{"id":3824,"date":"2023-12-21T09:10:55","date_gmt":"2023-12-21T12:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-escrever-efemero\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:55","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:55","slug":"o-escrever-efemero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-escrever-efemero\/","title":{"rendered":"O ESCREVER EF\u00caMERO"},"content":{"rendered":"<p>Li, com interesse, um artigo do fil\u00f3sofo e escritor (nem todo fil\u00f3sofo \u00e9 escritor e rec\u00edproca \u00e9 verdadeira) espanhol Fernando Savater sobre \u201cA import\u00e2ncia do ef\u00eamero\u201d. Nele, Savater fala de sua preocupa\u00e7\u00e3o com as novas gera\u00e7\u00f5es virem a esquecer de ler jornais, em troca da navega\u00e7\u00e3o pela Internet e dos \u201cchats\u201d de conversa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu penso que sempre existir\u00e3o jornais, talvez as formas venham a ser diferentes, mas as pessoas gostam do prazer t\u00e1til de abrir um jornal e procurar o que lhe interessa ou atrai. As novas gera\u00e7\u00f5es precisam ser incentivadas, especialmente pelas fam\u00edlias e os pr\u00f3prios jornais, deveriam ser mais alegres, menos sisudos e ter uma forma de comunica\u00e7\u00e3o mais leve para conquistar novos e jovens leitores.<br \/>\nVoltando a Savater. Para alegria minha, ele elogia os artigos publicados em jornais &#8211; mesmo os de tipia t\u00e3o diminuta como este, que for\u00e7a a vista do leitor. Ele diz que a efemeridade do artigo \u00e9 o fundamental: \u201cNenhum artigo, por melhor ou certeiro que seja, sobrevive muito al\u00e9m do dia em que sai impresso. Pelo menos n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel para quem o escreva pense que est\u00e1 cunhando um ditame para os s\u00e9culos vindouros, devendo contentar-se em se dirigir \u00e0queles que compartilham com ele a luz desse mesmo amanhecer\u201d.<br \/>\nNo meu caso, \u00e9 o que tento fazer, com os poucos dotes de que disponho. Compartilhar com os meus escassos leitores, entre eles, por exemplo, uma advogada, uma procuradora, um renomado engenheiro, uma funcion\u00e1ria p\u00fablica e uma cerimonialista que me alegraram, em encontros fortuitos, falando, no mesmo dia, sobre o artigo do domingo passado (O Rio, o mar e a amiga).<br \/>\n\u201cA arte do articulista com certa inspira\u00e7\u00e3o a aprofundar seus temas consiste em falar das coisas que passam como se n\u00e3o fossem passar. \u00c9 um aut\u00eantico desafio, alegre e dif\u00edcil ao mesmo tempo\u201d, afirma Savater. Vamos por partes.<br \/>\nQuem escreve por prazer, gosta de saber-se lido. Quem escreve, n\u00e3o tem tamb\u00e9m o direito de perder-se em fraseado bonito, \u00f4co e inconsequente. Tem que ser simples e r\u00e1pido, pois o articulista \u00e9 um sequestrador do tempo de seus leitores e imagina poder criar uma esp\u00e9cie de \u201cs\u00edndrome de Estocolmo\u201d em que ref\u00e9m e sequestrador possam vir a gostar um do outro. O articulista deve saber sequestrar o leitor da sua realidade, especialmente o escrevinhador dominical que compete com a pregui\u00e7a, o sol, o mar, o rio, a televis\u00e3o, o cinema, o futebol, o of\u00edcio religioso e o velho e bom livro ali do lado.<br \/>\nSavater fala dos artigos de Chesterton (Gilbert Chesterton, escritor ingl\u00eas, falecido em 1936) e diz: \u201cnada por aqui, nada por ali, e de repente surge uma brev\u00edssima teoria sobre o que quer que seja, em que se concentra mais pensamento e mais sabedoria que em qualquer volume filos\u00f3fico escrito por alguns de meus colegas acad\u00eamicos&#8230; Para essa esc\u00f3ria, nada mais respeit\u00e1vel que o pedantismo que ocupa calhama\u00e7os e vem com notas de rodap\u00e9\u201d.