{"id":3852,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mulheres-e-homens-50-anos\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"mulheres-e-homens-50-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mulheres-e-homens-50-anos\/","title":{"rendered":"MULHERES E HOMENS, 50 ANOS"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o s\u00f3 as mulheres, mas tamb\u00e9m os homens foram obrigados a tomar conhecimento da exist\u00eancia de uma escritora chamada Simone de Beauvoir. Em 1949, um ano importante para as mulheres, nascia o livro \u201cSegundo Sexo\u201d, obra que marcava uma mudan\u00e7a de comportamento entre pessoas que tinham, at\u00e9 aquela data, uma vida de submiss\u00e3o.<br \/>\nO jornalista Marcelo Rezende, diretamente de Paris, cobriu para o suplemento (GZM) \u201cLeitura Fim de Semana\u201d, de 31 de janeiro passado, um congresso de feministas que resolveram rediscutir a obra de Simone de Beauvoir. Mulheres de todos os lugares, especialmente francesas, tentaram esclarecer um pouco mais a vida e a obra dessa charmosa e bonita De Beauvoir que, j\u00e1 aos 17 anos, se dedicava \u00e0 literatura e \u00e0 matem\u00e1tica. Da\u00ed para o socialismo foi um pulo. Em 1929, aos 21 anos de idade, conhece Jean-Paul Sartre que foi seu companheiro at\u00e9 1986, quando morreu.<br \/>\nDizem que o livro \u201cO segundo sexo\u201d surgiu de uma pergunta de Sartre para Simone: \u201cO que \u00e9 uma mulher?\u201d Sua resposta foi o \u201cLe deuxi\u00e8me sexe\u201d. A frase mais batida do livro \u00e9: \u201cN\u00e3o nascemos mulher; nos tornamos\u201d. Segundo M. Rezende, em sua an\u00e1lise: \u201cUma mulher n\u00e3o \u00e9 \u2018naturalmente\u2019 nada. Ela pode tornar-se o que desejar. N\u00e3o h\u00e1 lei, regras biol\u00f3gicas, \u2018estado natural das coisas\u2019 determinando o \u2018estar no mundo\u2019 feminino. N\u00e3o existem diferen\u00e7as qualitativas. N\u00e3o existe um jogo de superioridade e inferioridade\u201d.<br \/>\n\u00c9 a partir dessa constata\u00e7\u00e3o que o homem, acostumado h\u00e1 mil\u00eanios a ser o senhor, o provedor, o predador e o protetor, come\u00e7a a ficar incomodado e n\u00e3o consegue reagir bem. Problema cultural? Problema biol\u00f3gico? S\u00f3 para se ter uma ideia o escritor franc\u00eas Albert Camus disse ser a obra de Simone \u201cuma ofensa ao macho franc\u00eas\u201d.<br \/>\nComo se v\u00ea, partiu da pr\u00f3pria p\u00e1tria civilizada de Simone o primeiro grito de revolta masculina contra a libera\u00e7\u00e3o das mulheres. Por qu\u00ea isso? Certamente porque as mulheres n\u00e3o pediram licen\u00e7a e foram construindo as suas vidas novas, crescendo em conflitos com os homens, mas transformando esta segunda metade do S\u00e9culo XX num ambiente em que foram tornadas p\u00fablicas as revoltas das mulheres contra a domina\u00e7\u00e3o masculina.<br \/>\nTalvez cinquenta anos, dentro do contexto geral da hist\u00f3ria, seja muito pouco tempo para que surja uma rela\u00e7\u00e3o amadurecida entre homens que traziam ao nascer a \u201ccerteza de mandar\u201d e mulheres que pensavam em compartilhar, mas n\u00e3o sabiam como faz\u00ea-lo ainda. Era preciso chocar, impor e a\u00ed vieram os conflitos, as separa\u00e7\u00f5es e desencontros.<br \/>\nO crescimento das mulheres nos diversos campos sociais pode ser o cond\u00e3o para reatar os elos ainda t\u00e3o frouxos entre mulheres que exigem direitos e parceira e homens acostumados a impor deveres e decis\u00f5es.<br \/>\nAs gera\u00e7\u00f5es que viveram sua adolesc\u00eancia na primeira segunda metade deste fim de s\u00e9culo receberam uma carga muito forte de transforma\u00e7\u00f5es, n\u00e3o souberam costurar, via de regra, uma rela\u00e7\u00e3o nova, amadurecida, provavelmente por causa da luta pela sobreviv\u00eancia e da falta de conhecimentos psicol\u00f3gicos, sociol\u00f3gicos e culturais para tratar do que surgia de forma t\u00e3o abrupta.