{"id":3866,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-nova-mae-2\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"a-nova-mae-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-nova-mae-2\/","title":{"rendered":"A NOVA M\u00c3E"},"content":{"rendered":"<p>As coisas do mundo mudam muito r\u00e1pidas. Fui criado no tempo da m\u00e3e tempo integral. Os filhos e o marido eram o seu universo. E o restante, ora\u00e7\u00f5es. Mulheres jovens reuniam os filhos \u00e0 seis da tarde para \u201ctirar\u201d o ter\u00e7o. Mulheres aguardando o marido para mandar servir o jantar e, se o marido atrasava muito, corriam para o quarto e choravam quietas para os filhos n\u00e3o ouvirem. Mulheres, muitas delas envelhecidas aos 40 anos, se comprazendo em manter os filhos limpos, sadios e estudando. Mulheres \u201ctementes a Deus\u201d, com muitos filhos, empregadas ou irm\u00e3s e tias ajudando a cuidar da casa, o marido reinando absoluto. Provedor e ditador.<br \/>\nHoje, as m\u00e3es s\u00e3o fruto de uma revolu\u00e7\u00e3o feita pelas pr\u00f3prias mulheres, sem a ajuda dos homens, nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e0 custa de muito sacrif\u00edcio, de batalhas p\u00fablicas e privadas assegurando-lhes uma nova dimens\u00e3o.<br \/>\nAs m\u00e3es de hoje s\u00e3o outras, enquanto cuidam do filho insone fazem uma tarefa do seu trabalho ou arriscam o olho em um livro ou numa televis\u00e3o multifacetada abrindo-lhe as portas do mundo, sejam cafonices, pieguices, devaneios ou a informa\u00e7\u00e3o em tempo real.<br \/>\nEssas novas mulheres s\u00e3o corajosas, fortes, diligentes, mesclam o dever com o prazer e multiplicam seu tempo para ser m\u00e3e, trabalhadora, dona de casa, cuidar do corpo e prender o marido. Esse bicho danado e teimoso querendo criar asas, embora seja um mero b\u00edpede e, muitas vezes, n\u00e3o sabe nem onde pisa.<br \/>\nA nova m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 um estere\u00f3tipo, \u00e9 um ser mutante tentando conviver num mundo novo, lado a lado, com um parceiro incapaz de esconder suas fraquezas, pois vis\u00edveis. Divide despesas, faz or\u00e7amentos, leva filhos a m\u00e9dicos e dentistas, cozinha ou compra congelados, copia modelos de vestidos, aproveita liquida\u00e7\u00f5es, estuda e\/ou trabalha fora, briga por vaga em escola gratuita ou por mensalidades mais baixas e defende seus pontos de vista nas reuni\u00f5es de pais (e m\u00e3es) e mestres, integra uma turma de amigas, possui a liberdade oferecida por um celular e teme o futuro. \u00c9 um ser estressado como se fora um homem, trabalhando, \u00e0s vezes, mais que ele e se quer bonita, alegre e saud\u00e1vel.<br \/>\nEla s\u00f3 deixa de trabalhar nos \u00faltimos dias da gravidez, vai para o parto j\u00e1 com uma cinta pronta para recompor a silhueta e 24 horas ap\u00f3s est\u00e1 em casa administrando o caos. Decide se vai usar o Diu, ligar as trompas ou pedir ao marido para fazer vasectomia.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 um novo homem pronto e acabado para essa nova mulher e m\u00e3e. Os homens ainda n\u00e3o se deram conta de sua m\u00e3e n\u00e3o servir mais de modelo e os \u00e9dipos est\u00e3o sendo sepultados, mesmo \u00e0 for\u00e7a.<br \/>\nAt\u00f4nitos, despreparados, procuram em seus pares as explica\u00e7\u00f5es sonegadas por suas mentes. Aos poucos, passam a ver sua mulher como algu\u00e9m exatamente igual a ele e isso lhes amedronta, pois sabem do que s\u00e3o capazes. Se eles s\u00e3o, elas tamb\u00e9m. Do receio talvez surja o respeito oxigenador dessa rela\u00e7\u00e3o ainda difusa e confusa tendente a se alicer\u00e7ar na independ\u00eancia m\u00fatua e, paradoxalmente, venha a ser o elo faltante dessa nova conviv\u00eancia.<br \/>\nA essa nova m\u00e3e, fruto de todos os acontecimentos deste final de s\u00e9culo, nos cabe homenagear como algu\u00e9m emergente do meio de tantos desencontros entre pessoas ainda n\u00e3o aptas a trilhar o caminho dessa estrada libert\u00e1ria e amedrontadora, por ser desconhecida.