{"id":3880,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/carta-anonima\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"carta-anonima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/carta-anonima\/","title":{"rendered":"CARTA AN\u00d4NIMA"},"content":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m me telefona do sul do pa\u00eds e pergunta o que fazer com uma carta an\u00f4nima. Respondo, sem titubear: deix\u00e1-la an\u00f4nima, n\u00e3o passar o recibo que o seu autor ou autores desejam.<br \/>\nSegundo Arist\u00f3teles, a coragem \u00e9 a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras. Quem n\u00e3o tem coragem, utiliza, por exemplo, o recurso da carta an\u00f4nima.<br \/>\nH\u00e1 uma corrente psicanal\u00edtica que considera a carta an\u00f4nima uma coisa abjeta. Quem escreve uma carta an\u00f4nima, no m\u00ednimo, tem medo de mostrar a sua cara, deixando patente, segundo essa corrente, a sua pequenez.<br \/>\nNingu\u00e9m e nenhuma institui\u00e7\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o fortes que n\u00e3o possam ser enfrentados. Se voc\u00ea se sente fraco, impotente, procure algu\u00e9m para lhe aconselhar e respaldar. Una-se \u00e0 sua associa\u00e7\u00e3o de classe, procure a pol\u00edcia, um advogado, a imprensa ou a justi\u00e7a. Agora, escrever carta an\u00f4nima \u00e9 um recurso absolutamente descabido e in\u00f3cuo. Ningu\u00e9m pode ou deve acreditar em pessoas que n\u00e3o t\u00eam coragem de defender os seus pontos de vista e usar o seu pr\u00f3prio nome ou, se for o caso, do grupo ou institui\u00e7\u00e3o que integra.<br \/>\nImaginemos que uma pessoa A n\u00e3o goste da pessoa B e n\u00e3o tenha coragem de enfrent\u00e1-la. Ser\u00e1 muito f\u00e1cil dizer cobras e lagartos de B, utilizando-se do recurso do anonimato. Da mesma forma, se algumas pessoas, em bloco, se julgam prejudicadas, estabele\u00e7am uma estrat\u00e9gia e mostrem a sua identidade. Quem n\u00e3o aparece e n\u00e3o tem coragem de enfrentar o advers\u00e1rio n\u00e3o merece f\u00e9.<br \/>\nA carta an\u00f4nima \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o antiga, usada, segundo especialistas, via de regra, por pessoas invejosas, recalcadas e que se comprazem em denegrir, sem provas, a honra alheia, quase sempre constru\u00edda a custa de muitos sacrif\u00edcios. Ora, como acreditar em quem tem medo de aparecer? O argumento de que a pessoa denunciada tenha um aparato para defend\u00ea-la n\u00e3o procede. O Presidente Collor foi apeado do Poder porque os seus denunciantes tinham nomes e assumiram suas acusa\u00e7\u00f5es. Um dos denunciantes era um simples motorista.<br \/>\nViver \u00e9 correr riscos. O autor da carta an\u00f4nima, quando n\u00e3o identificado \u2013 o que quase sempre acontece pelas pistas que deixa \u2013 n\u00e3o corre risco nenhum e pode jogar lama nos outros de uma forma conden\u00e1vel para ver se fica alguma sujeira.<br \/>\n\u201cNingu\u00e9m pode usar m\u00e1scara por muito tempo\u201d, j\u00e1 dizia S\u00eaneca. \u00c9 por isso que os autores de cartas an\u00f4nimas, mais cedo ou mais tarde, s\u00e3o identificados. Principalmente agora que a tecnologia funciona junto com a criminal\u00edstica na elucida\u00e7\u00e3o do que se imagina secreto.<br \/>\nQuem j\u00e1 foi alvo de alguma carta an\u00f4nima sabe o quanto \u00e9 desconfort\u00e1vel n\u00e3o identificar a pessoa que est\u00e1 lhe assacando improp\u00e9rios. Aquele que tem ind\u00edcios ou provas, pesquisa, mostra, desmascara, enfrenta, denuncia ou utiliza a imprensa que est\u00e1 ai sequiosa por not\u00edcias e manchetes.<br \/>\nAo receber uma carta an\u00f4nima n\u00e3o a propague. Jogue-a no lixo. Se voc\u00ea ainda n\u00e3o \u00e9, poder\u00e1 ser a pr\u00f3xima v\u00edtima e, nessa ocasi\u00e3o, n\u00e3o estar\u00e1 rindo da desgra\u00e7a alheia. Ficar\u00e1 at\u00f4nito e amaldi\u00e7oar\u00e1 quem utiliza tal expediente torpe.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/09\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m me telefona do sul do pa\u00eds e pergunta o que fazer com uma carta an\u00f4nima. Respondo, sem titubear: deix\u00e1-la an\u00f4nima, n\u00e3o passar o recibo que o seu autor ou autores desejam.