{"id":3863,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/escrevendo-microcontos\/"},"modified":"2023-12-21T09:33:35","modified_gmt":"2023-12-21T12:33:35","slug":"escrevendo-microcontos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/escrevendo-microcontos\/","title":{"rendered":"ESCREVENDO MICROCONTOS"},"content":{"rendered":"<p>O conto \u00e9 um dos g\u00eaneros liter\u00e1rios que mais me atraem. \u00c9 claro que gosto de romances, ensaios e poesias. Mas, o conto tem seus encantos. Por ser breve e ter um final, quase sempre, surpreendente, ele agrada e, muitas vezes, choca.. Segundo Alexandre Severino, autor de \u201cThe Brazilian Short Stories: Reflections of a Changing Society\u201d, \u201co conto&#8230; com sua capacidade segmentada \u2013 a apreens\u00e3o il\u00f3gica e inexplicada do momento atual da verdade \u2013 \u00e9 a forma liter\u00e1ria mais apropriada para a descri\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira contempor\u00e2nea\u201d. Eu me arriscaria a dizer que n\u00e3o s\u00f3 da sociedade brasileira.<br \/>\nUma condi\u00e7\u00e3o do conto \u00e9 ser curto, mas alguns autores teimam em escrev\u00ea-lo longo, quase um romance. A partir dessa premissa de que o conto deve ser curto, resolvi me questionar: e por qu\u00ea n\u00e3o curt\u00edssimo, um mero par\u00e1grafo que reflita um momento, uma hist\u00f3ria, uma fantasia, uma loucura, um sabor picante ou c\u00e1ustico?<br \/>\nPassei ent\u00e3o a escrever o que chamei de microcontos. J\u00e1 escrevi quase cem deles. Mostrei ao Juarez Leit\u00e3o e ao Pedro Henrique Saraiva Le\u00e3o, intelectuais de carteirinha acad\u00eamica, e eles disseram ter gostado. Julguem voc\u00eas.<br \/>\nComo a ideia \u00e9 nova, \u00e9 preciso que o leitor leia o microconto (MC) com aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMC01. A m\u00fasica era forte e o som aumentava. Desistiu de matricular-se em uma escola de surdos e foi atropelado pelo carro silencioso.<br \/>\nMC02. O bandido olhou para o corpo morto e co\u00e7ou a cabe\u00e7a. Era o seu segundo engano. Precisa usar \u00f3culos.<br \/>\nMC03. No escuro do cinema sentiu a m\u00e3o sobre sua coxa. Continuou olhando firme para a tela. Gostara do imprevisto. No final do filme, outro imprevisto. Era seu marido.<br \/>\nMC04. Lera Machado, E\u00e7a, Drummond, Trevisan, Rubi\u00e3o e s\u00f3 lhe perguntavam se conhecia Brida, de Paulo Coelho. Suicidou-se.<br \/>\nMC05. Londres, meia noite. Olhou para o Big Ben e viu a Lady Diana pendurada nos ponteiros do rel\u00f3gio e as badaladas n\u00e3o soaram. Meia noite e um minuto.<br \/>\nMC06. Subiu a escada do avi\u00e3o rezando. Sentou, afivelou o cinto, tomou o calmante e dormiu. Sonhou que estava dormindo e nunca mais acordou.<br \/>\nMC07. Era engenheiro de decis\u00f5es concretas. Resolveria todas as d\u00edvidas. Caiu no caminh\u00e3o betoneira. A vi\u00fava recebeu o seguro, n\u00e3o pagou as d\u00edvidas e casou com o dono da betoneira.<br \/>\nMC08. Aquela vontade no corpo e mulher nenhuma. Al\u00f4, \u00e9 do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos a CUT, estamos em greve.<br \/>\nMC09. Correu atr\u00e1s do pivete que lhe roubara o rel\u00f3gio. Depois de duas quadras o alcan\u00e7ou. Tomou o rel\u00f3gio, olhou as horas. Devolveu-o ao pivete e saiu correndo. Estava atrasado.<br \/>\nMC10. A mulher lhe obedecia, estava em um spa para emagrecer. Na data marcada, n\u00e3o voltou. Fugiu com um gordo.<br \/>\nMC11. A primeira equipe do FMI que chegou ao hotel foi logo abrindo as agendas e telefonando para as meninas indicadas pelo Ministro. Queriam acertar as contas atrasadas.<br \/>\nMC12. Era um novo rico perfeito. Depois que colocou as dentaduras superior e inferior, passou a usar fl\u00faor.<br \/>\nApreciaria receber coment\u00e1rios dos leitores a respeito dos microcontos (e-mail jsn@planos.com.br).