{"id":3867,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/socialite\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"socialite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/socialite\/","title":{"rendered":"SOCIALITE"},"content":{"rendered":"<p>Muita gente usa a palavra \u201csocialite\u201d sem saber exatamente o seu significado. Ali\u00e1s, por n\u00e3o saber, a forma incorreta como \u00e9 usada passa a ter c\u00e2none de verdadeira. Diz-se, de um modo geral, ser uma mulher \u201csocialite\u201d quando ela \u00e9 colun\u00e1vel socialmente. Os(as) colunistas sabem, por viverem paparicados(as), quem seriam as \u201csocialites\u201d, as alpinistas e as \u201cinformantes\u201d, integrantes de uma esp\u00e9cie de SNI social, que transformam um trivial almo\u00e7o com alguns poucos familiares e amigos, uma viagem boba, um fato qualquer, em uma nota de jornal.<br \/>\nO que essas \u201csocialites\u201d ainda n\u00e3o se deram conta \u00e9 que o perfil da coluna, dita social, mudou. O(a) colunista j\u00e1 sabe disso h\u00e1 anos. Hoje, ela \u00e9 um misto de pol\u00edtica, neg\u00f3cios, eventos culturais e sociais e, como todo mundo gosta, um pouco de mexerico que serve para apimentar.<br \/>\nAlgumas pessoas s\u00f3 acreditam em suas festas, casamentos, vit\u00f3rias empresariais, sucesso acad\u00eamico ou profissional, quando a vers\u00e3o glamourosa \u00e9 contada no jornal. N\u00e3o deu no jornal, n\u00e3o aconteceu. Isso vai alimentando \u201ca fogueira das vaidades\u201d, referida por Tom Wolfe em seu romance hom\u00f4nimo lan\u00e7ado no fim da d\u00e9cada de 80, usando como pano de fundo os novos ricos de Wall Street, Nova Iorque.<br \/>\nO fen\u00f4meno \u00e9 mundial e n\u00e3o se limita \u00e0 cidades tidas como provincianas. Cientes desse fil\u00e3o inesgot\u00e1vel, a vaidade humana, surgem revistas tipo \u201cCaras\u201d, a express\u00e3o pura e acabada da futilidade e do exibicionismo. De uns tempos para c\u00e1 come\u00e7aram a aparecer, na mesma esteira, programas de televis\u00e3o alimentados pela vaidade encobrindo a inseguran\u00e7a ou pela inseguran\u00e7a geradora da vaidade. Revelam prefer\u00eancias, inaugura\u00e7\u00f5es, festas de toda natureza, casas prontas para mostrar, simulam entrevistas deixando patentes a pose e o rid\u00edculo; e fazem a alegria e a gl\u00f3ria de quem precisa de uma alta exposi\u00e7\u00e3o para aplacar, em alguns casos, o seu vazio. Al\u00e9m disso, d\u00e3o ao comum dos leitores ou telespectadores uma pretensa intimidade com \u201cgente muito importante\u201d ou Vip (very important people).<br \/>\nMas, afinal, o que significa o termo \u201csocialite\u201d? Esse neologismo, \u201cnewyorquismo\u201d ou anglicismo foi gerado por jornalistas com a fus\u00e3o das palavras social e socialista. A revista \u201cTime\u201d, nos anos 60, descobriu existir um tipo de mulher de Nova Iorque aliando \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de frequentadora da sociedade a de \u201csocialista\u201d. Seria, mais ou menos, o equivalente ao conhecido no Brasil como \u201cesquerda festiva\u201d, esquerda de coquetel ou botequim ou, trazendo para os tempos atuais, uma esp\u00e9cie de \u201cRadical Chic\u201d engajada.<br \/>\nUm exemplo desse tipo de \u201csocialite\u201d seria, talvez, como satiriza a intelectual multim\u00eddia Susan Sontag, ao criticar as pessoas que v\u00e3o assistir \u00e0 pe\u00e7a \u201cEsperando Godot\u201d, de Samuel Beckett: \u201cEsperando Godot \u00e9 chique, todo mundo acha profundo, porque ningu\u00e9m entende nada\u201d. Ou como disse Ant\u00f4nio Gramsci: \u201c O otimismo da barb\u00e1rie \u00e9 o pessimismo da intelig\u00eancia\u201d.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/05\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muita gente usa a palavra \u201csocialite\u201d sem saber exatamente o seu significado. 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Hoje, ela \u00e9 um misto de pol\u00edtica, neg\u00f3cios, eventos culturais e sociais e, como todo mundo gosta, um pouco de mexerico que serve para apimentar.<br \/>\nAlgumas pessoas s\u00f3 acreditam em suas festas, casamentos, vit\u00f3rias empresariais, sucesso acad\u00eamico ou profissional, quando a vers\u00e3o glamourosa \u00e9 contada no jornal. N\u00e3o deu no jornal, n\u00e3o aconteceu. Isso vai alimentando \u201ca fogueira das vaidades\u201d, referida por Tom Wolfe em seu romance hom\u00f4nimo lan\u00e7ado no fim da d\u00e9cada de 80, usando como pano de fundo os novos ricos de Wall Street, Nova Iorque.<br \/>\nO fen\u00f4meno \u00e9 mundial e n\u00e3o se limita \u00e0 cidades tidas como provincianas. Cientes desse fil\u00e3o inesgot\u00e1vel, a vaidade humana, surgem revistas tipo \u201cCaras\u201d, a express\u00e3o pura e acabada da futilidade e do exibicionismo. De uns tempos para c\u00e1 come\u00e7aram a aparecer, na mesma esteira, programas de televis\u00e3o alimentados pela vaidade encobrindo a inseguran\u00e7a ou pela inseguran\u00e7a geradora da vaidade. Revelam prefer\u00eancias, inaugura\u00e7\u00f5es, festas de toda natureza, casas prontas para mostrar, simulam entrevistas deixando patentes a pose e o rid\u00edculo; e fazem a alegria e a gl\u00f3ria de quem precisa de uma alta exposi\u00e7\u00e3o para aplacar, em alguns casos, o seu vazio. Al\u00e9m disso, d\u00e3o ao comum dos leitores ou telespectadores uma pretensa intimidade com \u201cgente muito importante\u201d ou Vip (very important people).<br \/>\nMas, afinal, o que significa o termo \u201csocialite\u201d? Esse neologismo, \u201cnewyorquismo\u201d ou anglicismo foi gerado por jornalistas com a fus\u00e3o das palavras social e socialista. A revista \u201cTime\u201d, nos anos 60, descobriu existir um tipo de mulher de Nova Iorque aliando \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de frequentadora da sociedade a de \u201csocialista\u201d. Seria, mais ou menos, o equivalente ao conhecido no Brasil como \u201cesquerda festiva\u201d, esquerda de coquetel ou botequim ou, trazendo para os tempos atuais, uma esp\u00e9cie de \u201cRadical Chic\u201d engajada.<br \/>\nUm exemplo desse tipo de \u201csocialite\u201d seria, talvez, como satiriza a intelectual multim\u00eddia Susan Sontag, ao criticar as pessoas que v\u00e3o assistir \u00e0 pe\u00e7a \u201cEsperando Godot\u201d, de Samuel Beckett: \u201cEsperando Godot \u00e9 chique, todo mundo acha profundo, porque ningu\u00e9m entende nada\u201d. 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