00e3o os robotiza, mas pode lhes dar aquele ar de enfado j\u00e1 referido.<br \/>\nPode ser at\u00e9 exagero ou inadequada a express\u00e3o enfado. Melhor seria, quem sasbe, inc\u00f4modo, pela quase real incapacidade de estabelecer um di\u00e1logo racional com o paciente. 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