{"id":3857,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-ato-de-ler\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"o-ato-de-ler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-ato-de-ler\/","title":{"rendered":"O ATO DE LER"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias, participava eu de uma reuni\u00e3o com amigos inteligentes e instigantes, quando surgiu uma suave e agrad\u00e1vel discuss\u00e3o sobre livros. Em meio a v\u00e1rios autores e livros citados eclodiu o nome de Carlos Heitor Cony e, consequentemente, o de um livro que, por sinal, ensejou o mote para o artigo da semana passada.<br \/>\nA discuss\u00e3o girava em torno do nome do livro. Enquanto eu sustentava que o livro se chamava \u201cQuase Mem\u00f3ria \u2013 Quase Romance\u201d, um outro amigo afirmava, de forma veemente, que o t\u00edtulo era apenas \u201cQuase Mem\u00f3ria\u201d e alegava, em refor\u00e7o de sua opini\u00e3o, j\u00e1 ter comprado \u2013 e dado de presente &#8211; mais de 20 exemplares do citado livro.<br \/>\nComo o livro n\u00e3o estava \u00e0 m\u00e3o, as discuss\u00f5es foram ficando acaloradas e liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas completadas para livrarias locais. Em todas, a resposta foi contra mim. Pedia-se que lesse a capa e eles, os atendentes das livrarias, diziam: \u201cCarlos Heitor Cony, Quase Mem\u00f3ria\u201d. At\u00e9 a minha secretaria do lar, consultada ao telefone, deu a mesma resposta. Apostamos, de forma simb\u00f3lica, eu e o amigo, cinco reais cada. Pedimos a outro amigo para servir de juiz. Diplomaticamente, o amigo nos devolveu o dinheiro dizendo que n\u00e3o se tinha chegado a uma conclus\u00e3o. Na verdade, todos pensavam que eu estava errado. O pior era que eu tinha a convic\u00e7\u00e3o de que estava certo.<br \/>\nLiguei novamente para minha casa e pedi que deixassem o livro na portaria. Acompanhado de um amigo, por sinal, um magistrado, passei e recolhi o livro. Estava l\u00e1 na capa: \u201cCarlos Heitor Cony, Quase Mem\u00f3ria, Quase Romance\u201d. O problema estava desvendado e o meu amigo conselheiro, prudente e conciliador, dizia que o fato das duas palavras \u201cQuase \u2013 Romance\u201d terem sido escritas em um tipo menor dava a id\u00e9ia de um subt\u00edtulo. L\u00eado engano. Fomos para a ficha de cataloga\u00e7\u00e3o e ficou claro, mais uma vez, que o nome do livro era o que eu dizia. N\u00e3o s\u00e3o a tipia, a escolha e o tamanho da letra, que determinam o t\u00edtulo de qualquer obra liter\u00e1ria.<br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o de Cony era exatamente a de ter um t\u00edtulo duplo, usando tamanhos diferentes de letras em uma mesma capa. Coisa t\u00e3o simples, captada pela bibliotec\u00e1ria que fez a ficha de cataloga\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista da sem\u00e2ntica, Cony obedeceu \u00e0 regra de empregar a letra inicial mai\u00fascula, como bem diz o professor de Portugu\u00eas, Jos\u00e9 Myrson Melo Lima: \u201cEmprega-se a letra inicial mai\u00fascula, entre outros casos, nos nomes de t\u00edtulos de livros\u201d.<br \/>\nAs bibliotec\u00e1rias, por of\u00edcio, s\u00e3o obrigadas a saber ler, para registrar, pelo m\u00e9todo de cataloga\u00e7\u00e3o escolhido, as caracter\u00edsticas do livro ou a sua ficha t\u00e9cnica. \u201cQuase-romance\u201d n\u00e3o \u00e9 g\u00eanero liter\u00e1rio. Foi um recurso usado pelo autor para misturar, sem pedir desculpas, a fic\u00e7\u00e3o e a n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. O g\u00eanero liter\u00e1rio \u00e9 romance brasileiro.<br \/>\nTudo isso por causa de uma discuss\u00e3o pueril, \u00e0 moda dos saraus liter\u00e1rios de antigamente. Ler, para mim \u00e9 um ato muito importante. Aprendi, desde cedo, a ter esse h\u00e1bito que, com o passar do tempo, tornou-se quase um v\u00edcio di\u00e1rio sempre crescente E quem ler por prazer e v\u00edcio \u00e9 cioso do que faz. Ler n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 perpassar os olhos sobre um texto, \u00e9 fixar o seu conte\u00fado, \u00e9 entender as linhas e as entrelinhas.<br \/>\nSegundo a enciclop\u00e9dia Delta Larrouse ler, entre outras coisas, \u00e9 \u201cTomar ou dar conhecimento do conte\u00fado de um escrito; penetrar algo n\u00e3o manifesto\u201d.Dessa forma, ler \u00e9 um ato solit\u00e1rio, quase sempre, em que se precisa tomar conhecimento. O conhecimento \u00e9 mais que um simples passar de olhos por uma p\u00e1gina. \u00c9 observar, captar e registrar. Como diria Bertrand Russel: \u201cO conhecimento pode ser comunicado e ensinado, mas n\u00e3o a sabedoria\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 14\/03\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias, participava eu de uma reuni\u00e3o com amigos inteligentes e instigantes, quando surgiu uma suave e agrad\u00e1vel discuss\u00e3o sobre livros. Em meio a v\u00e1rios autores e livros citados eclodiu o nome de Carlos Heitor Cony e, consequentemente, o de um livro que, por sinal, ensejou o mote para o artigo da semana passada.