{"id":3804,"date":"2023-12-21T09:10:54","date_gmt":"2023-12-21T12:10:54","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/bob-fields\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:54","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:54","slug":"bob-fields","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/bob-fields\/","title":{"rendered":"BOB FIELDS"},"content":{"rendered":"<p>Os que foram estudantes universit\u00e1rios na tumultuada d\u00e9cada de 60 recordam estas duas palavras: Bob Fields. Era assim que os universit\u00e1rios, na sua maioria, chamavam o embaixador e ministro Roberto Campos. Essa era uma maneira de cham\u00e1-lo de entreguista, vendido aos americanos, calhorda, direitista etc. Ainda n\u00e3o se usava o ep\u00edteto neoliberal da forma pejorativa como \u00e9 feita hoje.<br \/>\nRoberto Campos era a imagem do c\u00e3o, o vendilh\u00e3o da p\u00e1tria e outros adjetivos n\u00e3o menos nobres. Pois n\u00e3o \u00e9 que, por conta de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, conheci o dito cujo, ent\u00e3o Embaixador do Brasil em Washington. A embaixada oferecera uma recep\u00e7\u00e3o aos bolsistas e o pr\u00f3prio nos recebeu de palet\u00f3 e sua marca registrada, a camisa social listrada com a abotoadura no colarinho como os americanos e ingleses mais tradicionais usam e, obviamente, a gravata.<br \/>\nLembro bem. Ele era um homem no esplendor do in\u00edcio da maturidade e se fazia acompanhar de SanThiago Dantas, j\u00e1 acometido e em tratamento do c\u00e2ncer que lhe mataria tempos depois.<br \/>\nCampos e Dantas eram, \u00e0 \u00e9poca, o que de mais expressivo existia de intelectuais exercendo cargos p\u00fablicos. San Thiago havia dado uma palestra em um congresso da UNE do qual participara e, acidentalmente, o recebi e com ele travei uma ligeira conversa.<br \/>\nComo gancho, voltando \u00e0 recep\u00e7\u00e3o da embaixada, relembrei tal fato a San Thiago e ele, por delicadeza ou com a bonomia pr\u00f3pria dos que est\u00e3o com a sorte selada, disse relembrar.<br \/>\nFormamos ent\u00e3o um pequeno grupo e, receosos do seu decantado encanto pessoal, passamos a ouvir a fala mansa e de timbre caracter\u00edstico de Roberto Campos. Ele estava solto e falava com sabedoria e conhecimento que, mesmo os seus advers\u00e1rios, sempre souberam reconhecer. De repente, um colega bolsista, Fl\u00e1vio de S\u00e1 Bienrrebach, paulista de bigodes retorcidos que viria a ser deputado federal, come\u00e7a a falar sobre o \u201cimperialismo americano\u201d. Sem alterar a voz e com o ar de ironia que o caracteriza, Roberto Campos perguntou a que tipo de imperialismo Fl\u00e1vio se referia. Fl\u00e1vio tentou explicar. Campos retomou o fio da conversa e disse que conhecia sete formas diferentes de imperialismo e tome hist\u00f3ria, informa\u00e7\u00e3o e conhecimento. Quedei-me mudo e absorto, o Fl\u00e1vio colocou a viola no saco e resolvemos mudar de assunto.<br \/>\nAnos depois, em Londres, fui encontrar uma pessoa que o visitara j\u00e1 na condi\u00e7\u00e3o de embaixador brasileiro na Inglaterra. Essa pessoa falava de suas gentilezas e do seu fino humor. Campos foi eleito, em seguida, deputado federal e senador, por Mato Grosso e Rio de Janeiro. Ouvi muitas de suas palestras. Apesar de n\u00e3o concordar com suas id\u00e9ias, gostava de ouvi-lo. Na pen\u00faltima delas, quando lan\u00e7ou o livro \u201cA Lanterna de Popa\u201d. Anos depois, o ouvi novamente e senti que ele estava se repetindo, n\u00e3o tinha mais nada de novo a dizer, era apenas um octogen\u00e1rio vivendo de sua fama. Retirei-me da sala, antes de conclu\u00edda sua palestra.<br \/>\nAgora, aos 82 anos, tenta se recuperar de uma les\u00e3o cerebral que uma hipoglicemia fez eclodir. Prefiro lembrar dele como o detestado Bob Fields, a quem nunca reverenciei como pol\u00edtico, mas respeitei como intelectual. Algumas frases suas s\u00e3o um primor. Vamos a quatro delas: 1. A burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor. 2. O governo n\u00e3o \u00e9 uma orquestra afinada. \u00c9 um forr\u00f3 com muitos zabumbeiros. 