{"id":3877,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/viagens-vapt-vupt\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"viagens-vapt-vupt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/viagens-vapt-vupt\/","title":{"rendered":"VIAGENS VAPT-VUPT"},"content":{"rendered":"<p>Eu tenho me especializado em viagens vapt-vupt. Por minha natureza e atividades acostumei-me a ser r\u00e1pido. Vejo tudo de forma seletiva, fa\u00e7o sempre o poss\u00edvel, mas ainda tenho tempo de olhar os meus s\u00f3is e luas, comprar livros, ver teatro, identificar e conversar com tipos estranhos, algumas poucas compras e volto. N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o gostar de ficar. \u00c9 claro, gostaria de permanecer sempre um pouco mais. H\u00e1, no entanto, um sentimento de urg\u00eancia e responsabilidade me trazendo de volta, sempre.<br \/>\nIsso, entretanto, n\u00e3o me impediu de ver o sol da meia noite em Narvik, no Polo Norte, de participar de cerim\u00f4nias budistas em T\u00f3quio, de andar de riquix\u00e1 em Seul, de fotografar as cataratas do Ni\u00e1gara quase congeladas, voar sobre os Andes, tentar esquiar nos Alpes, andar de camelo no Cairo, tomar um pisco em Lima, perambular pelos corredores da Casa Branca, subir as escadarias das pir\u00e2mides do M\u00e9xico, ver dois papas em Roma, pisar na cal\u00e7ada da fama em Los Angeles, ser roubado em Nova Iorque, ouvir discursos malucos em Londres, sair vivo do Mar Morto, perder um trem em Baden, mexer em rel\u00edquias do campo de concentra\u00e7\u00e3o em Auschivitz, fazer um check up em Frankfurt, curtir as ladeiras e curvas de San Francisco, passear na cidade proibida em Jerusal\u00e9m, estudar em Massachusets, ver os destro\u00e7os da deposi\u00e7\u00e3o de Allende em Santiago, virar a noite em Madri at\u00e9 a pol\u00edcia nos mandar para o hotel, jogar em Las Vegas, atravessar o antigo muro de Berlim, aprender a gostar de Miami, aguentar o papo dos gondoleiros de Veneza, conversar uma noite inteira com uma estranha em Saint-Malo, tomar banho em Punta Del Este, repetir as casas de tango de Buenos Aires, passear de navio pelo Caribe, enternecer-me com o Mosteiro dos Jer\u00f4nimos, andar de barco no Mar da China, discutir sobre Robert Frost em Barcelona, brincar no Tivoli Park em Copenhague e muita coisa mais.<br \/>\nPode ser que algu\u00e9m ache \u2013 e talvez tenha raz\u00e3o \u2013 que quis me mostrar. Quem escreve se mostra e se mostro onde andei de carro, trem, avi\u00e3o e navio a\u00ed a coisa fica mais \u00e0 mostra. Paci\u00eancia, fa\u00e7o parte de uma fam\u00edlia de andarilhos. Come\u00e7ou com Pero Vaz de Caminha, meu \u201cancestral materno\u201d.<br \/>\nGosto de ver o mundo do meu jeito, ficar olhando os nativos de cada lugar. N\u00f3s somos pessoas de um mesmo planeta, mas como somos diferentes. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de ra\u00e7a, religi\u00e3o ou do lugar onde moramos. \u00c9 algo maior, misturando os costumes, a cultura e o jeito de cada um ser, ver e viver o mundo.<br \/>\nRecentemente, li um livro da jornalista S\u00f4nia Nolasco, \u201cMoreno como voc\u00eas\u201d, nele ela narra o choque cultural e social de brasileiros morando em Nova Iorque e suas identidades abaladas. \u00c9 um livro profundo na an\u00e1lise dos comportamentos dos expatriados e lembrei dele porque, nesta \u00faltima viagem feita, li no \u201cThe Brazilian Sun\u201d um depoimento de uma jovem, ap\u00f3s quatro anos nos Estados Unidos, resolver entregar os pontos e voltar em meio a desilus\u00f5es.<br \/>\nQuem sabe se as minhas viagens vapt vupt n\u00e3o sejam para eu n\u00e3o perder o meu senso de lugar e me imaginar fazendo parte de um mundo n\u00e3o meu? O meu \u00e9 aqui, onde est\u00e3o as pessoas amadas, conhe\u00e7o at\u00e9 os buracos das ruas, sei quem s\u00e3o as criaturas boas e as maledicentes e me sinto parte dessa coisa informe chamada comunidade que, na verdade, poderia ser mais solid\u00e1ria.