{"id":3879,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sem-terra-sem-rumo-e-stravinsky\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"sem-terra-sem-rumo-e-stravinsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/sem-terra-sem-rumo-e-stravinsky\/","title":{"rendered":"SEM TERRA, SEM RUMO E STRAVINSKY"},"content":{"rendered":"<p>Desde que h\u00e1 algumas semanas os caminhoneiros se reuniram-extremamente bem coordenados, diga-se de passagem &#8211; para a sua greve geral que se fala em crise institucional. De repente, na quinta-feira passada, outro grande movimento, o dos sem terra, segundo muitos, e dos sem rumo, segundo FHC, mexeu com o cora\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia e escancarou a situa\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\nEnquanto isso, no sul e sudeste, aproxima-se a primavera e, segundo os arautos de sempre, o Brasil, em breve, entrar\u00e1 nos eixos. \u00c9 bom lembrar que o 05 de outubro \u00e9 nada mais, nada menos, que o \u201cDia da Ave\u201d, segundo o calend\u00e1rio c\u00edvico-hist\u00f3rico brasileiro. Os p\u00e1ssaros ficar\u00e3o felizes pela escolha, quem sabe, do seu dia para o an\u00fancio do fim dos problemas brasileiros. E voar\u00e3o em rasantes sobre a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes. Quem acredita em Nostradamus pode acreditar em tudo.<br \/>\nPara quem mora por estas bandas do Brasil, onde as esta\u00e7\u00f5es se resumem a sol e chuva, ou seca e enchente, a coisa at\u00e9 parece piada. Como parece piada a discuss\u00e3o sobre globaliza\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 empresa nacional, pois parte das maiores das daqui, se n\u00e3o tivessem sido assistidas com o dinheiro farto e generoso dos incentivos fiscais e dos rombos em bancos estatais, pouco mais seriam que espectros.<br \/>\nPor tudo isso \u00e9 que fiz, mesmo sem entender de m\u00fasica erudita, uma analogia entre as promessas da primavera, do governo e a obra musical \u201cA Sagra\u00e7\u00e3o da Primavera\u201d, de Igor Stravinsky. Recebida como um verdadeiro esc\u00e2ndalo quando de sua estr\u00e9ia na primavera de 1913, em Paris, sua for\u00e7a foi tamanha que passou a influir na mudan\u00e7a da postura cultural da \u00e9poca e o choque produzido mexeu com as classes dominantes de ent\u00e3o que, estupefatas, a ouviam no Teatro dos Campos El\u00edseos.<br \/>\n\u00c9 prov\u00e1vel que a analogia que me proponho a fazer se prenda ao pr\u00f3prio conte\u00fado da pe\u00e7a musical que se comp\u00f5e de duas partes. O governo atual tamb\u00e9m tem duas partes, a antes do in\u00edcio do segundo mandato em janeiro de 1999 e a que veio depois.<br \/>\nVoltemos \u00e0 Strasvinsky. A primeira parte da pe\u00e7a \u00e9 a Adora\u00e7\u00e3o da Terra (seriam a defesa intransigente dos ruralistas e a a\u00e7\u00e3o constante dos sem terra?), em que \u00e9 descrita o renascimento da natureza (seria o respeito ao meio ambiente ou o aproveitamento de terras improdutivas?), os aug\u00farios da primavera: dan\u00e7a das adolescentes (seriam as esperan\u00e7as e os dramas da nossa jovem democracia?), os jogos de captura (seriam os jogos de poder entre os do governo e as esquerdas?), os jogos das cidades (poderiam ser os interesses e as guerras fiscais entre sudeste-sul e norte- nordeste?), a prociss\u00e3o do s\u00e1bio (alguma semelhan\u00e7a com algu\u00e9m e o seu s\u00e9quito?) e a dan\u00e7a da terra (as invas\u00f5es, os crimes e a impunidade?).<br \/>\nEspero que esta analogia n\u00e3o se configure tamb\u00e9m na segunda e \u00faltima parte da composi\u00e7\u00e3o de Stravinsky que \u00e9 iniciada com o sacrif\u00edcio (seria o nosso holocausto?) e conclu\u00edda com a dan\u00e7a do sacrif\u00edcio (seria a vingan\u00e7a dos \u201csem, sem\u201d com a dan\u00e7a dos \u201ccom, com?\u201d).<br \/>\nStravinsky e analogia \u00e0 parte, o brasileiro j\u00e1 vive a dan\u00e7a do sacrif\u00edcio h\u00e1 muito tempo e se penitencia, talvez, da insensatez coletiva que permite a elei\u00e7\u00e3o e reelei\u00e7\u00e3o de muitos pol\u00edticos corruptos, despreparados ou maquiavelicamente geniais que se contrap\u00f5em a uns tantos capazes e honestos que, pouco ou quase nada, conseguiram nesta d\u00e9cada findante.<br \/>\nVit\u00f3rias a comemorar? Quais? N\u00e3o se sabe ainda como o pa\u00eds e a Na\u00e7\u00e3o reagir\u00e3o aos direitos, encargos e diretrizes da globaliza\u00e7\u00e3o, nome que pode ser t\u00e3o ef\u00eamero quanto o tempo que medeia uma e outra esta\u00e7\u00e3o. \u00cb bom lembrar que a esta\u00e7\u00e3o que antecede \u00e0 primavera \u00e9 o inverno, sem esquecer que ela \u00e9 substitu\u00edda pelo ver\u00e3o, \u00e9poca sujeita a chuvas e trovoadas, especialmente em pa\u00edses tropicais e bonitos por natureza.