{"id":3859,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-estetica-da-pobreza\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"a-estetica-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-estetica-da-pobreza\/","title":{"rendered":"A EST\u00c9TICA DA POBREZA"},"content":{"rendered":"<p>Com todo respeito aos partidos de esquerda do Brasil, mas, um rapaz rico e inteligente, Walter Salles, pode ter denunciado igualmente, com tanta veem\u00eancia, a crua pobreza e a viol\u00eancia brasileiras a milhares de pessoas no exterior. Ele fez tal qual ou melhor que sindicalistas, vereadores, deputados e senadores.<br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o de Walter Salles talvez n\u00e3o fosse essa. Utilizaria a \u201cest\u00e9tica da pobreza\u201d para transform\u00e1-la em um filme realista &#8211; ou um drama, como se diz nos Estados Unidos &#8211; vencedor e candidato a mais pr\u00eamios, inclusive ao Oscar 99, em que uma hero\u00edna (Fernanda Montenegro) sem car\u00e1ter (uma macuna\u00edma de saias?) vai, pouco a pouco, procurando uma identidade perdida nos desv\u00e3os da vida. Certamente, o desempenho impec\u00e1vel de Vin\u00edcius de Oliveira (Josu\u00e9) faz crescer a atua\u00e7\u00e3o de Dora-Fernanda.<br \/>\nN\u00e3o creio que governantes fiquem alegres com o sucesso de filmes como \u201cCentral do Brasil\u201d. O filme \u00e9 tudo o que se nega nas propagandas oficiais. \u00c9 claro que se pode dizer que todo filme \u00e9 uma alegoria.<br \/>\n\u201cCentral do Brasil\u201d pode ser visto como um libelo e uma prova vis\u00edvel e ris\u00edvel da decad\u00eancia do Rio de Janeiro com seus superlotados trens de terceira categoria e da viol\u00eancia urbana (os grupos para-militares que executam pessoas a troco de nada), do desemprego e subemprego, das aposentadorias irris\u00f3rias que precisam de complementa\u00e7\u00e3o (Dora \u00e9 uma professora aposentada que ganha uns trocados escrevendo cartas para terceiros), do analfabetismo (\u201ca senhora escreve para mim?\u201d), das fam\u00edlias desgarradas pa\u00eds afora pela fome, do tr\u00e2nsito louco (o acidente que mata a m\u00e3e de Josu\u00e9) e do interior do nordeste com sua pobreza resignada, alimentada pela ignor\u00e2ncia, crendices ou uma religiosidade ultrapassada e canhestra.<br \/>\n\u201cCentral do Brasil\u201d, antes de ser um filme candidato a dois Oscars, \u00e9 tamb\u00e9m uma sequ\u00eancia de di\u00e1logos fortes e contundentes, uma \u201caquarela do Brasil\u201d que se arvora em ser a 8\u00aa economia do mundo apresentando indicadores de qualidade de vida t\u00edpicos de um pa\u00eds africano com uma aparta\u00e7\u00e3o social cruel que muitos desejam ver debaixo do tapete.<br \/>\nO tapete \u00e9 curto e nos coloca, com a velocidade de uma \u00e1gil c\u00e2mera bem posicionada, frente a frente com o que gostar\u00edamos de fazer de conta que n\u00e3o existe. Existe. Est\u00e1 em toda as partes deste imenso Brasil, t\u00e3o rico e, paradoxalmente, t\u00e3o miser\u00e1vel. N\u00e3o precisa procurar. Basta sair \u00e0s ruas de qualquer cidade.<br \/>\nA m\u00fasica de Jacques Morelenbaun \u00e9 uma esp\u00e9cie de a\u00e7oite aos nossos ouvidos moucos. Os vilarejos, os grandes vales e descampados da paisagem nordestina s\u00e3o uma constata\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia de qualquer tipo de pol\u00edtica fundi\u00e1ria que priorize o homem e o transforme em cidad\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o sei se \u201cCentral do Brasil\u201d ou Fernanda Montenegro ganhar\u00e3o um<br \/>\nou dois Oscars. Afinal, \u201ca vida \u00e9 bela\u201d, h\u00e1 \u201ccrian\u00e7as no para\u00edso\u201d, todos gostam do \u201co av\u00f4\u201d e \u201ctango\u201d nunca saiu da moda. Como diria Shakespeare, apaixonado ou n\u00e3o por \u201cElisabeth\u201d, \u201ch\u00e1 muito mais coisas entre o c\u00e9u e a terra&#8230;\u201d Torcer ou n\u00e3o, nada influir\u00e1 nos \u201clobbies\u201d e na cabe\u00e7a dos 5.500 votantes da Academia de Hollywood que podem ter outros padr\u00f5es culturais e est\u00e9ticos como refer\u00eancia.