{"id":3882,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tolerancia-2\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"tolerancia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/tolerancia-2\/","title":{"rendered":"TOLER\u00c2NCIA"},"content":{"rendered":"<p>A conviv\u00eancia social nos obriga a ser tolerante. Engolir sapos \u00e9 uma arte que vamos aprendendo ao longo de nossas vidas. Come\u00e7amos a ser tolerantes com os pais que, desde cedo, na \u00e2nsia de nos transformar em \u201cgente\u201d, nos obrigam a seguir hor\u00e1rios, tomar banhos, ir \u00e0 escola, cortar cabelos e unhas, comer o que n\u00e3o queremos, respeitar os mais velhos, aguentar o chato do irm\u00e3o, tomar rem\u00e9dios que nos tornar\u00e3o fortes e saud\u00e1veis, rezar para pedir perd\u00e3o (de qu\u00ea?) a Deus etc.<br \/>\nNa escola ficamos horas e horas ouvindo professores falarem, muitas vezes sobre coisas que n\u00e3o nos interessam. Apesar disso, al\u00e9m da toler\u00e2ncia em assistir aulas enfadonhas, passamos a estudar mat\u00e9rias chatas e com pouco ou nada a ver conosco. Em outras palavras, devemos ser bons em assuntos que n\u00e3o s\u00e3o bons para n\u00f3s. Muita gente dir\u00e1 que as crian\u00e7as e os adolescentes ainda n\u00e3o t\u00eam a capacidade de saber o que \u00e9 importante ou bom para os seus futuros e \u00e9 preciso colocar muitas informa\u00e7\u00f5es em suas cabe\u00e7as, na ilus\u00e3o de que isso possa se transformar em conhecimento.<br \/>\nN\u00e3o concordo com essa ideia. Desde cedo dever\u00edamos estudar aquilo que nos atrai, agu\u00e7a a curiosidade e mexe com a intelig\u00eancia. Sei, por outro lado, que \u00e9 preciso de um instrumental b\u00e1sico, a partir do qual se pode ir estudando com prazer. Sei tamb\u00e9m que h\u00e1 um conjunto de regras sociais necess\u00e1rias \u00e0 conviv\u00eancia.<br \/>\nTudo isso n\u00e3o deve invalidar o prazer de estudar. Esse \u00e9 um dado que professores e pedagogos parecem levar pouco em conta. Se isso \u00e9 verdade, eles n\u00e3o estar\u00e3o sendo tolerantes com crian\u00e7as e adolescentes que precisam est\u00edmulos e emula\u00e7\u00f5es para acordar cedo, cumprir hor\u00e1rios e ter regras de vida. A escola deve atrair o aluno, ser prazeirosa, alegre e receptiva.<br \/>\nH\u00e1 um equ\u00edvoco muito grande dos pais em imaginar que as escolas far\u00e3o de seus filhos os geniozinhos desejados. Seu filho querido \u00e9, via de regra, apenas um no meio de dezenas de outros. Voc\u00ea \u00e9 que deve ser tolerante com ele. Ouvir suas queixas, entender suas rea\u00e7\u00f5es com os colegas e professores e lhe mostrar o mundo n\u00e3o como uma vers\u00e3o de Walter Disney ou de Federico Fellini, mas esse mundo real em que os contr\u00e1rios t\u00eam que conviver e aprender que a toler\u00e2ncia \u00e9 sempre um grande aval de boas maneiras nessa vida competitiva e pluralista.<br \/>\nEntranhe-se com seu filho, ao inv\u00e9s de estranhe-se. Misture-se, envolva-se, participe e acredite no potencial dele, sem endeus\u00e1-lo, mas o aceitando como uma pessoa aut\u00f4noma que n\u00e3o \u00e9 um clone seu. O DNA n\u00e3o \u00e9 tudo. O amor, a compreens\u00e3o e a toler\u00e2ncia s\u00e3o ferramentas para torn\u00e1-lo forte, sem que perca a sensibilidade t\u00e3o necess\u00e1ria ao equil\u00edbrio emocional indispens\u00e1vel aos embates que ter\u00e1 por toda a sua vida.