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 15\/08\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tenho me especializado em viagens vapt-vupt. Por minha natureza e atividades acostumei-me a ser r\u00e1pido. Vejo tudo de forma seletiva, fa\u00e7o sempre o poss\u00edvel, mas ainda tenho tempo de olhar os meus s\u00f3is e luas, comprar livros, ver teatro, identificar e conversar com tipos estranhos, algumas poucas compras e volto. N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o gostar de ficar. \u00c9 claro, gostaria de permanecer sempre um pouco mais. H\u00e1, no entanto, um sentimento de urg\u00eancia e responsabilidade me trazendo de volta, sempre.<br \/>\nIsso, entretanto, n\u00e3o me impediu de ver o sol da meia noite em Narvik, no Polo Norte, de participar de cerim\u00f4nias budistas em T\u00f3quio, de andar de riquix\u00e1 em Seul, de fotografar as cataratas do Ni\u00e1gara quase congeladas, voar sobre os Andes, tentar esquiar nos Alpes, andar de camelo no Cairo, tomar um pisco em Lima, perambular pelos corredores da Casa Branca, subir as escadarias das pir\u00e2mides do M\u00e9xico, ver dois papas em Roma, pisar na cal\u00e7ada da fama em Los Angeles, ser roubado em Nova Iorque, ouvir discursos malucos em Londres, sair vivo do Mar Morto, perder um trem em Baden, mexer em rel\u00edquias do campo de concentra\u00e7\u00e3o em Auschivitz, fazer um check up em Frankfurt, curtir as ladeiras e curvas de San Francisco, passear na cidade proibida em Jerusal\u00e9m, estudar em Massachusets, ver os destro\u00e7os da deposi\u00e7\u00e3o de Allende em Santiago, virar a noite em Madri at\u00e9 a pol\u00edcia nos mandar para o hotel, jogar em Las Vegas, atravessar o antigo muro de Berlim, aprender a gostar de Miami, aguentar o papo dos gondoleiros de Veneza, conversar uma noite inteira com uma estranha em Saint-Malo, tomar banho em Punta Del Este, repetir as casas de tango de Buenos Aires, passear de navio pelo Caribe, enternecer-me com o Mosteiro dos Jer\u00f4nimos, andar de barco no Mar da China, discutir sobre Robert Frost em Barcelona, brincar no Tivoli Park em Copenhague e muita coisa mais.<br \/>\nPode ser que algu\u00e9m ache \u2013 e talvez tenha raz\u00e3o \u2013 que quis me mostrar. Quem escreve se mostra e se mostro onde andei de carro, trem, avi\u00e3o e navio a\u00ed a coisa fica mais \u00e0 mostra. Paci\u00eancia, fa\u00e7o parte de uma fam\u00edlia de andarilhos. Come\u00e7ou com Pero Vaz de Caminha, meu \u201cancestral materno\u201d.<br \/>\nGosto de ver o mundo do meu jeito, ficar olhando os nativos de cada lugar. N\u00f3s somos pessoas de um mesmo planeta, mas como somos diferentes. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de ra\u00e7a, religi\u00e3o ou do lugar onde moramos. \u00c9 algo maior, misturando os costumes, a cultura e o jeito de cada um ser, ver e viver o mundo.<br \/>\nRecentemente, li um livro da jornalista S\u00f4nia Nolasco, \u201cMoreno como voc\u00eas\u201d, nele ela narra o choque cultural e social de brasileiros morando em Nova Iorque e suas identidades abaladas. \u00c9 um livro profundo na an\u00e1lise dos comportamentos dos expatriados e lembrei dele porque, nesta \u00faltima viagem feita, li no \u201cThe Brazilian Sun\u201d um depoimento de uma jovem, ap\u00f3s quatro anos nos Estados Unidos, resolver entregar os pontos e voltar em meio a desilus\u00f5es.<br \/>\nQuem sabe se as minhas viagens vapt vupt n\u00e3o sejam para eu n\u00e3o perder o meu senso de lugar e me imaginar fazendo parte de um mundo n\u00e3o meu? 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