<br \/>\nSegundo Arist\u00f3teles, a coragem \u00e9 a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras. Quem n\u00e3o tem coragem, utiliza, por exemplo, o recurso da carta an\u00f4nima.<br \/>\nH\u00e1 uma corrente psicanal\u00edtica que considera a carta an\u00f4nima uma coisa abjeta. Quem escreve uma carta an\u00f4nima, no m\u00ednimo, tem medo de mostrar a sua cara, deixando patente, segundo essa corrente, a sua pequenez.<br \/>\nNingu\u00e9m e nenhuma institui\u00e7\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o fortes que n\u00e3o possam ser enfrentados. Se voc\u00ea se sente fraco, impotente, procure algu\u00e9m para lhe aconselhar e respaldar. Una-se \u00e0 sua associa\u00e7\u00e3o de classe, procure a pol\u00edcia, um advogado, a imprensa ou a justi\u00e7a. Agora, escrever carta an\u00f4nima \u00e9 um recurso absolutamente descabido e in\u00f3cuo. Ningu\u00e9m pode ou deve acreditar em pessoas que n\u00e3o t\u00eam coragem de defender os seus pontos de vista e usar o seu pr\u00f3prio nome ou, se for o caso, do grupo ou institui\u00e7\u00e3o que integra.<br \/>\nImaginemos que uma pessoa A n\u00e3o goste da pessoa B e n\u00e3o tenha coragem de enfrent\u00e1-la. Ser\u00e1 muito f\u00e1cil dizer cobras e lagartos de B, utilizando-se do recurso do anonimato. Da mesma forma, se algumas pessoas, em bloco, se julgam prejudicadas, estabele\u00e7am uma estrat\u00e9gia e mostrem a sua identidade. Quem n\u00e3o aparece e n\u00e3o tem coragem de enfrentar o advers\u00e1rio n\u00e3o merece f\u00e9.<br \/>\nA carta an\u00f4nima \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o antiga, usada, segundo especialistas, via de regra, por pessoas invejosas, recalcadas e que se comprazem em denegrir, sem provas, a honra alheia, quase sempre constru\u00edda a custa de muitos sacrif\u00edcios. Ora, como acreditar em quem tem medo de aparecer? O argumento de que a pessoa denunciada tenha um aparato para defend\u00ea-la n\u00e3o procede. O Presidente Collor foi apeado do Poder porque os seus denunciantes tinham nomes e assumiram suas acusa\u00e7\u00f5es. Um dos denunciantes era um simples motorista.<br \/>\nViver \u00e9 correr riscos. O autor da carta an\u00f4nima, quando n\u00e3o identificado \u2013 o que quase sempre acontece pelas pistas que deixa \u2013 n\u00e3o corre risco nenhum e pode jogar lama nos outros de uma forma conden\u00e1vel para ver se fica alguma sujeira.<br \/>\n\u201cNingu\u00e9m pode usar m\u00e1scara por muito tempo\u201d, j\u00e1 dizia S\u00eaneca. \u00c9 por isso que os autores de cartas an\u00f4nimas, mais cedo ou mais tarde, s\u00e3o identificados. Principalmente agora que a tecnologia funciona junto com a criminal\u00edstica na elucida\u00e7\u00e3o do que se imagina secreto.<br \/>\nQuem j\u00e1 foi alvo de alguma carta an\u00f4nima sabe o quanto \u00e9 desconfort\u00e1vel n\u00e3o identificar a pessoa que est\u00e1 lhe assacando improp\u00e9rios. Aquele que tem ind\u00edcios ou provas, pesquisa, mostra, desmascara, enfrenta, denuncia ou utiliza a imprensa que est\u00e1 ai sequiosa por not\u00edcias e manchetes.<br \/>\nAo receber uma carta an\u00f4nima n\u00e3o a propague. Jogue-a no lixo. Se voc\u00ea ainda n\u00e3o \u00e9, poder\u00e1 ser a pr\u00f3xima v\u00edtima e, nessa ocasi\u00e3o, n\u00e3o estar\u00e1 rindo da desgra\u00e7a alheia. Ficar\u00e1 at\u00f4nito e amaldi\u00e7oar\u00e1 quem utiliza tal expediente torpe.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/09\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3880","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3880","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3880"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3880\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3880"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3880"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3880"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}