<br \/>\nO segredo parece estar nisso, sair falando sobre coisa e lousa e,de repente, passar uma ideia, m\u00ednima que seja, como a de se mostrar aos filhos o suplemento infantil em uma atitude s\u00e1bia, para incutir-lhes o h\u00e1bito prazeroso da leitura.Pois ler nunca \u00e9 tempo perdido, mesmo que o escrito n\u00e3o seja bom. Nesse caso, exercitou-se, no m\u00ednimo, o ju\u00edzo cr\u00edtico. No m\u00e1ximo, pode-se virar a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 30\/07\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li, com interesse, um artigo do fil\u00f3sofo e escritor (nem todo fil\u00f3sofo \u00e9 escritor e rec\u00edproca \u00e9 verdadeira) espanhol Fernando Savater sobre \u201cA import\u00e2ncia do ef\u00eamero\u201d. Nele, Savater fala de sua preocupa\u00e7\u00e3o com as novas gera\u00e7\u00f5es virem a esquecer de ler jornais, em troca da navega\u00e7\u00e3o pela Internet e dos \u201cchats\u201d de conversa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu penso que sempre existir\u00e3o jornais, talvez as formas venham a ser diferentes, mas as pessoas gostam do prazer t\u00e1til de abrir um jornal e procurar o que lhe interessa ou atrai. As novas gera\u00e7\u00f5es precisam ser incentivadas, especialmente pelas fam\u00edlias e os pr\u00f3prios jornais, deveriam ser mais alegres, menos sisudos e ter uma forma de comunica\u00e7\u00e3o mais leve para conquistar novos e jovens leitores.<br \/>\nVoltando a Savater. Para alegria minha, ele elogia os artigos publicados em jornais &#8211; mesmo os de tipia t\u00e3o diminuta como este, que for\u00e7a a vista do leitor. Ele diz que a efemeridade do artigo \u00e9 o fundamental: \u201cNenhum artigo, por melhor ou certeiro que seja, sobrevive muito al\u00e9m do dia em que sai impresso. Pelo menos n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel para quem o escreva pense que est\u00e1 cunhando um ditame para os s\u00e9culos vindouros, devendo contentar-se em se dirigir \u00e0queles que compartilham com ele a luz desse mesmo amanhecer\u201d.<br \/>\nNo meu caso, \u00e9 o que tento fazer, com os poucos dotes de que disponho. Compartilhar com os meus escassos leitores, entre eles, por exemplo, uma advogada, uma procuradora, um renomado engenheiro, uma funcion\u00e1ria p\u00fablica e uma cerimonialista que me alegraram, em encontros fortuitos, falando, no mesmo dia, sobre o artigo do domingo passado (O Rio, o mar e a amiga).<br \/>\n\u201cA arte do articulista com certa inspira\u00e7\u00e3o a aprofundar seus temas consiste em falar das coisas que passam como se n\u00e3o fossem passar. \u00c9 um aut\u00eantico desafio, alegre e dif\u00edcil ao mesmo tempo\u201d, afirma Savater. Vamos por partes.<br \/>\nQuem escreve por prazer, gosta de saber-se lido. Quem escreve, n\u00e3o tem tamb\u00e9m o direito de perder-se em fraseado bonito, \u00f4co e inconsequente. Tem que ser simples e r\u00e1pido, pois o articulista \u00e9 um sequestrador do tempo de seus leitores e imagina poder criar uma esp\u00e9cie de \u201cs\u00edndrome de Estocolmo\u201d em que ref\u00e9m e sequestrador possam vir a gostar um do outro. O articulista deve saber sequestrar o leitor da sua realidade, especialmente o escrevinhador dominical que compete com a pregui\u00e7a, o sol, o mar, o rio, a televis\u00e3o, o cinema, o futebol, o of\u00edcio religioso e o velho e bom livro ali do lado.<br \/>\nSavater fala dos artigos de Chesterton (Gilbert Chesterton, escritor ingl\u00eas, falecido em 1936) e diz: \u201cnada por aqui, nada por ali, e de repente surge uma brev\u00edssima teoria sobre o que quer que seja, em que se concentra mais pensamento e mais sabedoria que em qualquer volume filos\u00f3fico escrito por alguns de meus colegas acad\u00eamicos&#8230; Para essa esc\u00f3ria, nada mais respeit\u00e1vel que o pedantismo que ocupa calhama\u00e7os e vem com notas de rodap\u00e9\u201d.<br \/>\nO segredo parece estar nisso, sair falando sobre coisa e lousa e,de repente, passar uma ideia, m\u00ednima que seja, como a de se mostrar aos filhos o suplemento infantil em uma atitude s\u00e1bia, para incutir-lhes o h\u00e1bito prazeroso da leitura.Pois ler nunca \u00e9 tempo perdido, mesmo que o escrito n\u00e3o seja bom. 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No m\u00e1ximo, pode-se virar a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 30\/07\/2000.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3824","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3824","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3824"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3824\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}