<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 25\/04\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conto \u00e9 um dos g\u00eaneros liter\u00e1rios que mais me atraem. \u00c9 claro que gosto de romances, ensaios e poesias. Mas, o conto tem seus encantos. Por ser breve e ter um final, quase sempre, surpreendente, ele agrada e, muitas vezes, choca.. Segundo Alexandre Severino, autor de \u201cThe Brazilian Short Stories: Reflections of a Changing Society\u201d, \u201co conto&#8230; com sua capacidade segmentada \u2013 a apreens\u00e3o il\u00f3gica e inexplicada do momento atual da verdade \u2013 \u00e9 a forma liter\u00e1ria mais apropriada para a descri\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira contempor\u00e2nea\u201d. Eu me arriscaria a dizer que n\u00e3o s\u00f3 da sociedade brasileira.<br \/>\nUma condi\u00e7\u00e3o do conto \u00e9 ser curto, mas alguns autores teimam em escrev\u00ea-lo longo, quase um romance. A partir dessa premissa de que o conto deve ser curto, resolvi me questionar: e por qu\u00ea n\u00e3o curt\u00edssimo, um mero par\u00e1grafo que reflita um momento, uma hist\u00f3ria, uma fantasia, uma loucura, um sabor picante ou c\u00e1ustico?<br \/>\nPassei ent\u00e3o a escrever o que chamei de microcontos. J\u00e1 escrevi quase cem deles. Mostrei ao Juarez Leit\u00e3o e ao Pedro Henrique Saraiva Le\u00e3o, intelectuais de carteirinha acad\u00eamica, e eles disseram ter gostado. Julguem voc\u00eas.<br \/>\nComo a ideia \u00e9 nova, \u00e9 preciso que o leitor leia o microconto (MC) com aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMC01. A m\u00fasica era forte e o som aumentava. Desistiu de matricular-se em uma escola de surdos e foi atropelado pelo carro silencioso.<br \/>\nMC02. O bandido olhou para o corpo morto e co\u00e7ou a cabe\u00e7a. Era o seu segundo engano. Precisa usar \u00f3culos.<br \/>\nMC03. No escuro do cinema sentiu a m\u00e3o sobre sua coxa. Continuou olhando firme para a tela. Gostara do imprevisto. No final do filme, outro imprevisto. Era seu marido.<br \/>\nMC04. Lera Machado, E\u00e7a, Drummond, Trevisan, Rubi\u00e3o e s\u00f3 lhe perguntavam se conhecia Brida, de Paulo Coelho. Suicidou-se.<br \/>\nMC05. Londres, meia noite. Olhou para o Big Ben e viu a Lady Diana pendurada nos ponteiros do rel\u00f3gio e as badaladas n\u00e3o soaram. Meia noite e um minuto.<br \/>\nMC06. Subiu a escada do avi\u00e3o rezando. Sentou, afivelou o cinto, tomou o calmante e dormiu. Sonhou que estava dormindo e nunca mais acordou.<br \/>\nMC07. Era engenheiro de decis\u00f5es concretas. Resolveria todas as d\u00edvidas. Caiu no caminh\u00e3o betoneira. A vi\u00fava recebeu o seguro, n\u00e3o pagou as d\u00edvidas e casou com o dono da betoneira.<br \/>\nMC08. Aquela vontade no corpo e mulher nenhuma. Al\u00f4, \u00e9 do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos a CUT, estamos em greve.<br \/>\nMC09. Correu atr\u00e1s do pivete que lhe roubara o rel\u00f3gio. Depois de duas quadras o alcan\u00e7ou. Tomou o rel\u00f3gio, olhou as horas. Devolveu-o ao pivete e saiu correndo. Estava atrasado.<br \/>\nMC10. A mulher lhe obedecia, estava em um spa para emagrecer. Na data marcada, n\u00e3o voltou. Fugiu com um gordo.<br \/>\nMC11. A primeira equipe do FMI que chegou ao hotel foi logo abrindo as agendas e telefonando para as meninas indicadas pelo Ministro. Queriam acertar as contas atrasadas.<br \/>\nMC12. Era um novo rico perfeito. Depois que colocou as dentaduras superior e inferior, passou a usar fl\u00faor.<br \/>\nApreciaria receber coment\u00e1rios dos leitores a respeito dos microcontos (e-mail jsn@planos.com.br).<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 25\/04\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3863","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-inedito"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3863","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3863"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3863\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3916,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3863\/revisions\/3916"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3863"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3863"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3863"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}