<br \/>\nO que nos consola \u00e9 que as novas gera\u00e7\u00f5es, nascidas j\u00e1 na segunda metade deste finzinho de s\u00e9culo, possam ter absorvido essa revolu\u00e7\u00e3o no relacionamento mulher e homem. Por outro lado, contraditoriamente, h\u00e1 uma revis\u00e3o do feminismo, feita \u201cpost-mortem\u201d pela pr\u00f3pria Simone. Descobertas h\u00e1 tr\u00eas anos, foram editadas cartas de Simone em que ela revela sua paix\u00e3o pelo escritor americano Nelson Agren. Eis um trecho: \u201cEu lavarei o ch\u00e3o para voc\u00ea; eu cozinharei para voc\u00ea. Eu perten\u00e7o a voc\u00ea, e assim \u00e9 o meu amor\u201d. Essas revela\u00e7\u00f5es n\u00e3o diminuem as conquistas do feminismo, pelo contr\u00e1rio mostram que n\u00f3s, homens e mulheres precisamos sempre reaprender a viver, admitindo nossos desejos, fraquezas, esquecendo velhas regras e preconceitos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 07\/02\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o s\u00f3 as mulheres, mas tamb\u00e9m os homens foram obrigados a tomar conhecimento da exist\u00eancia de uma escritora chamada Simone de Beauvoir. 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Em 1929, aos 21 anos de idade, conhece Jean-Paul Sartre que foi seu companheiro at\u00e9 1986, quando morreu.<br \/>\nDizem que o livro \u201cO segundo sexo\u201d surgiu de uma pergunta de Sartre para Simone: \u201cO que \u00e9 uma mulher?\u201d Sua resposta foi o \u201cLe deuxi\u00e8me sexe\u201d. A frase mais batida do livro \u00e9: \u201cN\u00e3o nascemos mulher; nos tornamos\u201d. Segundo M. Rezende, em sua an\u00e1lise: \u201cUma mulher n\u00e3o \u00e9 \u2018naturalmente\u2019 nada. Ela pode tornar-se o que desejar. N\u00e3o h\u00e1 lei, regras biol\u00f3gicas, \u2018estado natural das coisas\u2019 determinando o \u2018estar no mundo\u2019 feminino. N\u00e3o existem diferen\u00e7as qualitativas. N\u00e3o existe um jogo de superioridade e inferioridade\u201d.<br \/>\n\u00c9 a partir dessa constata\u00e7\u00e3o que o homem, acostumado h\u00e1 mil\u00eanios a ser o senhor, o provedor, o predador e o protetor, come\u00e7a a ficar incomodado e n\u00e3o consegue reagir bem. Problema cultural? Problema biol\u00f3gico? S\u00f3 para se ter uma ideia o escritor franc\u00eas Albert Camus disse ser a obra de Simone \u201cuma ofensa ao macho franc\u00eas\u201d.<br \/>\nComo se v\u00ea, partiu da pr\u00f3pria p\u00e1tria civilizada de Simone o primeiro grito de revolta masculina contra a libera\u00e7\u00e3o das mulheres. Por qu\u00ea isso? Certamente porque as mulheres n\u00e3o pediram licen\u00e7a e foram construindo as suas vidas novas, crescendo em conflitos com os homens, mas transformando esta segunda metade do S\u00e9culo XX num ambiente em que foram tornadas p\u00fablicas as revoltas das mulheres contra a domina\u00e7\u00e3o masculina.<br \/>\nTalvez cinquenta anos, dentro do contexto geral da hist\u00f3ria, seja muito pouco tempo para que surja uma rela\u00e7\u00e3o amadurecida entre homens que traziam ao nascer a \u201ccerteza de mandar\u201d e mulheres que pensavam em compartilhar, mas n\u00e3o sabiam como faz\u00ea-lo ainda. Era preciso chocar, impor e a\u00ed vieram os conflitos, as separa\u00e7\u00f5es e desencontros.<br \/>\nO crescimento das mulheres nos diversos campos sociais pode ser o cond\u00e3o para reatar os elos ainda t\u00e3o frouxos entre mulheres que exigem direitos e parceira e homens acostumados a impor deveres e decis\u00f5es.<br \/>\nAs gera\u00e7\u00f5es que viveram sua adolesc\u00eancia na primeira segunda metade deste fim de s\u00e9culo receberam uma carga muito forte de transforma\u00e7\u00f5es, n\u00e3o souberam costurar, via de regra, uma rela\u00e7\u00e3o nova, amadurecida, provavelmente por causa da luta pela sobreviv\u00eancia e da falta de conhecimentos psicol\u00f3gicos, sociol\u00f3gicos e culturais para tratar do que surgia de forma t\u00e3o abrupta.<br \/>\nO que nos consola \u00e9 que as novas gera\u00e7\u00f5es, nascidas j\u00e1 na segunda metade deste finzinho de s\u00e9culo, possam ter absorvido essa revolu\u00e7\u00e3o no relacionamento mulher e homem. Por outro lado, contraditoriamente, h\u00e1 uma revis\u00e3o do feminismo, feita \u201cpost-mortem\u201d pela pr\u00f3pria Simone. Descobertas h\u00e1 tr\u00eas anos, foram editadas cartas de Simone em que ela revela sua paix\u00e3o pelo escritor americano Nelson Agren. Eis um trecho: \u201cEu lavarei o ch\u00e3o para voc\u00ea; eu cozinharei para voc\u00ea. Eu perten\u00e7o a voc\u00ea, e assim \u00e9 o meu amor\u201d. 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