<br \/>\nA discuss\u00e3o girava em torno do nome do livro. Enquanto eu sustentava que o livro se chamava \u201cQuase Mem\u00f3ria \u2013 Quase Romance\u201d, um outro amigo afirmava, de forma veemente, que o t\u00edtulo era apenas \u201cQuase Mem\u00f3ria\u201d e alegava, em refor\u00e7o de sua opini\u00e3o, j\u00e1 ter comprado \u2013 e dado de presente &#8211; mais de 20 exemplares do citado livro.<br \/>\nComo o livro n\u00e3o estava \u00e0 m\u00e3o, as discuss\u00f5es foram ficando acaloradas e liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas completadas para livrarias locais. Em todas, a resposta foi contra mim. Pedia-se que lesse a capa e eles, os atendentes das livrarias, diziam: \u201cCarlos Heitor Cony, Quase Mem\u00f3ria\u201d. At\u00e9 a minha secretaria do lar, consultada ao telefone, deu a mesma resposta. Apostamos, de forma simb\u00f3lica, eu e o amigo, cinco reais cada. Pedimos a outro amigo para servir de juiz. Diplomaticamente, o amigo nos devolveu o dinheiro dizendo que n\u00e3o se tinha chegado a uma conclus\u00e3o. Na verdade, todos pensavam que eu estava errado. O pior era que eu tinha a convic\u00e7\u00e3o de que estava certo.<br \/>\nLiguei novamente para minha casa e pedi que deixassem o livro na portaria. Acompanhado de um amigo, por sinal, um magistrado, passei e recolhi o livro. Estava l\u00e1 na capa: \u201cCarlos Heitor Cony, Quase Mem\u00f3ria, Quase Romance\u201d. O problema estava desvendado e o meu amigo conselheiro, prudente e conciliador, dizia que o fato das duas palavras \u201cQuase \u2013 Romance\u201d terem sido escritas em um tipo menor dava a id\u00e9ia de um subt\u00edtulo. L\u00eado engano. Fomos para a ficha de cataloga\u00e7\u00e3o e ficou claro, mais uma vez, que o nome do livro era o que eu dizia. N\u00e3o s\u00e3o a tipia, a escolha e o tamanho da letra, que determinam o t\u00edtulo de qualquer obra liter\u00e1ria.<br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o de Cony era exatamente a de ter um t\u00edtulo duplo, usando tamanhos diferentes de letras em uma mesma capa. Coisa t\u00e3o simples, captada pela bibliotec\u00e1ria que fez a ficha de cataloga\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista da sem\u00e2ntica, Cony obedeceu \u00e0 regra de empregar a letra inicial mai\u00fascula, como bem diz o professor de Portugu\u00eas, Jos\u00e9 Myrson Melo Lima: \u201cEmprega-se a letra inicial mai\u00fascula, entre outros casos, nos nomes de t\u00edtulos de livros\u201d.<br \/>\nAs bibliotec\u00e1rias, por of\u00edcio, s\u00e3o obrigadas a saber ler, para registrar, pelo m\u00e9todo de cataloga\u00e7\u00e3o escolhido, as caracter\u00edsticas do livro ou a sua ficha t\u00e9cnica. \u201cQuase-romance\u201d n\u00e3o \u00e9 g\u00eanero liter\u00e1rio. Foi um recurso usado pelo autor para misturar, sem pedir desculpas, a fic\u00e7\u00e3o e a n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. O g\u00eanero liter\u00e1rio \u00e9 romance brasileiro.<br \/>\nTudo isso por causa de uma discuss\u00e3o pueril, \u00e0 moda dos saraus liter\u00e1rios de antigamente. Ler, para mim \u00e9 um ato muito importante. Aprendi, desde cedo, a ter esse h\u00e1bito que, com o passar do tempo, tornou-se quase um v\u00edcio di\u00e1rio sempre crescente E quem ler por prazer e v\u00edcio \u00e9 cioso do que faz. Ler n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 perpassar os olhos sobre um texto, \u00e9 fixar o seu conte\u00fado, \u00e9 entender as linhas e as entrelinhas.<br \/>\nSegundo a enciclop\u00e9dia Delta Larrouse ler, entre outras coisas, \u00e9 \u201cTomar ou dar conhecimento do conte\u00fado de um escrito; penetrar algo n\u00e3o manifesto\u201d.Dessa forma, ler \u00e9 um ato solit\u00e1rio, quase sempre, em que se precisa tomar conhecimento. O conhecimento \u00e9 mais que um simples passar de olhos por uma p\u00e1gina. \u00c9 observar, captar e registrar. Como diria Bertrand Russel: \u201cO conhecimento pode ser comunicado e ensinado, mas n\u00e3o a sabedoria\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 14\/03\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3857","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3857","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3857"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3857\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3857"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3857"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3857"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}