{"id":3865,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/lisboa-e-barcelona\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"lisboa-e-barcelona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/lisboa-e-barcelona\/","title":{"rendered":"LISBOA E BARCELONA"},"content":{"rendered":"<p>Estou voltando de Barcelona. Foi o cansa\u00e7o quem me mandou viajar. A corda estava esticada demais e resolvi dar uma paradinha de uns dias. Nada mais que isso. Direto, r\u00e1pido e revigorante.<br \/>\nPrimeiro foi Lisboa. Tenho uma rela\u00e7\u00e3o muito amistosa com Lisboa. A primeira vez que vim ainda era tempo de Salazar, o velho ditador. Apaixonei-me pelo jeito meio pachorrento da Lisboa da d\u00e9cada de 60. Os bondes, o fado, a velha Alfama, as ruas estreitas, a estufa fria, o Museu dos Coches, a Universidade de Lisboa, a Funda\u00e7\u00e3o Gulbekian, o Mosteiro dos Jer\u00f4nimos, a pra\u00e7a Marqu\u00eas de Pombal, onde, por uma dessas coincid\u00eancias da vida encontrei agora dando aut\u00f3grafos, como um autor comum, na Feira do Livro de Lisboa, Jos\u00e9 Saramago. Revi o Bairro Alto e o Rio Tejo de tantos versos e muita prosa. Comi a boa comida portuguesa que parece sempre, ter sido feita por uma velha tia gorda. Foi em Lisboa que conheci Victor Manuel Ribeiro, um portugu\u00eas gentil que nos serviu de cicerone e veio dar com os costados a\u00ed no Brasil e passou a trabalhar comigo at\u00e9 a sua morte.<br \/>\nHoje, Lisboa e Portugal, por extens\u00e3o, tentam se ajustar \u00e0s regras da Comunidade Europeia. Correm contra o atraso que os indicadores sociais demonstravam. Portugal \u00e9 um pa\u00eds em transforma\u00e7\u00e3o, uma viva ebuli\u00e7\u00e3o, tentando promover o turismo, criar novas ind\u00fastrias e servi\u00e7os para os patr\u00edcios que sa\u00edam para empregos subalternos na Fran\u00e7a, Inglaterra e Alemanha e mandavam cheques mensais para suas recatadas mulheres, semi-analfabetas com suas roupas pudicas a cuidar dos mi\u00fados.<br \/>\nDurante o per\u00edodo obscuro da ditadura de Franco, especialmente na Guerra Civil Espanhola, Barcelona, como catal\u00e3, se constituiu o n\u00facleo central da resist\u00eancia. Hoje \u00e9 uma cidade onde os turistas se misturam aos nativos apressados no exerc\u00edcio de suas atividades, especialmente na metalurgia de transforma\u00e7\u00e3o, na qu\u00edmica fina e no imenso parque gr\u00e1fico. Falar apenas na Costa do Sol e na Costa Brava como rotas tur\u00edsticas que tem Barcelona como centro irradiador \u00e9 ser simplista. Barcelona \u00e9 muito mais do que se pode dizer em uma mera visita aos seus diversos museus, onde se destacam Mir\u00f3 e Picasso, a avenida La Rambla, o charmoso bairro Barceloneta, a Vila Ol\u00edmpica, suas bel\u00edssimas igrejas, destacando-se a da Sagrada Fam\u00edlia com a irrever\u00eancia art\u00edstica de Gaud\u00ed. O novo complexo tur\u00edstico de Maremagnum com os seus restaurantes, bares e o passeio mar\u00edtimo, \u00e9 uma esp\u00e9cie de avenida \u00e0 beira mar, frente ao mar Mediterr\u00e2neo.<br \/>\nNesta primavera europeia, no meio de pessoas de uma l\u00edngua assemelhada \u00e0 nossa, embora martelado pelas liga\u00e7\u00f5es internacionais que teimam em reavivar os problemas e a cobrar minha volta, eu tento, em meio a \u201ctapas\u201d e \u201cpaellas\u201d, recarregar minhas baterias jogando conversa fora, por exemplo, com uma tradutora americana, um editor espanhol de origem basca, um empres\u00e1rio brasileiro e um mestrando de com\u00e9rcio exterior.<br \/>\nTudo isso com o bom prop\u00f3sito de reoxigenar-me e tentar assimilar as diatribes do nosso Brasil, t\u00e3o rico e, paradoxalmente, t\u00e3o pobre. \u00c9 bom vir, mesmo com limita\u00e7\u00e3o de tempo. Melhor mesmo \u00e9 voltar, pois em nossa terra \u00e9 que tudo faz sentido, mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica. O Brasil \u00e9 como aquela pessoa a quem amamos muito, apesar de conhecer seus defeitos. Bendito Brasil.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 06\/05\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou voltando de Barcelona. Foi o cansa\u00e7o quem me mandou viajar. A corda estava esticada demais e resolvi dar uma paradinha de uns dias. Nada mais que isso. Direto, r\u00e1pido e revigorante.