{"id":3835,"date":"2023-12-21T09:10:55","date_gmt":"2023-12-21T12:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/estar-crianca\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:55","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:55","slug":"estar-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/estar-crianca\/","title":{"rendered":"ESTAR CRIAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p>Quinta-feira foi o Dia das Crian\u00e7as. \u00c9 claro que a m\u00eddia tem interesse em fomentar os dias disso e daquilo. Mas, n\u00f3s tamb\u00e9m vivemos de s\u00edmbolos, arqu\u00e9tipos, lembran\u00e7as, \u00edcones, motiva\u00e7\u00f5es e sonhos. Sonhemos, ent\u00e3o em estar crian\u00e7a.<br \/>\nOs que j\u00e1 passaram h\u00e1 muito do tempo de ser crian\u00e7a poderiam aproveitar seus imagin\u00e1rios para revisitar as crian\u00e7as que foram. Poderiam ver o \u201cmaking off\u201d de suas inf\u00e2ncias, analisar com olho adulto e serem mais indulgentes com os pais e irm\u00e3os. Olhar de onde vieram seus pais, quais eram os seus valores, as suas forma\u00e7\u00f5es e as lutas que travaram para ocupar seus lugares neste t\u00e3o vasto mundo. \u00c9 preciso, repito, ver o passado com olhar indulgente, sem a lente zoom que particulariza e aumenta os defeitos. Os nossos pais talvez sejam como n\u00f3s, mas no tempo deles.<br \/>\nDe um tempo para c\u00e1, especialmente nestes cem anos freudianos, os pais passaram a responder por muitos dos nossos erros, das nossas frustra\u00e7\u00f5es, dos desencontros existenciais e por ai vai. Os pais foram ficando na berlinda com os estudos edipianos e as vis\u00f5es de Electra. De princ\u00edpio, todos os pais eram castradores, cerceadores de nossos desejos, balizadores de nossas condutas e indutores dos nossos destinos. Depois, veio o contraponto. Deixaram de proibir. Liberaram geral e s\u00e3o culpados por omiss\u00e3o, dos mimos em excesso ou pela falta de tempo para os di\u00e1logos necess\u00e1rios entre pais e filhos.<br \/>\nC\u00e1 entre n\u00f3s, na minha revisita pessoal, me vejo cercado de irm\u00e3os com idades parecidas e gostos d\u00edspares, na grande mesa da sala de jantar com uma jovem m\u00e3e dedicada, equilibrada e ciosa de suas responsabilidades. Um pai mantenedor e coadjuvante no processo de tentar transformar aquela \u201cmiu\u00e7aia\u201d de gente. Sendo o mais velho, precisava ser exemplo e, na verdade, n\u00e3o sabia ser nada, era massa em forma\u00e7\u00e3o em meio a um mundo que se encantava com a televis\u00e3o, a libera\u00e7\u00e3o feminina, a p\u00edlula anticoncepcional, a milit\u00e2ncia estudantil, a magia dos livros, os enlevos dos filmes e a obriga\u00e7\u00e3o de estudar o que muitos professores mandavam e eu j\u00e1 intu\u00eda que pouco valeria na vida real. Foi assim comigo, n\u00e3o deve ter sido muito diferente para voc\u00eas, humanos e contempor\u00e2neos que somos.<br \/>\nMas falava de estar crian\u00e7a. Estar crian\u00e7a \u00e9 n\u00e3o complicar, \u00e9 tentar dormir o sono dos justos, diminuir a autocensura, ouvir hist\u00f3rias, rir de qualquer coisa, meter a m\u00e3o em tinta fresca, embevecer-se, n\u00e3o levar a vida muita a s\u00e9rio, acreditar em sonhos e n\u00e3o ter medo de bicho pap\u00e3o. Estar crian\u00e7a \u00e9 muito mais que isso. Parece ser um processo individual de resgate, como se fora uma forma proustiana de desencavar por\u00f5es para retirar apenas e nada mais que brinquedos, mesmo que simples.<br \/>\nComo diria Bernardo Soares, um dos heter\u00f4nimos de Fernando Pessoa: \u201cSim, julgo, \u00e0s vezes, considerando a diferen\u00e7a hedionda entre a intelig\u00eancia das crian\u00e7as e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na inf\u00e2ncia por um esp\u00edrito da guarda, que nos empresta a pr\u00f3pria intelig\u00eancia astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as m\u00e3es animais \u00e0s crias crescidas, ao cevado que \u00e9 o nosso destino\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 15\/10\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quinta-feira foi o Dia das Crian\u00e7as. \u00c9 claro que a m\u00eddia tem interesse em fomentar os dias disso e daquilo. Mas, n\u00f3s tamb\u00e9m vivemos de s\u00edmbolos, arqu\u00e9tipos, lembran\u00e7as, \u00edcones, motiva\u00e7\u00f5es e sonhos. Sonhemos, ent\u00e3o em estar crian\u00e7a.