3. O camelo \u00e9 um cavalo planejado por um comit\u00ea de economistas, nem por isso \u00e9 um animal in\u00fatil. 4. Os elogios incondicionais que estou recebendo est\u00e3o transformando esta solenidade em meu obitu\u00e1rio.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/03\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os que foram estudantes universit\u00e1rios na tumultuada d\u00e9cada de 60 recordam estas duas palavras: Bob Fields. Era assim que os universit\u00e1rios, na sua maioria, chamavam o embaixador e ministro Roberto Campos. Essa era uma maneira de cham\u00e1-lo de entreguista, vendido aos americanos, calhorda, direitista etc. Ainda n\u00e3o se usava o ep\u00edteto neoliberal da forma pejorativa como \u00e9 feita hoje.<br \/>\nRoberto Campos era a imagem do c\u00e3o, o vendilh\u00e3o da p\u00e1tria e outros adjetivos n\u00e3o menos nobres. Pois n\u00e3o \u00e9 que, por conta de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, conheci o dito cujo, ent\u00e3o Embaixador do Brasil em Washington. A embaixada oferecera uma recep\u00e7\u00e3o aos bolsistas e o pr\u00f3prio nos recebeu de palet\u00f3 e sua marca registrada, a camisa social listrada com a abotoadura no colarinho como os americanos e ingleses mais tradicionais usam e, obviamente, a gravata.<br \/>\nLembro bem. Ele era um homem no esplendor do in\u00edcio da maturidade e se fazia acompanhar de SanThiago Dantas, j\u00e1 acometido e em tratamento do c\u00e2ncer que lhe mataria tempos depois.<br \/>\nCampos e Dantas eram, \u00e0 \u00e9poca, o que de mais expressivo existia de intelectuais exercendo cargos p\u00fablicos. San Thiago havia dado uma palestra em um congresso da UNE do qual participara e, acidentalmente, o recebi e com ele travei uma ligeira conversa.<br \/>\nComo gancho, voltando \u00e0 recep\u00e7\u00e3o da embaixada, relembrei tal fato a San Thiago e ele, por delicadeza ou com a bonomia pr\u00f3pria dos que est\u00e3o com a sorte selada, disse relembrar.<br \/>\nFormamos ent\u00e3o um pequeno grupo e, receosos do seu decantado encanto pessoal, passamos a ouvir a fala mansa e de timbre caracter\u00edstico de Roberto Campos. Ele estava solto e falava com sabedoria e conhecimento que, mesmo os seus advers\u00e1rios, sempre souberam reconhecer. De repente, um colega bolsista, Fl\u00e1vio de S\u00e1 Bienrrebach, paulista de bigodes retorcidos que viria a ser deputado federal, come\u00e7a a falar sobre o \u201cimperialismo americano\u201d. Sem alterar a voz e com o ar de ironia que o caracteriza, Roberto Campos perguntou a que tipo de imperialismo Fl\u00e1vio se referia. Fl\u00e1vio tentou explicar. Campos retomou o fio da conversa e disse que conhecia sete formas diferentes de imperialismo e tome hist\u00f3ria, informa\u00e7\u00e3o e conhecimento. Quedei-me mudo e absorto, o Fl\u00e1vio colocou a viola no saco e resolvemos mudar de assunto.<br \/>\nAnos depois, em Londres, fui encontrar uma pessoa que o visitara j\u00e1 na condi\u00e7\u00e3o de embaixador brasileiro na Inglaterra. Essa pessoa falava de suas gentilezas e do seu fino humor. Campos foi eleito, em seguida, deputado federal e senador, por Mato Grosso e Rio de Janeiro. Ouvi muitas de suas palestras. Apesar de n\u00e3o concordar com suas id\u00e9ias, gostava de ouvi-lo. Na pen\u00faltima delas, quando lan\u00e7ou o livro \u201cA Lanterna de Popa\u201d. Anos depois, o ouvi novamente e senti que ele estava se repetindo, n\u00e3o tinha mais nada de novo a dizer, era apenas um octogen\u00e1rio vivendo de sua fama. 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Os elogios incondicionais que estou recebendo est\u00e3o transformando esta solenidade em meu obitu\u00e1rio.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/03\/2000.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3804","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3804","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3804"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3804\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}