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 29\/08\/1999<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que h\u00e1 algumas semanas os caminhoneiros se reuniram-extremamente bem coordenados, diga-se de passagem &#8211; para a sua greve geral que se fala em crise institucional. De repente, na quinta-feira passada, outro grande movimento, o dos sem terra, segundo muitos, e dos sem rumo, segundo FHC, mexeu com o cora\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia e escancarou a situa\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\nEnquanto isso, no sul e sudeste, aproxima-se a primavera e, segundo os arautos de sempre, o Brasil, em breve, entrar\u00e1 nos eixos. \u00c9 bom lembrar que o 05 de outubro \u00e9 nada mais, nada menos, que o \u201cDia da Ave\u201d, segundo o calend\u00e1rio c\u00edvico-hist\u00f3rico brasileiro. Os p\u00e1ssaros ficar\u00e3o felizes pela escolha, quem sabe, do seu dia para o an\u00fancio do fim dos problemas brasileiros. E voar\u00e3o em rasantes sobre a Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes. Quem acredita em Nostradamus pode acreditar em tudo.<br \/>\nPara quem mora por estas bandas do Brasil, onde as esta\u00e7\u00f5es se resumem a sol e chuva, ou seca e enchente, a coisa at\u00e9 parece piada. Como parece piada a discuss\u00e3o sobre globaliza\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 empresa nacional, pois parte das maiores das daqui, se n\u00e3o tivessem sido assistidas com o dinheiro farto e generoso dos incentivos fiscais e dos rombos em bancos estatais, pouco mais seriam que espectros.<br \/>\nPor tudo isso \u00e9 que fiz, mesmo sem entender de m\u00fasica erudita, uma analogia entre as promessas da primavera, do governo e a obra musical \u201cA Sagra\u00e7\u00e3o da Primavera\u201d, de Igor Stravinsky. Recebida como um verdadeiro esc\u00e2ndalo quando de sua estr\u00e9ia na primavera de 1913, em Paris, sua for\u00e7a foi tamanha que passou a influir na mudan\u00e7a da postura cultural da \u00e9poca e o choque produzido mexeu com as classes dominantes de ent\u00e3o que, estupefatas, a ouviam no Teatro dos Campos El\u00edseos.<br \/>\n\u00c9 prov\u00e1vel que a analogia que me proponho a fazer se prenda ao pr\u00f3prio conte\u00fado da pe\u00e7a musical que se comp\u00f5e de duas partes. O governo atual tamb\u00e9m tem duas partes, a antes do in\u00edcio do segundo mandato em janeiro de 1999 e a que veio depois.<br \/>\nVoltemos \u00e0 Strasvinsky. A primeira parte da pe\u00e7a \u00e9 a Adora\u00e7\u00e3o da Terra (seriam a defesa intransigente dos ruralistas e a a\u00e7\u00e3o constante dos sem terra?), em que \u00e9 descrita o renascimento da natureza (seria o respeito ao meio ambiente ou o aproveitamento de terras improdutivas?), os aug\u00farios da primavera: dan\u00e7a das adolescentes (seriam as esperan\u00e7as e os dramas da nossa jovem democracia?), os jogos de captura (seriam os jogos de poder entre os do governo e as esquerdas?), os jogos das cidades (poderiam ser os interesses e as guerras fiscais entre sudeste-sul e norte- nordeste?), a prociss\u00e3o do s\u00e1bio (alguma semelhan\u00e7a com algu\u00e9m e o seu s\u00e9quito?) e a dan\u00e7a da terra (as invas\u00f5es, os crimes e a impunidade?).<br \/>\nEspero que esta analogia n\u00e3o se configure tamb\u00e9m na segunda e \u00faltima parte da composi\u00e7\u00e3o de Stravinsky que \u00e9 iniciada com o sacrif\u00edcio (seria o nosso holocausto?) e conclu\u00edda com a dan\u00e7a do sacrif\u00edcio (seria a vingan\u00e7a dos \u201csem, sem\u201d com a dan\u00e7a dos \u201ccom, com?\u201d).<br \/>\nStravinsky e analogia \u00e0 parte, o brasileiro j\u00e1 vive a dan\u00e7a do sacrif\u00edcio h\u00e1 muito tempo e se penitencia, talvez, da insensatez coletiva que permite a elei\u00e7\u00e3o e reelei\u00e7\u00e3o de muitos pol\u00edticos corruptos, despreparados ou maquiavelicamente geniais que se contrap\u00f5em a uns tantos capazes e honestos que, pouco ou quase nada, conseguiram nesta d\u00e9cada findante.<br \/>\nVit\u00f3rias a comemorar? Quais? N\u00e3o se sabe ainda como o pa\u00eds e a Na\u00e7\u00e3o reagir\u00e3o aos direitos, encargos e diretrizes da globaliza\u00e7\u00e3o, nome que pode ser t\u00e3o ef\u00eamero quanto o tempo que medeia uma e outra esta\u00e7\u00e3o. \u00cb bom lembrar que a esta\u00e7\u00e3o que antecede \u00e0 primavera \u00e9 o inverno, sem esquecer que ela \u00e9 substitu\u00edda pelo ver\u00e3o, \u00e9poca sujeita a chuvas e trovoadas, especialmente em pa\u00edses tropicais e bonitos por natureza.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 29\/08\/1999<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3879","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3879","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3879"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3879\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}