{"id":3869,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/keynes-o-filosofo\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"keynes-o-filosofo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/keynes-o-filosofo\/","title":{"rendered":"KEYNES, O FIL\u00d3SOFO"},"content":{"rendered":"<p>Os que mourejam em economia sabem \u2013 ou deveriam saber- quem foi John Maynard Keynes. Os outros, naturalmente, n\u00e3o t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de sab\u00ea-lo. De qualquer sorte, como diria outro economista, Keynes foi o mais famoso economista ingl\u00eas do atual s\u00e9culo, autor da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, e agraciado com o t\u00edtulo de Cavalheiro (Sir) pela Casa Real da Inglaterra.<br \/>\nOcorre que n\u00e3o desejo falar sobre o economista Keynes e sim sobre o pensador Keynes. O estudioso de Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein. O homem que varava horas da madrugada conversando amenidades com um grupo (o badalado \u201cBloomsbury group\u201d) de amigos intelectuais, dentre os quais Virginia Woolf e os seus lobos imagin\u00e1rios.<br \/>\nEm 1930, Keynes escreveu um ensaio chamado \u201cAs possibilidades econ\u00f4micas de nossos netos\u201d. Nesse trabalho h\u00e1 trechos lindos demonstrando que Keynes era um fil\u00f3sofo, no sentido lato da palavra. Vejamos dois deles: \u201cQuando a acumula\u00e7\u00e3o da riqueza n\u00e3o tiver mais uma grande import\u00e2ncia social, haver\u00e1 grandes altera\u00e7\u00f5es no c\u00f3digo de moralidade. Seremos capazes de nos permitir avaliar em seu real valor o motivo econ\u00f4mico. O amor ao dinheiro como uma posse &#8211; diferente do amor ao dinheiro como um meio para o gozo e as realidades da vida \u2013 ser\u00e1 reconhecido pelo que \u00e9: uma morbidade um pouco fastidiosa, uma dessas tend\u00eancias semicriminosas e semipatol\u00f3gicas que se costuma confiar com arrepios a especialistas em doen\u00e7as mentais&#8230;\u201d \u201cEle (o homem) n\u00e3o ama o gato, mas os gatinhos do seu gato; na verdade, sequer os gatinhos, mas apenas os gatinhos dos gatinhos, e assim por diante, para sempre, at\u00e9 o fim da gataria. Para ele, uma gel\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 uma gel\u00e9ia, a menos que se trate de uma gel\u00e9ia para amanh\u00e3 e nunca de uma gel\u00e9ia hoje. Assim, sempre projetando para o futuro sua gel\u00e9ia, ele se esfor\u00e7a em garantir a imortalidade para seu ato de faz\u00ea-la\u201d.<br \/>\nDiz mais: \u201cOs ativos e decididos ganhadores de dinheiro podem levar-nos todos ao aconchego da abund\u00e2ncia econ\u00f4mica. Mas apenas ser\u00e3o capazes de aproveitar a abund\u00e2ncia, quando ela chegar, os que puderem manter viva e cultivar para uma perfei\u00e7\u00e3o mais completa a arte de viver, e os que n\u00e3o se vendem pelos meios de vida\u201d.<br \/>\nNesses trechos Keynes denuncia um defeito comum a quase todos n\u00f3s: o amor ao dinheiro pela sua mera posse e deixa claro ser essa uma morbidade, s\u00f3 justificando seu uso dignificante para o gozo da vida. Fala tamb\u00e9m da loucura que \u00e9 a tend\u00eancia de muitas pessoas em imaginar que a felicidade \u00e9 um vir a ser e n\u00e3o o aproveitar as pequenas alegrias do dia a dia, como, por exemplo, admirar e gostar de um simples gatinho.<br \/>\nAo admitir que os ganhadores de dinheiro poder\u00e3o levar o mundo a uma abund\u00e2ncia, considera apenas que fruir\u00e3o dessas benesses os que saibam cultivar a arte de viver. Para saber o que Keynes consideraria \u201ccultivar a arte de viver\u201d poder-se-ia dizer, por infer\u00eancia de seus escritos e dos grupos sociais de que participava, que seria saber dividir o seu tempo entre o dever e o prazer, colocando a amizade e o relacionamento social como um desiderato.