{"id":3885,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ser-crianca\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"ser-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ser-crianca\/","title":{"rendered":"SER CRIAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 faz muito tempo. Eu era crian\u00e7a quando se podia ir \u00e0 escola a p\u00e9 ou de \u00f4nibus, ficar brincando na pra\u00e7a perto de casa sem ningu\u00e9m importunar, jogar futebol com bola de pito.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando se acordava cedo, orava, tomava banho, vestia a farda, bebia-se caf\u00e9 com leite e p\u00e3o com manteiga ou uma vitamina onde a banana era o carro chefe, levava-se merenda e voltava faminto para almo\u00e7ar. Mas se aguardava a chegada do pai.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando se colecionava carteira de cigarros, fl\u00e2mulas, l\u00e1pis, moedas, cart\u00f5es postais, \u00e1lbuns com artistas de cinema e jogadores de futebol. Jogava-se tri\u00e2ngulo, bila, que depois virou bola de gude, soltava-se arraia, que mudou para pipa, e todo menino tinha um time de bot\u00e3o cujo melhor jogador, n\u00e3o sei porque, era sempre o \u201cPaulo Caminha\u201d.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando quiseram me ensinar a escrever com a m\u00e3o direita. N\u00e3o aceitei. At\u00e9 hoje continuo usando a m\u00e3o esquerda para tudo e a direita para quase nada.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando minha m\u00e3e queria mandar uma empregada me levar ao col\u00e9gio segurando minha m\u00e3o. N\u00e3o concordei. Fizemos um armist\u00edcio: a empregada iria pelo outro lado da cal\u00e7ada.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando um diretor de escola puxou a minha orelha porque me atrasei no recreio. Joguei o refresco que estava tomando em seu corpo, pedi para falar com o meu pai e disse que n\u00e3o ficaria mais ali. Ele concordou.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando se marchava no dia 7 de setembro puxando carneirinhos ou com caixas de sapato \u00e0s costas, cobertas de papel branco com uma cruz vermelha, como se f\u00f4ssemos enfermeiros.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando no carnaval havia corso, as pessoas passeavam em caminh\u00f5es e carros convers\u00edveis, sentavam nos para-lamas ou pisavam nos para-choques. Jogavam-se talco, serpentina, confete e dois tipos de lan\u00e7a-perfumes, um dourado e outro de vidro.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando a praia ainda se fazia distante, pois a cidade lhe dava as costas. N\u00e3o havia edif\u00edcios e os pescadores misturavam-se aos banhistas. Os cal\u00e7\u00f5es eram frouxos, a areia era branca, limpa e boa para jogar futebol, v\u00f4lei ou frescobol.<br \/>\nEu era crian\u00e7a, imaginem, de rezar o ter\u00e7o, das missas aos domingos, ir \u00e0s lojas com minha m\u00e3e, acompanhar prociss\u00f5es, comungar \u00e0s primeiras sextas feiras de cada m\u00eas, mas n\u00e3o deixava de aprender jiu-jitsu.<br \/>\nHoje, j\u00e1 n\u00e3o sei bem o que \u00e9 ser crian\u00e7a. Acompanhei, passo a passo, a vida de minhas filhas, desde o pr\u00e9-natal. Agora, meio sem jeito e sentindo que estou como que sobrando, tento me misturar com duas pequeninas netas. Mas, n\u00e3o sei mais, de verdade, o que \u00e9 ser crian\u00e7a Nem sei que presentes dar no Dia das Crian\u00e7as. As op\u00e7\u00f5es s\u00e3o tantas e nada parece ser novidade.<br \/>\nN\u00e3o gosto do \u201cno meu tempo\u201d. Cada tempo tem suas pr\u00f3prias cores e vida e as cores e a vida de hoje resplandecem de outra forma. N\u00e3o sou e nem pretendi ser saudosista, quis apenas lembrar o que, \u00e0 \u00e9poca, se fazia com alegria e simplicidade que, talvez, fossem, para os de ent\u00e3o, a ess\u00eancia da felicidade.