{"id":3803,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-flor-americana\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"a-flor-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-flor-americana\/","title":{"rendered":"A FLOR AMERICANA"},"content":{"rendered":"<p>Eu vi na pr\u00e9-estreia numa \u00faltima sess\u00e3o de uma noite de sexta-feira. Fiquei chocado e, ao mesmo tempo, entusiasmado. Passei a indicar, no dia seguinte, para amigos de um grupo que frequento aos s\u00e1bados.<br \/>\nBonito e doloroso. Meigo e cruel. Sens\u00edvel e lancinante. Doce fel. Tedioso e eletrizante. Agora, passada tr\u00eas semanas e quando j\u00e1 entrou em cartaz regular, me permito falar sobre \u201cbeleza americana\u201d, um filme dirigida por um jovem ingl\u00eas, 34 anos, descend\u00eancia portuguesa, chamado Sam Mendes. O seu filme conseguiu impactar e mexer com a cabe\u00e7a de milh\u00f5es de pessoa.<br \/>\nQuem acompanha a hist\u00f3ria da sociedade americana neste \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XX sabe do orgulho dos estadunidenses em proclamar e exportar o \u201camerican way of life\u201d. A alta classe media americana \u00e9 a baluarte e condutora de todo o processo comportamental e de m\u00eddia do \u201cgrande irm\u00e3o\u201ddo norte. L\u00e1, como aqui, a alta classe m\u00e9dia traduz padr\u00f5es de refer\u00eancias e vive de um sonho que se baseia na fam\u00edlia estruturada, no status social e no consumo. Pois bem, o \u201cbeleza americano\u201dtrata disso com a sensibilidade de uma batuda de maestro, a sutileza de um misturi de um cirurgi\u00e3o, o ponta p\u00e9 de um carateca e um soco de um lutador peso pesado de boxe.<br \/>\nA voz em \u201coff\u201d, no in\u00edcio do filme, do ator Kevin Spacey, soa lenta e modorrenta como o sub\u00farbio em que se desenrola o filme. O personagem Laster Burnaham diz que vai morrer e que ainda n\u00e3o sabe disso. Ora, todos sabemos que vamos morrer, apenas n\u00e3o queremos pensar nisso. Ele, contudo, fala em morte pr\u00f3xima.<br \/>\nO filme passa a derrubar o primeiro \u00edcone da sociedade americana: a id\u00e9ia de que o autom\u00f3vel feito em Detroit ou outras cidades dos Estados Unidos \u00e9 o melhor do mundo e toda fam\u00edlia deve t\u00ea-lo. Os dois carros do casal s\u00e3o um japon\u00eas Camry da Toyota e uma mini-van Mercedes Benz alem\u00e3.<br \/>\nO segundo \u00edcone desmistificado \u00e9 a propaganda americana com seus apelos ao consumo: Spacey\/Levin trabalha h\u00e1 14 anos em uma ag\u00eancia de publicidade e ao sentir que vai ser despedido relata todos os \u201cpodres\u201ddos dirigentes e o embuste que \u00e9 o seu emprego. Sua Mulher(Annete Bening) \u00e9 o exemplo da corretora de im\u00f3veis padr\u00e3o que ensaia as conversas para clientes e tenta vender gato por lebre.<br \/>\nO casal \u00e9 uma farsa, pois o marido e a mulher est\u00e3o distanciado f\u00edsica e mentalmente, tornando claro que nada resistiu ao tempo e que um sof\u00e1 de \u201cchintz\u201d de 4.000 d\u00f3lares \u00e9 mais importante que a tentativa de reaproxima\u00e7\u00e3o, possivelmente salvadora.<br \/>\nA juventude da escola secund\u00e1ria \u00e9 mostrado sem rodeios: consumo e tr\u00e1fico de maconha, fantasias er\u00f3dicas, l\u00edderes de torcida e dist\u00e2ncia de pensamento, comunica\u00e7\u00e3o e identidade com os pais.<br \/>\nDaria para falar mais, muito mais, especialmente da paulada que d\u00e1 nas for\u00e7as armadas americanas ao criar um coronel reformado dos fuzileiros navais, sua moral, a submiss\u00e3o e alheamento de sua mulher e seus desejos(dele) inconfess\u00e1veis.<br \/>\nMais n\u00e3o digo, para n\u00e3o tirar o prazer de quem n\u00e3o assistiu a esse intrigante filme que luta por oito \u201cOscars\u201d. A quem j\u00e1 viu, pe\u00e7o que reflita e veja que as coisas por c\u00e1, embora sejam diferentes, n\u00e3o s\u00e3o muitas. Afinal, n\u00f3s temos a mania de copiar e os Estados Unidos s\u00e3o a nossa maior refer\u00eancia, para o bem e o mal. Ia esquecendo: O t\u00edtulo do artigo refere-se \u00e0 flor (Americana Beauty) que d\u00e1 nome ao filme: \u00e9 linda, mas n\u00e3o tem cheiro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/03\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu vi na pr\u00e9-estreia numa \u00faltima sess\u00e3o de uma noite de sexta-feira. Fiquei chocado e, ao mesmo tempo, entusiasmado. Passei a indicar, no dia seguinte, para amigos de um grupo que frequento aos s\u00e1bados.