{"id":3881,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/novos-microcontos\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"novos-microcontos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/novos-microcontos\/","title":{"rendered":"NOVOS MICROCONTOS"},"content":{"rendered":"<p>Quando tive a coragem de publicar 12 microcontos neste espa\u00e7o, fiquei t\u00e3o at\u00f4nito que at\u00e9 meu e-mail forneci para receber opini\u00f5es. Foram v\u00e1rias e, gra\u00e7as a Deus, sempre favor\u00e1veis. Banc\u00e1rio, advogado, psicanalista, m\u00e9dico, pedagogo e jornalista (imaginem) foram algumas das profiss\u00f5es de pessoas que, n\u00e3o s\u00f3 gostaram, mas pediram para escrever mais alguns. Aproveito este espa\u00e7o liliputiano com tipo de letra consorciado a oftalmologistas e \u00f3ticas, para, apropriadamente, publicar mais alguns microcontos.<br \/>\nMC 01<br \/>\nOs g\u00eameos univitelinos eram econ\u00f4micos. Uma s\u00f3 casa, um s\u00f3 carro, um retrato 3X4 para os dois, uma s\u00f3 mulher e um vizinho muito atuante.<br \/>\nMC 02<br \/>\nDeu na televis\u00e3o. Um brasileiro, afinal, poderia ganhar o Pr\u00eamio Nobel da Paz por ter matado um grupo de brancos que dizimara uma tribo de \u00edndios.<br \/>\nMC 03<br \/>\nTinha consci\u00eancia de sua falsidade e isso o machucava. Subiu no palanque, abriu o sorriso, fez o discurso e se julgou eleito pelo povo.<br \/>\nMC 04<br \/>\nVi\u00fava recente. Os bons costumes pediam recato. Telefonou, pediu uma pizza e entregou-se ao entregador na cama do falecido.<br \/>\nMC 05<br \/>\nVail, Colorado. Os esquis ca\u00edram. A neve a cobria, lentamente, at\u00e9 o pesco\u00e7o. Gritou e a avalanche chegou em resposta.<br \/>\nMC 06<br \/>\nHospital cheio e o jovem m\u00e9dico atendia pacientemente a mo\u00e7a estuprada. Limpava o sangue e o seu sangue fervia. Tomou um calmante e deu uma canelada na maca.<br \/>\nMC 07<br \/>\nPois n\u00e3o \u00e9 que descobriram umas cartas da Hillary para a M\u00f4nica reclamando de sua falta de amor ao Bill. Hillary, indignada, dizia n\u00e3o entender a trai\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica.<br \/>\nMC 08<br \/>\nNo interior do submarino ele temia ler a carta da m\u00e3e. Criou coragem e leu que seu casamento dera \u00e1gua. Sua mulher acabara de fugir com um vendedor de aqu\u00e1rios.<\/p>\n<p>MC 09<br \/>\nEstava com fome e n\u00e3o tinha dinheiro. Trocou a roupa do corpo por um sandu\u00edche. Teve botulismo e o corpo pagou.<br \/>\nMC 10<br \/>\nAjustou os \u00f3culos novos. Enxergou o que n\u00e3o via antes: a mis\u00e9ria de sua casa, a pobreza de sua favela e a fealdade do seu rosto. Matou o oculista.<br \/>\nMC 11<br \/>\nEra carnaval. T\u00edmido, usava m\u00e1scara. Encontrou-se perdido no meio da multid\u00e3o abra\u00e7ado a um gay. Gostou. Rasgou a m\u00e1scara.<br \/>\nMC 12<br \/>\nNo curso da invas\u00e3o de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao ch\u00e3o, o rifle tombou e ela tomou posse dele.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/09\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando tive a coragem de publicar 12 microcontos neste espa\u00e7o, fiquei t\u00e3o at\u00f4nito que at\u00e9 meu e-mail forneci para receber opini\u00f5es. Foram v\u00e1rias e, gra\u00e7as a Deus, sempre favor\u00e1veis. Banc\u00e1rio, advogado, psicanalista, m\u00e9dico, pedagogo e jornalista (imaginem) foram algumas das profiss\u00f5es de pessoas que, n\u00e3o s\u00f3 gostaram, mas pediram para escrever mais alguns. Aproveito este espa\u00e7o liliputiano com tipo de letra consorciado a oftalmologistas e \u00f3ticas, para, apropriadamente, publicar mais alguns microcontos.<br \/>\nMC 01<br \/>\nOs g\u00eameos univitelinos eram econ\u00f4micos. Uma s\u00f3 casa, um s\u00f3 carro, um retrato 3X4 para os dois, uma s\u00f3 mulher e um vizinho muito atuante.<br \/>\nMC 02<br \/>\nDeu na televis\u00e3o. Um brasileiro, afinal, poderia ganhar o Pr\u00eamio Nobel da Paz por ter matado um grupo de brancos que dizimara uma tribo de \u00edndios.<br \/>\nMC 03<br \/>\nTinha consci\u00eancia de sua falsidade e isso o machucava. Subiu no palanque, abriu o sorriso, fez o discurso e se julgou eleito pelo povo.<br \/>\nMC 04<br \/>\nVi\u00fava recente. Os bons costumes pediam recato. Telefonou, pediu uma pizza e entregou-se ao entregador na cama do falecido.<br \/>\nMC 05<br \/>\nVail, Colorado. Os esquis ca\u00edram. A neve a cobria, lentamente, at\u00e9 o pesco\u00e7o. Gritou e a avalanche chegou em resposta.<br \/>\nMC 06<br \/>\nHospital cheio e o jovem m\u00e9dico atendia pacientemente a mo\u00e7a estuprada. Limpava o sangue e o seu sangue fervia. Tomou um calmante e deu uma canelada na maca.<br \/>\nMC 07<br \/>\nPois n\u00e3o \u00e9 que descobriram umas cartas da Hillary para a M\u00f4nica reclamando de sua falta de amor ao Bill. Hillary, indignada, dizia n\u00e3o entender a trai\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica.<br \/>\nMC 08<br \/>\nNo interior do submarino ele temia ler a carta da m\u00e3e. Criou coragem e leu que seu casamento dera \u00e1gua. Sua mulher acabara de fugir com um vendedor de aqu\u00e1rios.<\/p>\n<p>MC 09<br \/>\nEstava com fome e n\u00e3o tinha dinheiro. Trocou a roupa do corpo por um sandu\u00edche. Teve botulismo e o corpo pagou.<br \/>\nMC 10<br \/>\nAjustou os \u00f3culos novos. Enxergou o que n\u00e3o via antes: a mis\u00e9ria de sua casa, a pobreza de sua favela e a fealdade do seu rosto. Matou o oculista.<br \/>\nMC 11<br \/>\nEra carnaval. T\u00edmido, usava m\u00e1scara. Encontrou-se perdido no meio da multid\u00e3o abra\u00e7ado a um gay. Gostou. Rasgou a m\u00e1scara.<br \/>\nMC 12<br \/>\nNo curso da invas\u00e3o de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao ch\u00e3o, o rifle tombou e ela tomou posse dele.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 12\/09\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3881","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3881"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3881\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}