{"id":3890,"date":"2023-12-21T09:10:57","date_gmt":"2023-12-21T12:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/testemunha-sem-querer\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"testemunha-sem-querer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/testemunha-sem-querer\/","title":{"rendered":"TESTEMUNHA, SEM QUERER"},"content":{"rendered":"<p>Acabara de chegar da Gr\u00e9cia. Era uma Quinta-feira fria em Mannheim, cidade vizinha a FrankFurt. A noite de 09 de novembro de 1989 corria normalmente. Grav\u00e1vamos uma fita com jazz ( entre elas, Bye Bye Black Bird) e uma fantasia composta por um alem\u00e3o sobre o Hino Nacional brasileiro e o vinho ajudava a espantar o frio. A TV estava ligada baixinho, como contraponto. De repente, o notici\u00e1rio da TV come\u00e7ava a sair do seu natural e os rep\u00f3rteres davam informa\u00e7\u00f5es desencontradas. Vali-me de meu cunhado alem\u00e3o para entender. Ele me respondeu: n\u00e3o estou compreendendo nada, parece que o Muro de Berlim est\u00e1 caindo.<br \/>\nO povo come\u00e7ava a sair \u00e0s ruas e n\u00e3o havia nenhuma autoridade falando, pois Helmut Kohl, estava ausente do pa\u00eds em visita oficial \u00e0 Pol\u00f4nia( Seria de prop\u00f3sito?). O que se soube logo foi que as autoriza\u00e7\u00f5es de sa\u00edda de Berlim Oriental estavam sendo concedidas sem limita\u00e7\u00f5es e em prazos m\u00ednimos.<br \/>\nAs pessoas passaram a tirar pedras do muro e o resto todo mundo j\u00e1 sabe. Come\u00e7ara a ruir o mais forte \u00edcone da divis\u00e3o for\u00e7ada da Alemanha, feita pelos aliados e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, um pa\u00eds que nunca gostou de ser tutelado.<br \/>\nHoje, passados 10 anos, pode-se dizer que Mikhail Gorbatchov, ent\u00e3o premi\u00ea da URSS, foi um dos grandes alavancadores desse processo de abertura, iniciando o fim de uma guerra fria beneficiadora de fabricantes de armamentos e pol\u00edticos reacion\u00e1rios iludindo seus eleitores, de ambos os lados.<br \/>\nEu estive em Berlim Oriental, antes da queda, passei pelo &#8220;Check Point Charlie&#8221; e senti como era r\u00edgido o controle de entrada. Viajava de trem. Primeiro, o trem parou. Depois vieram policiais com c\u00e3es amestrados farejando tudo. Em seguida, lan\u00e7as com espelhos na ponta, como os que os dentistas usam para olhar os nossos dentes de tr\u00e1s, foram passados por baixo dos vag\u00f5es do trem. Ap\u00f3s tudo isso, descemos, entregamos os passaportes, faziam algumas perguntas, nos fotografavam, mandavam comprar certa quantia em marcos orientais &#8211; que n\u00e3o podiam ser recomprados na volta &#8211; e a\u00ed, sim, \u00e9ramos liberados para uma visita restrita. Isto \u00e9, n\u00e3o se podia ir aonde quer\u00edamos, mas aos pontos recomendados.<br \/>\nIsso foi no fim da d\u00e9cada de 70 e eu n\u00e3o podia entender edifica\u00e7\u00f5es divididas ao meio, um muro alt\u00edssimo, rolos de arame, casamatas, postes com ilumina\u00e7\u00e3o fe\u00e9rica, postos de observa\u00e7\u00e3o e um aparato de guerra que n\u00e3o combinava com a efervesc\u00eancia a 200 metros dali, onde em Berlim Ocidental a vida corria normalmente, com o seu ar cosmopolita.<br \/>\nPulemos para 1989. A noite se fez tarde, os vinhos seus efeitos e fomos dormir. Ao amanhecer, a hist\u00f3ria tinha dado mais um passo e os jornais e as televis\u00f5es mostravam os estragos no muro, fam\u00edlias se reencontrando e o povo nas ruas. Houve excessos, de lado a lado, nas comemora\u00e7\u00f5es, e s\u00f3 depois de algum tempo \u00e9 que a calma voltou a reinar.<br \/>\nHoje, dez anos depois, tendo voltado algumas vezes \u00e0 Alemanha, sinto que os 400 bilh\u00f5es de d\u00f3lares gastos na reconstru\u00e7\u00e3o da parte oriental surtiram efeito, mas h\u00e1 muitos descontentes, especialmente os que tiveram de pagar a conta. Mas isto \u00e9 outra hist\u00f3ria.