{"id":3817,"date":"2023-12-21T09:10:55","date_gmt":"2023-12-21T12:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/nao-morar\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:55","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:55","slug":"nao-morar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/nao-morar\/","title":{"rendered":"N\u00c3O MORAR"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 claro que sabemos ser amanh\u00e3 o dia dos namorados, v\u00e9spera do dia de Santo Ant\u00f4nio. Mas, n\u00e3o sabemos por qual raz\u00e3o, independente da nossa vontade, tem uma frase martelando na cabe\u00e7a: namorar \u00e9 n\u00e3o morar. Essa frase veio sem pedir licen\u00e7a, com &#8220;gosto de g\u00e1s&#8221; e imp\u00f4s-se forte e j\u00e1 est\u00e1 ai, escrita.<br \/>\nConvivemos com gente de todas as faixas de idade e sabemos ser a ideia b\u00e1sica do namoro o conhecimento, a explos\u00e3o do amor e o acasalamento, o morar junto. A\u00ed \u00e9 onde o namoro pode bater asa, at\u00e9 o casamento aparecer e, mesmo sem querer, fenecer.<br \/>\nEstamos convencidos de que os seres humanos foram feitos para amar e um dos pressupostos para amar pode ser a liberdade: estar-se preso a algu\u00e9m pelos invis\u00edveis la\u00e7os do amor. Sonhar \u00e9 um dos mist\u00e9rios que nos mant\u00e9m vivos.<br \/>\nPor que nos rendermos ao cotidiano do p\u00e3o e caf\u00e9, do banheiro dividido, da cara amassada ao acordar e da falta de ar em meio aos ventos que sopram e n\u00e3o afastam os males? Amor n\u00e3o \u00e9 cons\u00f3rcio de problemas.<br \/>\nN\u00e3o morar talvez seja o mais rom\u00e2ntico no namoro e diz do desejo de visitas e das prem\u00eancias em ver o outro, rever o rosto, sentir as m\u00e3os, aconchegar o corpo, ouvir a voz e escutar o sil\u00eancio, ap\u00f3s tudo.<br \/>\nNamorar n\u00e3o \u00e9 sugar o mel, mas ver a flor desabrochar e sentir o seu perfume sem asfixi\u00e1-la, deix\u00e1-la livre, at\u00e9 que sua fragr\u00e2ncia esvae\u00e7a, pouco a pouco, tornando-nos \u00e9brio de sentimentos meio desataviados e, paradoxalmente, atados pelos liames do indiz\u00edvel, mas sens\u00edvel e, at\u00e9, palat\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o morar pode ser a solu\u00e7\u00e3o anti-habitacional do amor, mas talvez seja tamb\u00e9m a resposta gravitacional do escravo- livre que, como o Jo\u00e3o- de- Barro volta ao casulo pelo prazer que d\u00e1 em constru\u00ed-lo, sem a obriga\u00e7\u00e3o da perp\u00e9tua resid\u00eancia.<br \/>\nComo seria bom rimar namorar e morar, transformar em versos o que \u00e9 diverso. Saber que, apesar de iguais, somos absolutamente diferentes e inexoravelmente destinados a uma solid\u00e3o compartilhada (ou n\u00e3o) ou a namorar sem morar. Paradoxo pouco ortodoxo? Ou a irrever\u00eancia de uma prudente imprud\u00eancia? Tempos permissivos?<br \/>\nMorar pode ser conhecer o todo. Pode negar a navega\u00e7\u00e3o da descoberta, das trilhas do desejo e dos arrecifes dos amuos. Morar, quem sabe, seja banalizar-se, tornar-se c\u00famplice de um crime n\u00e3o cometido, proscrito ou prescrito. Por outro lado, se livre estivermos voltaremos felizes em busca da \u00e1gua que sacia a garganta seca e amacia os l\u00e1bios crestados.<br \/>\nN\u00e3o nos pe\u00e7am para ser mais claros. Clareza em excesso cega e s\u00f3 os cegos aceitam guias, pois n\u00e3o t\u00eam alternativas. Sejamos essas pessoas confusas, difusas e, at\u00e9, obtusas que t\u00eam a impureza necess\u00e1ria ao pecado de viver.<br \/>\nFa\u00e7amos do namorar o bem a vir e, do morar a inutilidade, o sup\u00e9rfluo, mas aquilo que talvez fuja \u00e0 ess\u00eancia do devaneio e escancara a face velada da hipocrisia. O namorar \u00e9 a esperan\u00e7a. O n\u00e3o morar \u00e9 a f\u00e9 no outro.