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 09\/05\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As coisas do mundo mudam muito r\u00e1pidas. Fui criado no tempo da m\u00e3e tempo integral. Os filhos e o marido eram o seu universo. E o restante, ora\u00e7\u00f5es. Mulheres jovens reuniam os filhos \u00e0 seis da tarde para \u201ctirar\u201d o ter\u00e7o. Mulheres aguardando o marido para mandar servir o jantar e, se o marido atrasava muito, corriam para o quarto e choravam quietas para os filhos n\u00e3o ouvirem. Mulheres, muitas delas envelhecidas aos 40 anos, se comprazendo em manter os filhos limpos, sadios e estudando. Mulheres \u201ctementes a Deus\u201d, com muitos filhos, empregadas ou irm\u00e3s e tias ajudando a cuidar da casa, o marido reinando absoluto. Provedor e ditador.<br \/>\nHoje, as m\u00e3es s\u00e3o fruto de uma revolu\u00e7\u00e3o feita pelas pr\u00f3prias mulheres, sem a ajuda dos homens, nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e0 custa de muito sacrif\u00edcio, de batalhas p\u00fablicas e privadas assegurando-lhes uma nova dimens\u00e3o.<br \/>\nAs m\u00e3es de hoje s\u00e3o outras, enquanto cuidam do filho insone fazem uma tarefa do seu trabalho ou arriscam o olho em um livro ou numa televis\u00e3o multifacetada abrindo-lhe as portas do mundo, sejam cafonices, pieguices, devaneios ou a informa\u00e7\u00e3o em tempo real.<br \/>\nEssas novas mulheres s\u00e3o corajosas, fortes, diligentes, mesclam o dever com o prazer e multiplicam seu tempo para ser m\u00e3e, trabalhadora, dona de casa, cuidar do corpo e prender o marido. Esse bicho danado e teimoso querendo criar asas, embora seja um mero b\u00edpede e, muitas vezes, n\u00e3o sabe nem onde pisa.<br \/>\nA nova m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 um estere\u00f3tipo, \u00e9 um ser mutante tentando conviver num mundo novo, lado a lado, com um parceiro incapaz de esconder suas fraquezas, pois vis\u00edveis. Divide despesas, faz or\u00e7amentos, leva filhos a m\u00e9dicos e dentistas, cozinha ou compra congelados, copia modelos de vestidos, aproveita liquida\u00e7\u00f5es, estuda e\/ou trabalha fora, briga por vaga em escola gratuita ou por mensalidades mais baixas e defende seus pontos de vista nas reuni\u00f5es de pais (e m\u00e3es) e mestres, integra uma turma de amigas, possui a liberdade oferecida por um celular e teme o futuro. \u00c9 um ser estressado como se fora um homem, trabalhando, \u00e0s vezes, mais que ele e se quer bonita, alegre e saud\u00e1vel.<br \/>\nEla s\u00f3 deixa de trabalhar nos \u00faltimos dias da gravidez, vai para o parto j\u00e1 com uma cinta pronta para recompor a silhueta e 24 horas ap\u00f3s est\u00e1 em casa administrando o caos. Decide se vai usar o Diu, ligar as trompas ou pedir ao marido para fazer vasectomia.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 um novo homem pronto e acabado para essa nova mulher e m\u00e3e. Os homens ainda n\u00e3o se deram conta de sua m\u00e3e n\u00e3o servir mais de modelo e os \u00e9dipos est\u00e3o sendo sepultados, mesmo \u00e0 for\u00e7a.<br \/>\nAt\u00f4nitos, despreparados, procuram em seus pares as explica\u00e7\u00f5es sonegadas por suas mentes. Aos poucos, passam a ver sua mulher como algu\u00e9m exatamente igual a ele e isso lhes amedronta, pois sabem do que s\u00e3o capazes. Se eles s\u00e3o, elas tamb\u00e9m. Do receio talvez surja o respeito oxigenador dessa rela\u00e7\u00e3o ainda difusa e confusa tendente a se alicer\u00e7ar na independ\u00eancia m\u00fatua e, paradoxalmente, venha a ser o elo faltante dessa nova conviv\u00eancia.<br \/>\nA essa nova m\u00e3e, fruto de todos os acontecimentos deste final de s\u00e9culo, nos cabe homenagear como algu\u00e9m emergente do meio de tantos desencontros entre pessoas ainda n\u00e3o aptas a trilhar o caminho dessa estrada libert\u00e1ria e amedrontadora, por ser desconhecida.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 09\/05\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3866","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-inedito"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3866","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3866"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3866\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3920,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3866\/revisions\/3920"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3866"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3866"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3866"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}