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 10\/10\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 faz muito tempo. Eu era crian\u00e7a quando se podia ir \u00e0 escola a p\u00e9 ou de \u00f4nibus, ficar brincando na pra\u00e7a perto de casa sem ningu\u00e9m importunar, jogar futebol com bola de pito.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando se acordava cedo, orava, tomava banho, vestia a farda, bebia-se caf\u00e9 com leite e p\u00e3o com manteiga ou uma vitamina onde a banana era o carro chefe, levava-se merenda e voltava faminto para almo\u00e7ar. Mas se aguardava a chegada do pai.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando se colecionava carteira de cigarros, fl\u00e2mulas, l\u00e1pis, moedas, cart\u00f5es postais, \u00e1lbuns com artistas de cinema e jogadores de futebol. Jogava-se tri\u00e2ngulo, bila, que depois virou bola de gude, soltava-se arraia, que mudou para pipa, e todo menino tinha um time de bot\u00e3o cujo melhor jogador, n\u00e3o sei porque, era sempre o \u201cPaulo Caminha\u201d.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando quiseram me ensinar a escrever com a m\u00e3o direita. N\u00e3o aceitei. At\u00e9 hoje continuo usando a m\u00e3o esquerda para tudo e a direita para quase nada.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando minha m\u00e3e queria mandar uma empregada me levar ao col\u00e9gio segurando minha m\u00e3o. N\u00e3o concordei. Fizemos um armist\u00edcio: a empregada iria pelo outro lado da cal\u00e7ada.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando um diretor de escola puxou a minha orelha porque me atrasei no recreio. Joguei o refresco que estava tomando em seu corpo, pedi para falar com o meu pai e disse que n\u00e3o ficaria mais ali. Ele concordou.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando se marchava no dia 7 de setembro puxando carneirinhos ou com caixas de sapato \u00e0s costas, cobertas de papel branco com uma cruz vermelha, como se f\u00f4ssemos enfermeiros.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando no carnaval havia corso, as pessoas passeavam em caminh\u00f5es e carros convers\u00edveis, sentavam nos para-lamas ou pisavam nos para-choques. Jogavam-se talco, serpentina, confete e dois tipos de lan\u00e7a-perfumes, um dourado e outro de vidro.<br \/>\nEu era crian\u00e7a quando a praia ainda se fazia distante, pois a cidade lhe dava as costas. N\u00e3o havia edif\u00edcios e os pescadores misturavam-se aos banhistas. Os cal\u00e7\u00f5es eram frouxos, a areia era branca, limpa e boa para jogar futebol, v\u00f4lei ou frescobol.<br \/>\nEu era crian\u00e7a, imaginem, de rezar o ter\u00e7o, das missas aos domingos, ir \u00e0s lojas com minha m\u00e3e, acompanhar prociss\u00f5es, comungar \u00e0s primeiras sextas feiras de cada m\u00eas, mas n\u00e3o deixava de aprender jiu-jitsu.<br \/>\nHoje, j\u00e1 n\u00e3o sei bem o que \u00e9 ser crian\u00e7a. Acompanhei, passo a passo, a vida de minhas filhas, desde o pr\u00e9-natal. Agora, meio sem jeito e sentindo que estou como que sobrando, tento me misturar com duas pequeninas netas. Mas, n\u00e3o sei mais, de verdade, o que \u00e9 ser crian\u00e7a Nem sei que presentes dar no Dia das Crian\u00e7as. As op\u00e7\u00f5es s\u00e3o tantas e nada parece ser novidade.<br \/>\nN\u00e3o gosto do \u201cno meu tempo\u201d. Cada tempo tem suas pr\u00f3prias cores e vida e as cores e a vida de hoje resplandecem de outra forma. N\u00e3o sou e nem pretendi ser saudosista, quis apenas lembrar o que, \u00e0 \u00e9poca, se fazia com alegria e simplicidade que, talvez, fossem, para os de ent\u00e3o, a ess\u00eancia da felicidade.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 10\/10\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3885","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3885"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3885\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}