{"id":3840,"date":"2023-12-21T09:10:55","date_gmt":"2023-12-21T12:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/duas-estorias\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:55","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:55","slug":"duas-estorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/duas-estorias\/","title":{"rendered":"DUAS ESTORIAS"},"content":{"rendered":"<p>Est\u00f3ria um: Ao atravessar a avenida, ela foi abordada por dois homens que lhe disseram imediatamente: abra a bolsa. Ela, sem nenhum sinal de medo, abriu a bolsa e um deles meteu a m\u00e3o. Viu o cart\u00e3o de retirada de dinheiro no caixa autom\u00e1tico de um banco.<br \/>\nChamou um t\u00e1xi e l\u00e1 se foram os tr\u00eas ao banco, onde ela entrou sem que nenhum guarda visse que estava cercada de dois marginais. Colocou o cart\u00e3o, digitou a senha e retirou R$ 2.000,00. Os bandidos receberam o dinheiro e a colocaram em um novo t\u00e1xi. Ela chegou em casa e, incontinenti, resolveu voltar ao banco, pois ainda tinha R$ 900,00 e os marginais sabiam de sua senha. Retirou o saldo, trocou a senha e voltou, calmamente, para casa.<br \/>\nSomente ap\u00f3s nove meses, relatou o fato aos filhos, pois, certamente, iriam proibi-la de andar sozinha pela cidade. Contou rindo, como se fora uma aventura pela qual pagou um ingresso de R$ 2.000,00. Os poucos filhos que souberam, olharam-na desconfiados e disseram o de sempre: \u201cM\u00e3e, a senhora n\u00e3o tem jeito\u201d. A m\u00e3e, sem jeito, criou todos eles e, mesmo ap\u00f3s vi\u00fava, continua no albor da sua octogeneidade estudando m\u00fasica, lendo jornais e, de leve, palpitando sobre a vida de cada um.<br \/>\nEst\u00f3ria dois: Chegaram dois caminh\u00f5es com quinze homens encapuzados e renderam todos os empregados. Colocaram-nos em um dep\u00f3sito e ficaram esperando que os donos da fazenda chegassem. Era uma sexta-feira. Data marcada para toda a fam\u00edlia deslocar-se \u00e0 fazenda, fazer as contas com os moradores, e,naturalmente, descansar.<br \/>\nJ\u00e1 era meia-noite e os donos n\u00e3o chegavam. O chefe dos encapuzados dizia que estava louco para matar os donos da fazenda e que a demora era injustific\u00e1vel. Ocorre que um dos filhos dos donos da fazenda foi acometido de um grave problema de sa\u00fade justo ao cair da tarde da dita sexta-feira. Ao inv\u00e9s de irem \u00e0 fazenda, tiveram que cuidar do filho enfermo. E os encapuzados, na manh\u00e3 de s\u00e1bado, roubaram alguns pertences, um trator e se foram deixando um recado: voltariam.<br \/>\nEstas duas est\u00f3rias, ainda bem que, com finais felizes, s\u00e3o o retrato deste nosso Brasil inseguro, onde ningu\u00e9m sabe mais o que fazer, pois os bandidos usam fardas para assaltar, as pol\u00edcias se dizem desequipadas e sem pessoal suficiente e ningu\u00e9m toma uma provid\u00eancia mais s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/11\/2000.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00f3ria um: Ao atravessar a avenida, ela foi abordada por dois homens que lhe disseram imediatamente: abra a bolsa. Ela, sem nenhum sinal de medo, abriu a bolsa e um deles meteu a m\u00e3o. Viu o cart\u00e3o de retirada de dinheiro no caixa autom\u00e1tico de um banco.<br \/>\nChamou um t\u00e1xi e l\u00e1 se foram os tr\u00eas ao banco, onde ela entrou sem que nenhum guarda visse que estava cercada de dois marginais. Colocou o cart\u00e3o, digitou a senha e retirou R$ 2.000,00. Os bandidos receberam o dinheiro e a colocaram em um novo t\u00e1xi. Ela chegou em casa e, incontinenti, resolveu voltar ao banco, pois ainda tinha R$ 900,00 e os marginais sabiam de sua senha. Retirou o saldo, trocou a senha e voltou, calmamente, para casa.<br \/>\nSomente ap\u00f3s nove meses, relatou o fato aos filhos, pois, certamente, iriam proibi-la de andar sozinha pela cidade. Contou rindo, como se fora uma aventura pela qual pagou um ingresso de R$ 2.000,00. Os poucos filhos que souberam, olharam-na desconfiados e disseram o de sempre: \u201cM\u00e3e, a senhora n\u00e3o tem jeito\u201d. A m\u00e3e, sem jeito, criou todos eles e, mesmo ap\u00f3s vi\u00fava, continua no albor da sua octogeneidade estudando m\u00fasica, lendo jornais e, de leve, palpitando sobre a vida de cada um.<br \/>\nEst\u00f3ria dois: Chegaram dois caminh\u00f5es com quinze homens encapuzados e renderam todos os empregados. Colocaram-nos em um dep\u00f3sito e ficaram esperando que os donos da fazenda chegassem. Era uma sexta-feira. Data marcada para toda a fam\u00edlia deslocar-se \u00e0 fazenda, fazer as contas com os moradores, e,naturalmente, descansar.<br \/>\nJ\u00e1 era meia-noite e os donos n\u00e3o chegavam. O chefe dos encapuzados dizia que estava louco para matar os donos da fazenda e que a demora era injustific\u00e1vel. Ocorre que um dos filhos dos donos da fazenda foi acometido de um grave problema de sa\u00fade justo ao cair da tarde da dita sexta-feira. Ao inv\u00e9s de irem \u00e0 fazenda, tiveram que cuidar do filho enfermo. E os encapuzados, na manh\u00e3 de s\u00e1bado, roubaram alguns pertences, um trator e se foram deixando um recado: voltariam.<br \/>\nEstas duas est\u00f3rias, ainda bem que, com finais felizes, s\u00e3o o retrato deste nosso Brasil inseguro, onde ningu\u00e9m sabe mais o que fazer, pois os bandidos usam fardas para assaltar, as pol\u00edcias se dizem desequipadas e sem pessoal suficiente e ningu\u00e9m toma uma provid\u00eancia mais s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/11\/2000.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3840","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3840"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3840\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}