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/09\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A conviv\u00eancia social nos obriga a ser tolerante. Engolir sapos \u00e9 uma arte que vamos aprendendo ao longo de nossas vidas. Come\u00e7amos a ser tolerantes com os pais que, desde cedo, na \u00e2nsia de nos transformar em \u201cgente\u201d, nos obrigam a seguir hor\u00e1rios, tomar banhos, ir \u00e0 escola, cortar cabelos e unhas, comer o que n\u00e3o queremos, respeitar os mais velhos, aguentar o chato do irm\u00e3o, tomar rem\u00e9dios que nos tornar\u00e3o fortes e saud\u00e1veis, rezar para pedir perd\u00e3o (de qu\u00ea?) a Deus etc.<br \/>\nNa escola ficamos horas e horas ouvindo professores falarem, muitas vezes sobre coisas que n\u00e3o nos interessam. Apesar disso, al\u00e9m da toler\u00e2ncia em assistir aulas enfadonhas, passamos a estudar mat\u00e9rias chatas e com pouco ou nada a ver conosco. Em outras palavras, devemos ser bons em assuntos que n\u00e3o s\u00e3o bons para n\u00f3s. Muita gente dir\u00e1 que as crian\u00e7as e os adolescentes ainda n\u00e3o t\u00eam a capacidade de saber o que \u00e9 importante ou bom para os seus futuros e \u00e9 preciso colocar muitas informa\u00e7\u00f5es em suas cabe\u00e7as, na ilus\u00e3o de que isso possa se transformar em conhecimento.<br \/>\nN\u00e3o concordo com essa ideia. Desde cedo dever\u00edamos estudar aquilo que nos atrai, agu\u00e7a a curiosidade e mexe com a intelig\u00eancia. Sei, por outro lado, que \u00e9 preciso de um instrumental b\u00e1sico, a partir do qual se pode ir estudando com prazer. Sei tamb\u00e9m que h\u00e1 um conjunto de regras sociais necess\u00e1rias \u00e0 conviv\u00eancia.<br \/>\nTudo isso n\u00e3o deve invalidar o prazer de estudar. Esse \u00e9 um dado que professores e pedagogos parecem levar pouco em conta. Se isso \u00e9 verdade, eles n\u00e3o estar\u00e3o sendo tolerantes com crian\u00e7as e adolescentes que precisam est\u00edmulos e emula\u00e7\u00f5es para acordar cedo, cumprir hor\u00e1rios e ter regras de vida. A escola deve atrair o aluno, ser prazeirosa, alegre e receptiva.<br \/>\nH\u00e1 um equ\u00edvoco muito grande dos pais em imaginar que as escolas far\u00e3o de seus filhos os geniozinhos desejados. Seu filho querido \u00e9, via de regra, apenas um no meio de dezenas de outros. Voc\u00ea \u00e9 que deve ser tolerante com ele. Ouvir suas queixas, entender suas rea\u00e7\u00f5es com os colegas e professores e lhe mostrar o mundo n\u00e3o como uma vers\u00e3o de Walter Disney ou de Federico Fellini, mas esse mundo real em que os contr\u00e1rios t\u00eam que conviver e aprender que a toler\u00e2ncia \u00e9 sempre um grande aval de boas maneiras nessa vida competitiva e pluralista.<br \/>\nEntranhe-se com seu filho, ao inv\u00e9s de estranhe-se. Misture-se, envolva-se, participe e acredite no potencial dele, sem endeus\u00e1-lo, mas o aceitando como uma pessoa aut\u00f4noma que n\u00e3o \u00e9 um clone seu. O DNA n\u00e3o \u00e9 tudo. 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