<br \/>\nBonito e doloroso. Meigo e cruel. Sens\u00edvel e lancinante. Doce fel. Tedioso e eletrizante. Agora, passada tr\u00eas semanas e quando j\u00e1 entrou em cartaz regular, me permito falar sobre \u201cbeleza americana\u201d, um filme dirigida por um jovem ingl\u00eas, 34 anos, descend\u00eancia portuguesa, chamado Sam Mendes. O seu filme conseguiu impactar e mexer com a cabe\u00e7a de milh\u00f5es de pessoa.<br \/>\nQuem acompanha a hist\u00f3ria da sociedade americana neste \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XX sabe do orgulho dos estadunidenses em proclamar e exportar o \u201camerican way of life\u201d. A alta classe media americana \u00e9 a baluarte e condutora de todo o processo comportamental e de m\u00eddia do \u201cgrande irm\u00e3o\u201ddo norte. L\u00e1, como aqui, a alta classe m\u00e9dia traduz padr\u00f5es de refer\u00eancias e vive de um sonho que se baseia na fam\u00edlia estruturada, no status social e no consumo. Pois bem, o \u201cbeleza americano\u201dtrata disso com a sensibilidade de uma batuda de maestro, a sutileza de um misturi de um cirurgi\u00e3o, o ponta p\u00e9 de um carateca e um soco de um lutador peso pesado de boxe.<br \/>\nA voz em \u201coff\u201d, no in\u00edcio do filme, do ator Kevin Spacey, soa lenta e modorrenta como o sub\u00farbio em que se desenrola o filme. O personagem Laster Burnaham diz que vai morrer e que ainda n\u00e3o sabe disso. Ora, todos sabemos que vamos morrer, apenas n\u00e3o queremos pensar nisso. Ele, contudo, fala em morte pr\u00f3xima.<br \/>\nO filme passa a derrubar o primeiro \u00edcone da sociedade americana: a id\u00e9ia de que o autom\u00f3vel feito em Detroit ou outras cidades dos Estados Unidos \u00e9 o melhor do mundo e toda fam\u00edlia deve t\u00ea-lo. Os dois carros do casal s\u00e3o um japon\u00eas Camry da Toyota e uma mini-van Mercedes Benz alem\u00e3.<br \/>\nO segundo \u00edcone desmistificado \u00e9 a propaganda americana com seus apelos ao consumo: Spacey\/Levin trabalha h\u00e1 14 anos em uma ag\u00eancia de publicidade e ao sentir que vai ser despedido relata todos os \u201cpodres\u201ddos dirigentes e o embuste que \u00e9 o seu emprego. Sua Mulher(Annete Bening) \u00e9 o exemplo da corretora de im\u00f3veis padr\u00e3o que ensaia as conversas para clientes e tenta vender gato por lebre.<br \/>\nO casal \u00e9 uma farsa, pois o marido e a mulher est\u00e3o distanciado f\u00edsica e mentalmente, tornando claro que nada resistiu ao tempo e que um sof\u00e1 de \u201cchintz\u201d de 4.000 d\u00f3lares \u00e9 mais importante que a tentativa de reaproxima\u00e7\u00e3o, possivelmente salvadora.<br \/>\nA juventude da escola secund\u00e1ria \u00e9 mostrado sem rodeios: consumo e tr\u00e1fico de maconha, fantasias er\u00f3dicas, l\u00edderes de torcida e dist\u00e2ncia de pensamento, comunica\u00e7\u00e3o e identidade com os pais.<br \/>\nDaria para falar mais, muito mais, especialmente da paulada que d\u00e1 nas for\u00e7as armadas americanas ao criar um coronel reformado dos fuzileiros navais, sua moral, a submiss\u00e3o e alheamento de sua mulher e seus desejos(dele) inconfess\u00e1veis.<br \/>\nMais n\u00e3o digo, para n\u00e3o tirar o prazer de quem n\u00e3o assistiu a esse intrigante filme que luta por oito \u201cOscars\u201d. A quem j\u00e1 viu, pe\u00e7o que reflita e veja que as coisas por c\u00e1, embora sejam diferentes, n\u00e3o s\u00e3o muitas. Afinal, n\u00f3s temos a mania de copiar e os Estados Unidos s\u00e3o a nossa maior refer\u00eancia, para o bem e o mal. Ia esquecendo: O t\u00edtulo do artigo refere-se \u00e0 flor (Americana Beauty) que d\u00e1 nome ao filme: \u00e9 linda, mas n\u00e3o tem cheiro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/03\/2000.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3803","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3803","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3803"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3803\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3803"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3803"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3803"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}