<br \/>\nOs que j\u00e1 passaram h\u00e1 muito do tempo de ser crian\u00e7a poderiam aproveitar seus imagin\u00e1rios para revisitar as crian\u00e7as que foram. Poderiam ver o \u201cmaking off\u201d de suas inf\u00e2ncias, analisar com olho adulto e serem mais indulgentes com os pais e irm\u00e3os. Olhar de onde vieram seus pais, quais eram os seus valores, as suas forma\u00e7\u00f5es e as lutas que travaram para ocupar seus lugares neste t\u00e3o vasto mundo. \u00c9 preciso, repito, ver o passado com olhar indulgente, sem a lente zoom que particulariza e aumenta os defeitos. Os nossos pais talvez sejam como n\u00f3s, mas no tempo deles.<br \/>\nDe um tempo para c\u00e1, especialmente nestes cem anos freudianos, os pais passaram a responder por muitos dos nossos erros, das nossas frustra\u00e7\u00f5es, dos desencontros existenciais e por ai vai. Os pais foram ficando na berlinda com os estudos edipianos e as vis\u00f5es de Electra. De princ\u00edpio, todos os pais eram castradores, cerceadores de nossos desejos, balizadores de nossas condutas e indutores dos nossos destinos. Depois, veio o contraponto. Deixaram de proibir. Liberaram geral e s\u00e3o culpados por omiss\u00e3o, dos mimos em excesso ou pela falta de tempo para os di\u00e1logos necess\u00e1rios entre pais e filhos.<br \/>\nC\u00e1 entre n\u00f3s, na minha revisita pessoal, me vejo cercado de irm\u00e3os com idades parecidas e gostos d\u00edspares, na grande mesa da sala de jantar com uma jovem m\u00e3e dedicada, equilibrada e ciosa de suas responsabilidades. Um pai mantenedor e coadjuvante no processo de tentar transformar aquela \u201cmiu\u00e7aia\u201d de gente. Sendo o mais velho, precisava ser exemplo e, na verdade, n\u00e3o sabia ser nada, era massa em forma\u00e7\u00e3o em meio a um mundo que se encantava com a televis\u00e3o, a libera\u00e7\u00e3o feminina, a p\u00edlula anticoncepcional, a milit\u00e2ncia estudantil, a magia dos livros, os enlevos dos filmes e a obriga\u00e7\u00e3o de estudar o que muitos professores mandavam e eu j\u00e1 intu\u00eda que pouco valeria na vida real. Foi assim comigo, n\u00e3o deve ter sido muito diferente para voc\u00eas, humanos e contempor\u00e2neos que somos.<br \/>\nMas falava de estar crian\u00e7a. Estar crian\u00e7a \u00e9 n\u00e3o complicar, \u00e9 tentar dormir o sono dos justos, diminuir a autocensura, ouvir hist\u00f3rias, rir de qualquer coisa, meter a m\u00e3o em tinta fresca, embevecer-se, n\u00e3o levar a vida muita a s\u00e9rio, acreditar em sonhos e n\u00e3o ter medo de bicho pap\u00e3o. Estar crian\u00e7a \u00e9 muito mais que isso. Parece ser um processo individual de resgate, como se fora uma forma proustiana de desencavar por\u00f5es para retirar apenas e nada mais que brinquedos, mesmo que simples.<br \/>\nComo diria Bernardo Soares, um dos heter\u00f4nimos de Fernando Pessoa: \u201cSim, julgo, \u00e0s vezes, considerando a diferen\u00e7a hedionda entre a intelig\u00eancia das crian\u00e7as e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na inf\u00e2ncia por um esp\u00edrito da guarda, que nos empresta a pr\u00f3pria intelig\u00eancia astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as m\u00e3es animais \u00e0s crias crescidas, ao cevado que \u00e9 o nosso destino\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 15\/10\/2000.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3835","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3835","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3835"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3835\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3835"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3835"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}