{"id":3829,"date":"2023-12-21T09:10:55","date_gmt":"2023-12-21T12:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-amor-mata\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:55","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:55","slug":"o-amor-mata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-amor-mata\/","title":{"rendered":"O AMOR MATA"},"content":{"rendered":"<p>Li muito do que foi escrito pelos grandes jornais e revistas brasileiros acerca do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo ex-namorado Pimenta Neves. Muito sensacionalismo, corporativismo, apelos sentimentais e pouca an\u00e1lise cr\u00edtica. Parece que todos os jornalistas foram apanhados de surpresa, pois, via-de-regra, a imprensa dita regras, insinua culpas, antecipa julgamentos e toma partido. De repente, ficou at\u00f4nita. Um jornalista era um assassino; uma jornalista, a v\u00edtima.<br \/>\nImaginem, s\u00f3 para raciocinar, se o assassino tivesse outra profiss\u00e3o. Teria, talvez, sido linchado, pois a imprensa sensacionalista poderia incitar populares a isso. Para encerrar esta parte da hist\u00f3ria, fica apenas uma li\u00e7\u00e3o elementar: jornalista \u00e9 gente igual a todos.<br \/>\nDito isto, fiquei me indagando, por qu\u00ea a falta coletiva de lucidez? Por qu\u00ea n\u00e3o se considerou a fragilidade do ser humano, t\u00e3o clara para Isaiah Berlin, ao dizer: \u201cA no\u00e7\u00e3o do todo perfeito, a solu\u00e7\u00e3o final, em que tudo o que \u00e9 bom coexiste, n\u00e3o me parece apenas inating\u00edvel- isso \u00e9 um tru\u00edsmo\u201d.<br \/>\nComo os jornais e as revistas n\u00e3o me deram respostas convincentes, procurei me valer, l\u00e1 no Rio de Janeiro, de uma leitora e amiga. Ela \u00e9, para mim, uma pessoa capaz de emitir opini\u00e3o, pois, na sua condi\u00e7\u00e3o de psicanalista, costuma escrever artigos e ensaios para revistas especializadas<br \/>\nVejam o que Tha\u00eds Oliveira nos diz sobre o comportamento de Pimenta: \u201cA liga\u00e7\u00e3o que mantinha com ela, gra\u00e7as \u00e0 sua idade, lhe dava uma esp\u00e9cie de garantia contra a id\u00e9ia de envelhecimento e portanto de morte. A origem narc\u00edsica do desespero de Pimenta pode ser enquadrada no que foi designado pelo psicanalista Heinz Kohut como \u201cf\u00faria narc\u00edsica\u201d. Essa rea\u00e7\u00e3o pode ocorrer quando uma pessoa, ferida em sua vaidade patol\u00f3gica \u2013 e aqui n\u00e3o importa o seu grau de cultura e experi\u00eancia \u2013 \u00e9 tomada por uma agressividade descontrolada que anula praticamente sua racionalidade. Nesse estado, ela age tomada por grande impulsividade, com o intuito de punir o respons\u00e1vel pela sua dor, pela perda de seu equil\u00edbrio.\u201d<br \/>\nThais, finalmente, vai ao crime: \u201cao rejeitar Pimenta, privou-o da impress\u00e3o de ser ainda um homem jovem, poderoso , viril e, portanto, protegido da morte. Ao inv\u00e9s de entrar em depress\u00e3o ou sentir tristeza com a perda da namorada, o jornalista a puniu como \u2018respons\u00e1vel\u2019 pela \u2018f\u00faria narc\u00edsica\u2019 que lhe foi imposta, invertendo a situa\u00e7\u00e3o e fazendo com que ela, que era de fato jovem, viesse a morrer&#8230; Sandra, sem saber, p\u00f4s um ponto final \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de efeito \u201cm\u00e1gico\u201d que sustentava a vida emocional de Pimenta e que o ajudava a negar todas as perdas que sofremos no processo de perda da juventude\u201d.