<br \/>\nO que todos os que dirigiram, produziram e atuaram em \u201cCentral do Brasil\u201d deveriam ganhar, independente da estatueta famosa que \u00e9 o maior aval para o sucesso financeiro de um filme, diretores e atores, seriam trof\u00e9us nordestinos feitos \u00e0 base de mandacaru que serviriam, pelo menos, para espica\u00e7ar as consci\u00eancias dos que tudo prometem e pouco fazem.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 21\/03\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com todo respeito aos partidos de esquerda do Brasil, mas, um rapaz rico e inteligente, Walter Salles, pode ter denunciado igualmente, com tanta veem\u00eancia, a crua pobreza e a viol\u00eancia brasileiras a milhares de pessoas no exterior. Ele fez tal qual ou melhor que sindicalistas, vereadores, deputados e senadores.<br \/>\nA inten\u00e7\u00e3o de Walter Salles talvez n\u00e3o fosse essa. Utilizaria a \u201cest\u00e9tica da pobreza\u201d para transform\u00e1-la em um filme realista &#8211; ou um drama, como se diz nos Estados Unidos &#8211; vencedor e candidato a mais pr\u00eamios, inclusive ao Oscar 99, em que uma hero\u00edna (Fernanda Montenegro) sem car\u00e1ter (uma macuna\u00edma de saias?) vai, pouco a pouco, procurando uma identidade perdida nos desv\u00e3os da vida. Certamente, o desempenho impec\u00e1vel de Vin\u00edcius de Oliveira (Josu\u00e9) faz crescer a atua\u00e7\u00e3o de Dora-Fernanda.<br \/>\nN\u00e3o creio que governantes fiquem alegres com o sucesso de filmes como \u201cCentral do Brasil\u201d. O filme \u00e9 tudo o que se nega nas propagandas oficiais. \u00c9 claro que se pode dizer que todo filme \u00e9 uma alegoria.<br \/>\n\u201cCentral do Brasil\u201d pode ser visto como um libelo e uma prova vis\u00edvel e ris\u00edvel da decad\u00eancia do Rio de Janeiro com seus superlotados trens de terceira categoria e da viol\u00eancia urbana (os grupos para-militares que executam pessoas a troco de nada), do desemprego e subemprego, das aposentadorias irris\u00f3rias que precisam de complementa\u00e7\u00e3o (Dora \u00e9 uma professora aposentada que ganha uns trocados escrevendo cartas para terceiros), do analfabetismo (\u201ca senhora escreve para mim?\u201d), das fam\u00edlias desgarradas pa\u00eds afora pela fome, do tr\u00e2nsito louco (o acidente que mata a m\u00e3e de Josu\u00e9) e do interior do nordeste com sua pobreza resignada, alimentada pela ignor\u00e2ncia, crendices ou uma religiosidade ultrapassada e canhestra.<br \/>\n\u201cCentral do Brasil\u201d, antes de ser um filme candidato a dois Oscars, \u00e9 tamb\u00e9m uma sequ\u00eancia de di\u00e1logos fortes e contundentes, uma \u201caquarela do Brasil\u201d que se arvora em ser a 8\u00aa economia do mundo apresentando indicadores de qualidade de vida t\u00edpicos de um pa\u00eds africano com uma aparta\u00e7\u00e3o social cruel que muitos desejam ver debaixo do tapete.<br \/>\nO tapete \u00e9 curto e nos coloca, com a velocidade de uma \u00e1gil c\u00e2mera bem posicionada, frente a frente com o que gostar\u00edamos de fazer de conta que n\u00e3o existe. Existe. Est\u00e1 em toda as partes deste imenso Brasil, t\u00e3o rico e, paradoxalmente, t\u00e3o miser\u00e1vel. N\u00e3o precisa procurar. Basta sair \u00e0s ruas de qualquer cidade.<br \/>\nA m\u00fasica de Jacques Morelenbaun \u00e9 uma esp\u00e9cie de a\u00e7oite aos nossos ouvidos moucos. Os vilarejos, os grandes vales e descampados da paisagem nordestina s\u00e3o uma constata\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia de qualquer tipo de pol\u00edtica fundi\u00e1ria que priorize o homem e o transforme em cidad\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o sei se \u201cCentral do Brasil\u201d ou Fernanda Montenegro ganhar\u00e3o um<br \/>\nou dois Oscars. Afinal, \u201ca vida \u00e9 bela\u201d, h\u00e1 \u201ccrian\u00e7as no para\u00edso\u201d, todos gostam do \u201co av\u00f4\u201d e \u201ctango\u201d nunca saiu da moda. 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