{"id":3855,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/eu-filho-eu-pai-eu-filho\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"eu-filho-eu-pai-eu-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/eu-filho-eu-pai-eu-filho\/","title":{"rendered":"EU, FILHO. EU, PAI. EU, FILHO"},"content":{"rendered":"<p>Todos n\u00f3s, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a n\u00e3o ser mais daquela forma, as tintas tomam tons mais amenos e a acidez das cr\u00edticas perdem as peremptoriedades (\u201cTodo esse discurso n\u00e3o me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, perempt\u00f3rio&#8230;\u201c, M.Assis, Dom Casmurro, p\u00e1g 75).<br \/>\nEstou em fase muito brasileira de leitura. Pode ser um espasmo contra essa globaliza\u00e7\u00e3o, quem sabe. O fato \u00e9 que ando relendo e lendo autores brasileiros. Uns dias desses me peguei relendo Machado de Assis (Dom Casmurro). Que beleza. Outro fim de semana e l\u00e1 fui eu descobrir o Zuenir Ventura (voc\u00eas que ainda n\u00e3o leram \u201cMal Secreto \u2013Inveja?\u201d, cuidem de faz\u00ea-lo) de quem fiquei admirador e amigo; depois veio o Luiz Fernando Ver\u00edssimo, com quem penso ter intimidade, pelo longo trajeto nas deliciosas p\u00e1ginas de seu pai, \u00c9rico Ver\u00edssimo.<br \/>\nA prop\u00f3sito de Luiz Fernando Ver\u00edssimo, fa\u00e7o de conta que n\u00e3o li \u201cA Gula\u201d. Esse livrinho magro (130 p\u00e1ginas), com muitos ingredientes, uma pitada de erudi\u00e7\u00e3o enol\u00f3gica, personagens fracos e envenenamentos de segunda classe que fariam a Agatha Christie torcer o nariz. Resultado: d\u00e1 fastio. Gula, nunca.<br \/>\nMas o que vale, no caso de hoje, nestas leituras brasileiras, come\u00e7a com o meu t\u00edtulo: \u201cEu, filho. Eu, pai. Eu, filho\u201d. Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as rela\u00e7\u00f5es com o seu pai, jornalista que quase deu certo, j\u00e1 morto. E o faz com olhos de um homem maduro, j\u00e1 setent\u00e3o, o que lhe permite sempre dourar a p\u00edlula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupa\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o dos filhos, o microcosmo de seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore.<br \/>\nCony usa em seu livro \u201cQuase mem\u00f3ria, quase-romance\u201d um recurso interessante: um pacote misterioso que recebe de seu pai, por um portador, dez anos ap\u00f3s sua morte. E esse pacote vai sendo uma esp\u00e9cie de fio condutor (seria o barbante que o envolvia?) que, ao final da hist\u00f3ria, j\u00e1 n\u00e3o tem tanto sentido conhecer o seu conte\u00fado. Tudo est\u00e1 exposto, com ou sem fraturas.<br \/>\nAl\u00e9m do quase-romance, h\u00e1 muitas leituras nas entrelinhas de \u201cQuase Mem\u00f3ria\u201d. As tr\u00eas fases da rela\u00e7\u00e3o pai e filho. Pai e filho na inf\u00e2ncia deste; as rela\u00e7\u00f5es filho e pai na maturidade daquele; e a (in)depend\u00eancia do pai ao filho \u00e0s v\u00e9speras da morte. Desprovido de pompas e pleno de ess\u00eancia, \u201cQuase Mem\u00f3ria\u201d \u00e9 um \u201crevival\u201d a que todos estamos sujeitos a fazer, absorvendo fatos e absolvendo pessoas.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 28\/02\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos n\u00f3s, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a n\u00e3o ser mais daquela forma, as tintas tomam tons mais amenos e a acidez das cr\u00edticas perdem as peremptoriedades (\u201cTodo esse discurso n\u00e3o me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, perempt\u00f3rio&#8230;\u201c, M.Assis, Dom Casmurro, p\u00e1g 75).<br \/>\nEstou em fase muito brasileira de leitura. Pode ser um espasmo contra essa globaliza\u00e7\u00e3o, quem sabe. O fato \u00e9 que ando relendo e lendo autores brasileiros. Uns dias desses me peguei relendo Machado de Assis (Dom Casmurro). Que beleza. Outro fim de semana e l\u00e1 fui eu descobrir o Zuenir Ventura (voc\u00eas que ainda n\u00e3o leram \u201cMal Secreto \u2013Inveja?\u201d, cuidem de faz\u00ea-lo) de quem fiquei admirador e amigo; depois veio o Luiz Fernando Ver\u00edssimo, com quem penso ter intimidade, pelo longo trajeto nas deliciosas p\u00e1ginas de seu pai, \u00c9rico Ver\u00edssimo.<br \/>\nA prop\u00f3sito de Luiz Fernando Ver\u00edssimo, fa\u00e7o de conta que n\u00e3o li \u201cA Gula\u201d. Esse livrinho magro (130 p\u00e1ginas), com muitos ingredientes, uma pitada de erudi\u00e7\u00e3o enol\u00f3gica, personagens fracos e envenenamentos de segunda classe que fariam a Agatha Christie torcer o nariz. Resultado: d\u00e1 fastio. Gula, nunca.<br \/>\nMas o que vale, no caso de hoje, nestas leituras brasileiras, come\u00e7a com o meu t\u00edtulo: \u201cEu, filho. Eu, pai. Eu, filho\u201d. Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as rela\u00e7\u00f5es com o seu pai, jornalista que quase deu certo, j\u00e1 morto. E o faz com olhos de um homem maduro, j\u00e1 setent\u00e3o, o que lhe permite sempre dourar a p\u00edlula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupa\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o dos filhos, o microcosmo de seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore.<br \/>\nCony usa em seu livro \u201cQuase mem\u00f3ria, quase-romance\u201d um recurso interessante: um pacote misterioso que recebe de seu pai, por um portador, dez anos ap\u00f3s sua morte. E esse pacote vai sendo uma esp\u00e9cie de fio condutor (seria o barbante que o envolvia?) que, ao final da hist\u00f3ria, j\u00e1 n\u00e3o tem tanto sentido conhecer o seu conte\u00fado. 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