<br \/>\nPara mim, a an\u00e1lise da psicanalista Thais Oliveira \u00e9 um um bom subs\u00eddio aos que n\u00e3o entendem que o amor pode matar. E n\u00e3o se contenta em matar s\u00f3 a pessoa, o \u201ccriminoso-abandonado\u201d transcende a dor da sua perda ao procurar sepultar\/aniquilar, post-mortem, igualmente, o car\u00e1ter, a fam\u00edlia, a dignidade, enfim, os valores da abandonadora-morta.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 03\/09\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li muito do que foi escrito pelos grandes jornais e revistas brasileiros acerca do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo ex-namorado Pimenta Neves. Muito sensacionalismo, corporativismo, apelos sentimentais e pouca an\u00e1lise cr\u00edtica. Parece que todos os jornalistas foram apanhados de surpresa, pois, via-de-regra, a imprensa dita regras, insinua culpas, antecipa julgamentos e toma partido. De repente, ficou at\u00f4nita. Um jornalista era um assassino; uma jornalista, a v\u00edtima.<br \/>\nImaginem, s\u00f3 para raciocinar, se o assassino tivesse outra profiss\u00e3o. Teria, talvez, sido linchado, pois a imprensa sensacionalista poderia incitar populares a isso. Para encerrar esta parte da hist\u00f3ria, fica apenas uma li\u00e7\u00e3o elementar: jornalista \u00e9 gente igual a todos.<br \/>\nDito isto, fiquei me indagando, por qu\u00ea a falta coletiva de lucidez? Por qu\u00ea n\u00e3o se considerou a fragilidade do ser humano, t\u00e3o clara para Isaiah Berlin, ao dizer: \u201cA no\u00e7\u00e3o do todo perfeito, a solu\u00e7\u00e3o final, em que tudo o que \u00e9 bom coexiste, n\u00e3o me parece apenas inating\u00edvel- isso \u00e9 um tru\u00edsmo\u201d.<br \/>\nComo os jornais e as revistas n\u00e3o me deram respostas convincentes, procurei me valer, l\u00e1 no Rio de Janeiro, de uma leitora e amiga. Ela \u00e9, para mim, uma pessoa capaz de emitir opini\u00e3o, pois, na sua condi\u00e7\u00e3o de psicanalista, costuma escrever artigos e ensaios para revistas especializadas<br \/>\nVejam o que Tha\u00eds Oliveira nos diz sobre o comportamento de Pimenta: \u201cA liga\u00e7\u00e3o que mantinha com ela, gra\u00e7as \u00e0 sua idade, lhe dava uma esp\u00e9cie de garantia contra a id\u00e9ia de envelhecimento e portanto de morte. A origem narc\u00edsica do desespero de Pimenta pode ser enquadrada no que foi designado pelo psicanalista Heinz Kohut como \u201cf\u00faria narc\u00edsica\u201d. Essa rea\u00e7\u00e3o pode ocorrer quando uma pessoa, ferida em sua vaidade patol\u00f3gica \u2013 e aqui n\u00e3o importa o seu grau de cultura e experi\u00eancia \u2013 \u00e9 tomada por uma agressividade descontrolada que anula praticamente sua racionalidade. Nesse estado, ela age tomada por grande impulsividade, com o intuito de punir o respons\u00e1vel pela sua dor, pela perda de seu equil\u00edbrio.\u201d<br \/>\nThais, finalmente, vai ao crime: \u201cao rejeitar Pimenta, privou-o da impress\u00e3o de ser ainda um homem jovem, poderoso , viril e, portanto, protegido da morte. Ao inv\u00e9s de entrar em depress\u00e3o ou sentir tristeza com a perda da namorada, o jornalista a puniu como \u2018respons\u00e1vel\u2019 pela \u2018f\u00faria narc\u00edsica\u2019 que lhe foi imposta, invertendo a situa\u00e7\u00e3o e fazendo com que ela, que era de fato jovem, viesse a morrer&#8230; Sandra, sem saber, p\u00f4s um ponto final \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de efeito \u201cm\u00e1gico\u201d que sustentava a vida emocional de Pimenta e que o ajudava a negar todas as perdas que sofremos no processo de perda da juventude\u201d.<br \/>\nPara mim, a an\u00e1lise da psicanalista Thais Oliveira \u00e9 um um bom subs\u00eddio aos que n\u00e3o entendem que o amor pode matar. 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