{"id":3888,"date":"2023-12-21T09:10:56","date_gmt":"2023-12-21T12:10:56","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/construtor-de-sonhos\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:56","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:56","slug":"construtor-de-sonhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/construtor-de-sonhos\/","title":{"rendered":"CONSTRUTOR DE SONHOS"},"content":{"rendered":"<p>Sonhei que eu era um construtor de sonhos. Amo sonhar o imposs\u00edvel, como diria Goethe. Um menino nascido em meio a uma realidade dura, tentando transform\u00e1-la, aben\u00e7oado por Deus, pela esperan\u00e7a, por pessoas e pelos ventos dos tempos.<br \/>\nNesse sonho, entre os bocejos da noite e o espargir da aurora, cuidei de plantar. Preparei o solo, eu que nem de terra entendo, adubei-a com o sal do suor, misturado a raras, mas sofridas l\u00e1grimas e a reguei com afinco, como se fora uma chuva fina e constante que molha, mas n\u00e3o encharca.<br \/>\nSonhei que n\u00e3o acreditavam no meu plantio, mas n\u00e3o sabiam que as sementes tinham na sua composi\u00e7\u00e3o as qualidades do destemor e da perseveran\u00e7a e, se pareciam fenecer, era apenas o entretempo certo ao desabrochar radioso. E eu jardineiro estava ali presente, sempre. Os jardineiros t\u00eam as m\u00e3os marcadas por espinhos, mas n\u00e3o perdem a sensibilidade, nunca.<br \/>\nRaras sementes e a espera, ap\u00f3s a rega, se fizeram demorar, pois n\u00e3o eram couves, imaginavam-se bambus, poucos que fossem. E furaram a terra dif\u00edcil e viram o despontar do sol em meio a um quase deserto. Como eram bambus ou queriam ser bambus n\u00e3o tinham medo dos a\u00e7oites dos ventos e os recebiam com um aparente vergar. Engano ledo. Logo voltavam, eretos e se faziam fortes para florescer em meio \u00e0s daninhas ervas.<br \/>\nE como em sonho tudo \u00e9 permitido, os poucos bambus foram se enfeixando, metamorfoseando-se em um jovem baob\u00e1. Sentindo a licen\u00e7a po\u00e9tica dessa transmuta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, advertiam que os baob\u00e1s eram uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o. Importava n\u00e3o, a licen\u00e7a po\u00e9tica permitiria a a\u00e7\u00e3o transg\u00eanica, ora bambu, ora baob\u00e1.<br \/>\nCada sonho \u00e9, digamos uma utopia e nem todos s\u00e3o Thomas Morus, mas h\u00e1 os que acreditam nas suas utopias pelo relativismo das coisas. E o sonho n\u00e3o era mais um sonho, posto realidade com a clareza e os matizes da vida. E o sonho amadureceu. Amanheceu.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 31\/10\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sonhei que eu era um construtor de sonhos. Amo sonhar o imposs\u00edvel, como diria Goethe. Um menino nascido em meio a uma realidade dura, tentando transform\u00e1-la, aben\u00e7oado por Deus, pela esperan\u00e7a, por pessoas e pelos ventos dos tempos.<br \/>\nNesse sonho, entre os bocejos da noite e o espargir da aurora, cuidei de plantar. Preparei o solo, eu que nem de terra entendo, adubei-a com o sal do suor, misturado a raras, mas sofridas l\u00e1grimas e a reguei com afinco, como se fora uma chuva fina e constante que molha, mas n\u00e3o encharca.<br \/>\nSonhei que n\u00e3o acreditavam no meu plantio, mas n\u00e3o sabiam que as sementes tinham na sua composi\u00e7\u00e3o as qualidades do destemor e da perseveran\u00e7a e, se pareciam fenecer, era apenas o entretempo certo ao desabrochar radioso. E eu jardineiro estava ali presente, sempre. Os jardineiros t\u00eam as m\u00e3os marcadas por espinhos, mas n\u00e3o perdem a sensibilidade, nunca.<br \/>\nRaras sementes e a espera, ap\u00f3s a rega, se fizeram demorar, pois n\u00e3o eram couves, imaginavam-se bambus, poucos que fossem. E furaram a terra dif\u00edcil e viram o despontar do sol em meio a um quase deserto. Como eram bambus ou queriam ser bambus n\u00e3o tinham medo dos a\u00e7oites dos ventos e os recebiam com um aparente vergar. Engano ledo. Logo voltavam, eretos e se faziam fortes para florescer em meio \u00e0s daninhas ervas.<br \/>\nE como em sonho tudo \u00e9 permitido, os poucos bambus foram se enfeixando, metamorfoseando-se em um jovem baob\u00e1. Sentindo a licen\u00e7a po\u00e9tica dessa transmuta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, advertiam que os baob\u00e1s eram uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o. 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Amanheceu.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 31\/10\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3888","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3888","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3888"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3888\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}