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 14\/11\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabara de chegar da Gr\u00e9cia. Era uma Quinta-feira fria em Mannheim, cidade vizinha a FrankFurt. A noite de 09 de novembro de 1989 corria normalmente. Grav\u00e1vamos uma fita com jazz ( entre elas, Bye Bye Black Bird) e uma fantasia composta por um alem\u00e3o sobre o Hino Nacional brasileiro e o vinho ajudava a espantar o frio. A TV estava ligada baixinho, como contraponto. De repente, o notici\u00e1rio da TV come\u00e7ava a sair do seu natural e os rep\u00f3rteres davam informa\u00e7\u00f5es desencontradas. Vali-me de meu cunhado alem\u00e3o para entender. Ele me respondeu: n\u00e3o estou compreendendo nada, parece que o Muro de Berlim est\u00e1 caindo.<br \/>\nO povo come\u00e7ava a sair \u00e0s ruas e n\u00e3o havia nenhuma autoridade falando, pois Helmut Kohl, estava ausente do pa\u00eds em visita oficial \u00e0 Pol\u00f4nia( Seria de prop\u00f3sito?). O que se soube logo foi que as autoriza\u00e7\u00f5es de sa\u00edda de Berlim Oriental estavam sendo concedidas sem limita\u00e7\u00f5es e em prazos m\u00ednimos.<br \/>\nAs pessoas passaram a tirar pedras do muro e o resto todo mundo j\u00e1 sabe. Come\u00e7ara a ruir o mais forte \u00edcone da divis\u00e3o for\u00e7ada da Alemanha, feita pelos aliados e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, um pa\u00eds que nunca gostou de ser tutelado.<br \/>\nHoje, passados 10 anos, pode-se dizer que Mikhail Gorbatchov, ent\u00e3o premi\u00ea da URSS, foi um dos grandes alavancadores desse processo de abertura, iniciando o fim de uma guerra fria beneficiadora de fabricantes de armamentos e pol\u00edticos reacion\u00e1rios iludindo seus eleitores, de ambos os lados.<br \/>\nEu estive em Berlim Oriental, antes da queda, passei pelo &#8220;Check Point Charlie&#8221; e senti como era r\u00edgido o controle de entrada. Viajava de trem. Primeiro, o trem parou. Depois vieram policiais com c\u00e3es amestrados farejando tudo. Em seguida, lan\u00e7as com espelhos na ponta, como os que os dentistas usam para olhar os nossos dentes de tr\u00e1s, foram passados por baixo dos vag\u00f5es do trem. Ap\u00f3s tudo isso, descemos, entregamos os passaportes, faziam algumas perguntas, nos fotografavam, mandavam comprar certa quantia em marcos orientais &#8211; que n\u00e3o podiam ser recomprados na volta &#8211; e a\u00ed, sim, \u00e9ramos liberados para uma visita restrita. Isto \u00e9, n\u00e3o se podia ir aonde quer\u00edamos, mas aos pontos recomendados.<br \/>\nIsso foi no fim da d\u00e9cada de 70 e eu n\u00e3o podia entender edifica\u00e7\u00f5es divididas ao meio, um muro alt\u00edssimo, rolos de arame, casamatas, postes com ilumina\u00e7\u00e3o fe\u00e9rica, postos de observa\u00e7\u00e3o e um aparato de guerra que n\u00e3o combinava com a efervesc\u00eancia a 200 metros dali, onde em Berlim Ocidental a vida corria normalmente, com o seu ar cosmopolita.<br \/>\nPulemos para 1989. A noite se fez tarde, os vinhos seus efeitos e fomos dormir. Ao amanhecer, a hist\u00f3ria tinha dado mais um passo e os jornais e as televis\u00f5es mostravam os estragos no muro, fam\u00edlias se reencontrando e o povo nas ruas. Houve excessos, de lado a lado, nas comemora\u00e7\u00f5es, e s\u00f3 depois de algum tempo \u00e9 que a calma voltou a reinar.<br \/>\nHoje, dez anos depois, tendo voltado algumas vezes \u00e0 Alemanha, sinto que os 400 bilh\u00f5es de d\u00f3lares gastos na reconstru\u00e7\u00e3o da parte oriental surtiram efeito, mas h\u00e1 muitos descontentes, especialmente os que tiveram de pagar a conta. 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