<br \/>\nO morar n\u00e3o deve ser a caridade indesejada ou a acomoda\u00e7\u00e3o lentamente suicida. O morar deve ser a consci\u00eancia amadurecida, independente das cobran\u00e7as, mas produto da vontade e n\u00e3o da obrigatoriedade ou necessidade.<br \/>\nN\u00e3o se tenham como c\u00ednicos, descrentes ou desiludidos. Devemos ser, pelo contr\u00e1rio, um cond\u00e3o de esperan\u00e7as aos que ainda acreditam que amarras n\u00e3o podem ser confundidas com amar\u00e1s compulsoriamente pois, caso contr\u00e1rio, o (mesmo) teto cair\u00e1 sobre nossas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 11\/06\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 claro que sabemos ser amanh\u00e3 o dia dos namorados, v\u00e9spera do dia de Santo Ant\u00f4nio. Mas, n\u00e3o sabemos por qual raz\u00e3o, independente da nossa vontade, tem uma frase martelando na cabe\u00e7a: namorar \u00e9 n\u00e3o morar. Essa frase veio sem pedir licen\u00e7a, com &#8220;gosto de g\u00e1s&#8221; e imp\u00f4s-se forte e j\u00e1 est\u00e1 ai, escrita.<br \/>\nConvivemos com gente de todas as faixas de idade e sabemos ser a ideia b\u00e1sica do namoro o conhecimento, a explos\u00e3o do amor e o acasalamento, o morar junto. A\u00ed \u00e9 onde o namoro pode bater asa, at\u00e9 o casamento aparecer e, mesmo sem querer, fenecer.<br \/>\nEstamos convencidos de que os seres humanos foram feitos para amar e um dos pressupostos para amar pode ser a liberdade: estar-se preso a algu\u00e9m pelos invis\u00edveis la\u00e7os do amor. Sonhar \u00e9 um dos mist\u00e9rios que nos mant\u00e9m vivos.<br \/>\nPor que nos rendermos ao cotidiano do p\u00e3o e caf\u00e9, do banheiro dividido, da cara amassada ao acordar e da falta de ar em meio aos ventos que sopram e n\u00e3o afastam os males? Amor n\u00e3o \u00e9 cons\u00f3rcio de problemas.<br \/>\nN\u00e3o morar talvez seja o mais rom\u00e2ntico no namoro e diz do desejo de visitas e das prem\u00eancias em ver o outro, rever o rosto, sentir as m\u00e3os, aconchegar o corpo, ouvir a voz e escutar o sil\u00eancio, ap\u00f3s tudo.<br \/>\nNamorar n\u00e3o \u00e9 sugar o mel, mas ver a flor desabrochar e sentir o seu perfume sem asfixi\u00e1-la, deix\u00e1-la livre, at\u00e9 que sua fragr\u00e2ncia esvae\u00e7a, pouco a pouco, tornando-nos \u00e9brio de sentimentos meio desataviados e, paradoxalmente, atados pelos liames do indiz\u00edvel, mas sens\u00edvel e, at\u00e9, palat\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o morar pode ser a solu\u00e7\u00e3o anti-habitacional do amor, mas talvez seja tamb\u00e9m a resposta gravitacional do escravo- livre que, como o Jo\u00e3o- de- Barro volta ao casulo pelo prazer que d\u00e1 em constru\u00ed-lo, sem a obriga\u00e7\u00e3o da perp\u00e9tua resid\u00eancia.<br \/>\nComo seria bom rimar namorar e morar, transformar em versos o que \u00e9 diverso. Saber que, apesar de iguais, somos absolutamente diferentes e inexoravelmente destinados a uma solid\u00e3o compartilhada (ou n\u00e3o) ou a namorar sem morar. Paradoxo pouco ortodoxo? Ou a irrever\u00eancia de uma prudente imprud\u00eancia? Tempos permissivos?<br \/>\nMorar pode ser conhecer o todo. Pode negar a navega\u00e7\u00e3o da descoberta, das trilhas do desejo e dos arrecifes dos amuos. Morar, quem sabe, seja banalizar-se, tornar-se c\u00famplice de um crime n\u00e3o cometido, proscrito ou prescrito. Por outro lado, se livre estivermos voltaremos felizes em busca da \u00e1gua que sacia a garganta seca e amacia os l\u00e1bios crestados.<br \/>\nN\u00e3o nos pe\u00e7am para ser mais claros. Clareza em excesso cega e s\u00f3 os cegos aceitam guias, pois n\u00e3o t\u00eam alternativas. 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