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 30\/05\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os que mourejam em economia sabem \u2013 ou deveriam saber- quem foi John Maynard Keynes. Os outros, naturalmente, n\u00e3o t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de sab\u00ea-lo. De qualquer sorte, como diria outro economista, Keynes foi o mais famoso economista ingl\u00eas do atual s\u00e9culo, autor da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, e agraciado com o t\u00edtulo de Cavalheiro (Sir) pela Casa Real da Inglaterra.<br \/>\nOcorre que n\u00e3o desejo falar sobre o economista Keynes e sim sobre o pensador Keynes. O estudioso de Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein. O homem que varava horas da madrugada conversando amenidades com um grupo (o badalado \u201cBloomsbury group\u201d) de amigos intelectuais, dentre os quais Virginia Woolf e os seus lobos imagin\u00e1rios.<br \/>\nEm 1930, Keynes escreveu um ensaio chamado \u201cAs possibilidades econ\u00f4micas de nossos netos\u201d. Nesse trabalho h\u00e1 trechos lindos demonstrando que Keynes era um fil\u00f3sofo, no sentido lato da palavra. Vejamos dois deles: \u201cQuando a acumula\u00e7\u00e3o da riqueza n\u00e3o tiver mais uma grande import\u00e2ncia social, haver\u00e1 grandes altera\u00e7\u00f5es no c\u00f3digo de moralidade. Seremos capazes de nos permitir avaliar em seu real valor o motivo econ\u00f4mico. O amor ao dinheiro como uma posse &#8211; diferente do amor ao dinheiro como um meio para o gozo e as realidades da vida \u2013 ser\u00e1 reconhecido pelo que \u00e9: uma morbidade um pouco fastidiosa, uma dessas tend\u00eancias semicriminosas e semipatol\u00f3gicas que se costuma confiar com arrepios a especialistas em doen\u00e7as mentais&#8230;\u201d \u201cEle (o homem) n\u00e3o ama o gato, mas os gatinhos do seu gato; na verdade, sequer os gatinhos, mas apenas os gatinhos dos gatinhos, e assim por diante, para sempre, at\u00e9 o fim da gataria. Para ele, uma gel\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 uma gel\u00e9ia, a menos que se trate de uma gel\u00e9ia para amanh\u00e3 e nunca de uma gel\u00e9ia hoje. Assim, sempre projetando para o futuro sua gel\u00e9ia, ele se esfor\u00e7a em garantir a imortalidade para seu ato de faz\u00ea-la\u201d.<br \/>\nDiz mais: \u201cOs ativos e decididos ganhadores de dinheiro podem levar-nos todos ao aconchego da abund\u00e2ncia econ\u00f4mica. Mas apenas ser\u00e3o capazes de aproveitar a abund\u00e2ncia, quando ela chegar, os que puderem manter viva e cultivar para uma perfei\u00e7\u00e3o mais completa a arte de viver, e os que n\u00e3o se vendem pelos meios de vida\u201d.<br \/>\nNesses trechos Keynes denuncia um defeito comum a quase todos n\u00f3s: o amor ao dinheiro pela sua mera posse e deixa claro ser essa uma morbidade, s\u00f3 justificando seu uso dignificante para o gozo da vida. Fala tamb\u00e9m da loucura que \u00e9 a tend\u00eancia de muitas pessoas em imaginar que a felicidade \u00e9 um vir a ser e n\u00e3o o aproveitar as pequenas alegrias do dia a dia, como, por exemplo, admirar e gostar de um simples gatinho.<br \/>\nAo admitir que os ganhadores de dinheiro poder\u00e3o levar o mundo a uma abund\u00e2ncia, considera apenas que fruir\u00e3o dessas benesses os que saibam cultivar a arte de viver. Para saber o que Keynes consideraria \u201ccultivar a arte de viver\u201d poder-se-ia dizer, por infer\u00eancia de seus escritos e dos grupos sociais de que participava, que seria saber dividir o seu tempo entre o dever e o prazer, colocando a amizade e o relacionamento social como um desiderato.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 30\/05\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3869","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3869"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3869\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}