{"id":3823,"date":"2023-12-21T09:10:55","date_gmt":"2023-12-21T12:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-rio-a-amiga-e-o-hotel\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:55","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:55","slug":"o-rio-a-amiga-e-o-hotel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-rio-a-amiga-e-o-hotel\/","title":{"rendered":"O RIO, A AMIGA E O HOTEL"},"content":{"rendered":"<p>Parece n\u00edtida a imagem. A Av. Atl\u00e2ntica ainda era estreita e abrigava, do posto 02 ao 06, v\u00e1rios casar\u00f5es e sobrados. Em um deles, a propriet\u00e1ria, uma ex- nobre vi\u00fava de muitos e muitos anos, hospedava mo\u00e7as de \u201cfino trato, bem recomendadas e de boa fam\u00edlia\u201d. Entre elas, uma amiga que viera passar as f\u00e9rias de julho no Rio. Eu me deslocava para visit\u00e1-la l\u00e1 da Ilha do Governador, onde ficava na casa de uma tia.<br \/>\nEm hor\u00e1rios marcados para sair e voltar, passe\u00e1vamos alegres e despreocupados. Um desses passeios era ir at\u00e9 \u00e0 esquina da Rua S\u00e1 Ferreira, onde se erguia o bonito e majestoso Miramar Palace Hotel. L\u00e1, um empres\u00e1rio destas plagas, hospedava-se com toda a sua fam\u00edlia por semanas seguidas. \u00c9ramos recebidos no \u201clobby\u201d e os meus olhos de jovem ficavam impressionados com a suntuosidade da escadaria, a beleza dos lustres, o brilho dos m\u00e1rmores e a vista do mar descortinada de suas sacadas.<br \/>\nAquilo ficou gravado na minha mem\u00f3ria. Anos ap\u00f3s, j\u00e1 formado e come\u00e7ando a minha vida profissional, hospedei-me no Miramar para tentar sentir a mesma sensa\u00e7\u00e3o gerada no primeiro impacto visual. Era julho, novamente, fazia o mesmo friozinho gostoso e comportado do Rio e recebi amigos no mesmo \u201clobby\u201d e no bar. Senti-me infantilmente vaidoso de estar no lugar idealizado na primeira juventude.<br \/>\nSemana passada, mesmo sem precisar, mas para um ajuste de contas com o passado, voltei a ficar no Miramar. Aos meus olhos de hoje, n\u00e3o passa de mais um velho e razoavelmente conservado grande hotel do Rio, que perdeu parte de seu charme ao ceder sua varanda t\u00e9rrea, defronte ao mar, para uma cadeia estrangeira de sorvetes sofisticados.<br \/>\nHospedei-me no nono andar e vi, por breves dias o mar encoberto pela fria neblina deste novo julho, d\u00e9cadas depois. Fiquei olhando o imenso apartamento, com sof\u00e1s, mesa de jantar e quarto de dormir, e tudo voltou \u00e0 tona. Mas n\u00e3o havia mais perguntas e as respostas pareciam n\u00e3o fazer mais sentido.<br \/>\nA Av. Atl\u00e2ntica, alargada, j\u00e1 n\u00e3o comporta mais o fluxo de ve\u00edculos, e \u00e9 ainda essa mistura de encanto, sedu\u00e7\u00e3o &#8211; e agora &#8211; permanente medo. Os sobrados e casar\u00f5es foram, h\u00e1 muito, implodidos em nome do progresso e a amiga de ent\u00e3o quedou-se sozinha em sua vida povoada de leituras, pela madrugada, de livros, pareceres e processos. Eu, por outro lado, j\u00e1 n\u00e3o tenho os fervores da juventude e da imaturidade e, o barulho seq\u00fcenciado &#8211; e monoc\u00f3rdio &#8211; do mar parece mostrar, sem nenhuma d\u00favida, que os sonhos s\u00e3o engolfados pela realidade, que nos puxa para frente, mesmo que as lembran\u00e7as do passado estejam por perto.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 23\/07\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece n\u00edtida a imagem. A Av. 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L\u00e1, um empres\u00e1rio destas plagas, hospedava-se com toda a sua fam\u00edlia por semanas seguidas. \u00c9ramos recebidos no \u201clobby\u201d e os meus olhos de jovem ficavam impressionados com a suntuosidade da escadaria, a beleza dos lustres, o brilho dos m\u00e1rmores e a vista do mar descortinada de suas sacadas.<br \/>\nAquilo ficou gravado na minha mem\u00f3ria. Anos ap\u00f3s, j\u00e1 formado e come\u00e7ando a minha vida profissional, hospedei-me no Miramar para tentar sentir a mesma sensa\u00e7\u00e3o gerada no primeiro impacto visual. Era julho, novamente, fazia o mesmo friozinho gostoso e comportado do Rio e recebi amigos no mesmo \u201clobby\u201d e no bar. Senti-me infantilmente vaidoso de estar no lugar idealizado na primeira juventude.<br \/>\nSemana passada, mesmo sem precisar, mas para um ajuste de contas com o passado, voltei a ficar no Miramar. Aos meus olhos de hoje, n\u00e3o passa de mais um velho e razoavelmente conservado grande hotel do Rio, que perdeu parte de seu charme ao ceder sua varanda t\u00e9rrea, defronte ao mar, para uma cadeia estrangeira de sorvetes sofisticados.<br \/>\nHospedei-me no nono andar e vi, por breves dias o mar encoberto pela fria neblina deste novo julho, d\u00e9cadas depois. Fiquei olhando o imenso apartamento, com sof\u00e1s, mesa de jantar e quarto de dormir, e tudo voltou \u00e0 tona. Mas n\u00e3o havia mais perguntas e as respostas pareciam n\u00e3o fazer mais sentido.<br \/>\nA Av. Atl\u00e2ntica, alargada, j\u00e1 n\u00e3o comporta mais o fluxo de ve\u00edculos, e \u00e9 ainda essa mistura de encanto, sedu\u00e7\u00e3o &#8211; e agora &#8211; permanente medo. Os sobrados e casar\u00f5es foram, h\u00e1 muito, implodidos em nome do progresso e a amiga de ent\u00e3o quedou-se sozinha em sua vida povoada de leituras, pela madrugada, de livros, pareceres e processos. 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