{"id":3810,"date":"2023-12-21T09:10:55","date_gmt":"2023-12-21T12:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/no-reino-do-faz-de-conta\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:55","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:55","slug":"no-reino-do-faz-de-conta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/no-reino-do-faz-de-conta\/","title":{"rendered":"NO REINO DO FAZ DE CONTA"},"content":{"rendered":"<p>Bem que n\u00f3s todos dever\u00edamos estar felizes. Ontem foi o dia das comemora\u00e7\u00f5es dos 500 anos do Brasil e, n\u00f3s os colonizados, agradecemos, rejubilados, aos colonizadores que dizimaram grande parte dos nossos \u00edndios(eram 8,5 milh\u00f5es \u00e0 \u00e9poca do descobrimento), levaram nossas riquezas minerais para a metr\u00f3pole portuguesa e, ainda segundo pesquisa feita na pr\u00f3pria p\u00e1tria-m\u00e3e, Portugal, eles n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o apaixonados por n\u00f3s quanto imaginamos. Da\u00ed muita gente n\u00e3o ver raz\u00e3o de tanta festa.<br \/>\nPor outro lado, no tempo em que eu tinha muita f\u00e9, hoje, Domingo da Ressurrei\u00e7\u00e3o, seria um dia para renovar minhas esperan\u00e7as, especialmente nos seres humanos. Hoje, j\u00e1 n\u00e3o tenho a f\u00e9 de antigamente, e quando as coisas e a realidade ficam meio confusas e as contas n\u00e3o fecham por conta de auditores que fazem (de conta) que t\u00eam alma e veem no erro humano a oportunidade de ajustes (de conta), \u00e9 hora de dar um passeio no mundo da fantasia e lacrar o cofre do dissabor. Sem medo de viver o sonho, mesmo que fugaz, vai-se ao reino do faz de conta.<br \/>\nEra uma vez um reinado cheio de sol e de gente. O sol parecia torrar o ju\u00edzo do povo e, talvez por causa disso, uns se compraziam em azucrinar o ju\u00edzo dos outros. N\u00e3o havia pessoa que escapasse. Todos tinham defeitos e contas a acertar e, para os poucos que n\u00e3o tinham, inventavam.<br \/>\nUm dia cheio de sol, o que era natural no reino, amanheceu e muita gente foi trabalhar e andar, como de costume. Formavam empresas, grupos, conversavam, riam e brincavam enquanto trabalhavam e andavam. E eis que um s\u00fadito possuidor de muitas contas em seu colar, resolveu brincar com uma s\u00fadita com menos contas em seu(dela) colar. Era costume no reino que s\u00f3 as pessoas de colares parecidos poderiam ter intimidades. Precisavam ser parecidos em quantidade e na forma das contas. Havia contas para todos os gostos, e isso \u00e9 que era levado em conta. Cada qual segundo as suas contas, era a esp\u00e9cie de regra social do reinado.<br \/>\nUm belo dia ou noite, ainda n\u00e3o se sabe bem e talvez n\u00e3o se saiba nunca, come\u00e7aram a fazer contas e era conta que n\u00e3o acabava mais. At\u00e9 se imaginou que conta n\u00e3o contava. Mas contava. O povo n\u00e3o deixava de contar e nem fazia de conta que n\u00e3o estava contando. E os dois, segundo uma vers\u00e3o, mesmo sem querer, foram se preocupando com as contas que haviam se entrela\u00e7ado, mas fizerem de conta que nada havia contado. Mas h\u00e1 outras vers\u00f5es, \u00e9 o que se conta.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 23\/04\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem que n\u00f3s todos dever\u00edamos estar felizes. Ontem foi o dia das comemora\u00e7\u00f5es dos 500 anos do Brasil e, n\u00f3s os colonizados, agradecemos, rejubilados, aos colonizadores que dizimaram grande parte dos nossos \u00edndios(eram 8,5 milh\u00f5es \u00e0 \u00e9poca do descobrimento), levaram nossas riquezas minerais para a metr\u00f3pole portuguesa e, ainda segundo pesquisa feita na pr\u00f3pria p\u00e1tria-m\u00e3e, Portugal, eles n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o apaixonados por n\u00f3s quanto imaginamos. Da\u00ed muita gente n\u00e3o ver raz\u00e3o de tanta festa.<br \/>\nPor outro lado, no tempo em que eu tinha muita f\u00e9, hoje, Domingo da Ressurrei\u00e7\u00e3o, seria um dia para renovar minhas esperan\u00e7as, especialmente nos seres humanos. Hoje, j\u00e1 n\u00e3o tenho a f\u00e9 de antigamente, e quando as coisas e a realidade ficam meio confusas e as contas n\u00e3o fecham por conta de auditores que fazem (de conta) que t\u00eam alma e veem no erro humano a oportunidade de ajustes (de conta), \u00e9 hora de dar um passeio no mundo da fantasia e lacrar o cofre do dissabor. Sem medo de viver o sonho, mesmo que fugaz, vai-se ao reino do faz de conta.<br \/>\nEra uma vez um reinado cheio de sol e de gente. O sol parecia torrar o ju\u00edzo do povo e, talvez por causa disso, uns se compraziam em azucrinar o ju\u00edzo dos outros. N\u00e3o havia pessoa que escapasse. Todos tinham defeitos e contas a acertar e, para os poucos que n\u00e3o tinham, inventavam.<br \/>\nUm dia cheio de sol, o que era natural no reino, amanheceu e muita gente foi trabalhar e andar, como de costume. Formavam empresas, grupos, conversavam, riam e brincavam enquanto trabalhavam e andavam. E eis que um s\u00fadito possuidor de muitas contas em seu colar, resolveu brincar com uma s\u00fadita com menos contas em seu(dela) colar. Era costume no reino que s\u00f3 as pessoas de colares parecidos poderiam ter intimidades. Precisavam ser parecidos em quantidade e na forma das contas. Havia contas para todos os gostos, e isso \u00e9 que era levado em conta. Cada qual segundo as suas contas, era a esp\u00e9cie de regra social do reinado.<br \/>\nUm belo dia ou noite, ainda n\u00e3o se sabe bem e talvez n\u00e3o se saiba nunca, come\u00e7aram a fazer contas e era conta que n\u00e3o acabava mais. At\u00e9 se imaginou que conta n\u00e3o contava. Mas contava. O povo n\u00e3o deixava de contar e nem fazia de conta que n\u00e3o estava contando. E os dois, segundo uma vers\u00e3o, mesmo sem querer, foram se preocupando com as contas que haviam se entrela\u00e7ado, mas fizerem de conta que nada havia contado. 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