<br \/>\nPrimeiro foi Lisboa. Tenho uma rela\u00e7\u00e3o muito amistosa com Lisboa. A primeira vez que vim ainda era tempo de Salazar, o velho ditador. Apaixonei-me pelo jeito meio pachorrento da Lisboa da d\u00e9cada de 60. Os bondes, o fado, a velha Alfama, as ruas estreitas, a estufa fria, o Museu dos Coches, a Universidade de Lisboa, a Funda\u00e7\u00e3o Gulbekian, o Mosteiro dos Jer\u00f4nimos, a pra\u00e7a Marqu\u00eas de Pombal, onde, por uma dessas coincid\u00eancias da vida encontrei agora dando aut\u00f3grafos, como um autor comum, na Feira do Livro de Lisboa, Jos\u00e9 Saramago. Revi o Bairro Alto e o Rio Tejo de tantos versos e muita prosa. Comi a boa comida portuguesa que parece sempre, ter sido feita por uma velha tia gorda. Foi em Lisboa que conheci Victor Manuel Ribeiro, um portugu\u00eas gentil que nos serviu de cicerone e veio dar com os costados a\u00ed no Brasil e passou a trabalhar comigo at\u00e9 a sua morte.<br \/>\nHoje, Lisboa e Portugal, por extens\u00e3o, tentam se ajustar \u00e0s regras da Comunidade Europeia. Correm contra o atraso que os indicadores sociais demonstravam. Portugal \u00e9 um pa\u00eds em transforma\u00e7\u00e3o, uma viva ebuli\u00e7\u00e3o, tentando promover o turismo, criar novas ind\u00fastrias e servi\u00e7os para os patr\u00edcios que sa\u00edam para empregos subalternos na Fran\u00e7a, Inglaterra e Alemanha e mandavam cheques mensais para suas recatadas mulheres, semi-analfabetas com suas roupas pudicas a cuidar dos mi\u00fados.<br \/>\nDurante o per\u00edodo obscuro da ditadura de Franco, especialmente na Guerra Civil Espanhola, Barcelona, como catal\u00e3, se constituiu o n\u00facleo central da resist\u00eancia. Hoje \u00e9 uma cidade onde os turistas se misturam aos nativos apressados no exerc\u00edcio de suas atividades, especialmente na metalurgia de transforma\u00e7\u00e3o, na qu\u00edmica fina e no imenso parque gr\u00e1fico. Falar apenas na Costa do Sol e na Costa Brava como rotas tur\u00edsticas que tem Barcelona como centro irradiador \u00e9 ser simplista. Barcelona \u00e9 muito mais do que se pode dizer em uma mera visita aos seus diversos museus, onde se destacam Mir\u00f3 e Picasso, a avenida La Rambla, o charmoso bairro Barceloneta, a Vila Ol\u00edmpica, suas bel\u00edssimas igrejas, destacando-se a da Sagrada Fam\u00edlia com a irrever\u00eancia art\u00edstica de Gaud\u00ed. O novo complexo tur\u00edstico de Maremagnum com os seus restaurantes, bares e o passeio mar\u00edtimo, \u00e9 uma esp\u00e9cie de avenida \u00e0 beira mar, frente ao mar Mediterr\u00e2neo.<br \/>\nNesta primavera europeia, no meio de pessoas de uma l\u00edngua assemelhada \u00e0 nossa, embora martelado pelas liga\u00e7\u00f5es internacionais que teimam em reavivar os problemas e a cobrar minha volta, eu tento, em meio a \u201ctapas\u201d e \u201cpaellas\u201d, recarregar minhas baterias jogando conversa fora, por exemplo, com uma tradutora americana, um editor espanhol de origem basca, um empres\u00e1rio brasileiro e um mestrando de com\u00e9rcio exterior.<br \/>\nTudo isso com o bom prop\u00f3sito de reoxigenar-me e tentar assimilar as diatribes do nosso Brasil, t\u00e3o rico e, paradoxalmente, t\u00e3o pobre. \u00c9 bom vir, mesmo com limita\u00e7\u00e3o de tempo. Melhor mesmo \u00e9 voltar, pois em nossa terra \u00e9 que tudo faz sentido, mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica. O Brasil \u00e9 como aquela pessoa a quem amamos muito, apesar de conhecer seus defeitos. Bendito Brasil.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 06\/05\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3865","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-inedito"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3865","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3865"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3865\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3918,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3865\/revisions\/3918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}