{"id":3891,"date":"2023-12-21T09:10:57","date_gmt":"2023-12-21T12:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ontem-e-hoje\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"ontem-e-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/ontem-e-hoje\/","title":{"rendered":"ONTEM E HOJE"},"content":{"rendered":"<p>Estava eu c\u00e1 pensando como os meninos de hoje s\u00e3o diferentes dos de antigamente. Tenho um amigo, filho de um amigo, de sete anos. Ele me chama de Jo\u00e3o e n\u00e3o tem a menor cerim\u00f4nia em falar comigo. At\u00e9 a \u00faltima vez em que o vi ele tinha quatro pontos na testa, j\u00e1 havia visto o &#8220;Titanic&#8221;34 vezes, montara uma r\u00e9plica do dito cujo sem grandes dificuldades e mexia com inform\u00e1tica, especialmente jogos.<br \/>\nPor conta disso, lembrei da minha inf\u00e2ncia, quando qualquer pessoa mais idosa era senhor ou senhora e resolvi recolher fatos, alguns bobos, perdidos no tempo que aconteceram comigo. Muitos deles n\u00e3o fazem hoje o menor sentido, mas acreditem, aconteceram.<br \/>\n&#8211; Aos cinco anos me perdi. Fiquei olhando desconfiado para todos os lados. Um senhor perguntou meu nome, o nome dos meus pais e onde eu morava. Voltei para casa. Todos se conheciam.<br \/>\n&#8211; Tinha s\u00f3 nove anos e gostava de voar de teco-teco (avi\u00e3o monomotor) com meu pai. Ele colocava um caix\u00e3o coberto de alum\u00ednio cheio de gelo dentro do avi\u00e3o. Desc\u00edamos nas praias desertas e compr\u00e1vamos peixes. Voltava feliz e cheirando a peixe.<br \/>\n&#8211; Nessa mesma \u00e9poca aproveitei o carro do meu pai dando sopa e liguei a chave. Sem saber como, engatei a r\u00e9 e foi fogo para parar. N\u00e3o sabia como. Aprendi a dirigir ao contr\u00e1rio.<br \/>\n&#8211; Foi aos 10 anos. N\u00e3o tinha idade para fazer o &#8220;admiss\u00e3o ao gin\u00e1sio&#8221;. Um exame ent\u00e3o obrigat\u00f3rio ao ingresso no curso secund\u00e1rio. Aumentaram minha idade. At\u00e9 hoje sou, oficialmente, um ano mais velho. Quando fui casar deu problema, a certid\u00e3o de nascimento era diferente do batist\u00e9rio.<br \/>\n&#8211; Por volta dos 11 anos, no carnaval, meu pai me deu um vidro de lan\u00e7a perfume. Sa\u00ed em um caminh\u00e3o cheio de gente e despejei todo o conte\u00fado do vidro em uma menina. Ela me olhava e eu esvaziava o vidro, sem trocarmos uma palavra. O vidro secou e eu mudo fiquei.<br \/>\n&#8211; Aos 12 anos comprei uma bola e fiz um time de futebol. Fiquei na reserva. Acabei com o time.<br \/>\n&#8211; Com treze anos j\u00e1 era encrenqueiro. Um professor era um p\u00e9 no saco e a maioria da turma n\u00e3o gostava dele. Na hora do recreio, juntamos areia e fizemos um simulacro de seu corpo em cima da grande mesa da sala de aula. Quando ele chegou, esbravejou e todos rimos. Ele deixou a turma.<br \/>\n&#8211; Aos 13 anos apaixonei-me por uma mo\u00e7a mais velha. Ela foi a uma festa \u00e0 noite e eu esperei que o dia amanhecesse para brigar.<\/p>\n<p>&#8211; Tinha um parente bispo que, vez por outra, me convidava para viajar com ele. Um dia chegamos a um convento, onde serviram uma merenda refor\u00e7ada. Ele me chamou ao canto e disse: Encha os bolsos com o que voc\u00ea puder. Bispo n\u00e3o pode, mas perdoa.<br \/>\n&#8211; Nessa \u00e9poca, 13 anos, tive um surto de f\u00e9 fora do comum. Queria entrar no semin\u00e1rio para ser padre. Meu parente, bispo, pediu que um padre amigo conversasse comigo. Batemos um longo papo e ele sugeriu que eu passasse uns meses rezando para confirmar minha f\u00e9. Deu no que deu.<br \/>\n&#8211; Aos 14 anos, v\u00e9spera do Dia das M\u00e3es, fiz um discurso infame no col\u00e9gio. Ganhei o apelido de &#8220;Jo\u00e3o Mam\u00e3e&#8221;.<br \/>\n&#8211; Aos 16 anos fazia pol\u00edtica estudantil e gostava dos congressos para escrever dedicat\u00f3rias nas pastas de papel\u00e3o das colegas. Recebia delas, em contrapartida, muitas frases feitas, a exemplo de: &#8220;o essencial \u00e9 invis\u00edvel aos olhos&#8221; ou &#8220;tu \u00e9s eternamente respons\u00e1vel por aquele que cativas&#8221;. Antoine Saint-Exupery e &#8220;O Pequeno Pr\u00edncipe&#8221; estavam na moda. Antes das misses.<br \/>\nTudo isto foi j\u00e1 na segunda metade deste s\u00e9culo que est\u00e1 por terminar e parece t\u00e3o distante, como se o hoje ca\u00e7oasse do passado.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 21\/11\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava eu c\u00e1 pensando como os meninos de hoje s\u00e3o diferentes dos de antigamente. Tenho um amigo, filho de um amigo, de sete anos. Ele me chama de Jo\u00e3o e n\u00e3o tem a menor cerim\u00f4nia em falar comigo. At\u00e9 a \u00faltima vez em que o vi ele tinha quatro pontos na testa, j\u00e1 havia visto o &#8220;Titanic&#8221;34 vezes, montara uma r\u00e9plica do dito cujo sem grandes dificuldades e mexia com inform\u00e1tica, especialmente jogos.<br \/>\nPor conta disso, lembrei da minha inf\u00e2ncia, quando qualquer pessoa mais idosa era senhor ou senhora e resolvi recolher fatos, alguns bobos, perdidos no tempo que aconteceram comigo. Muitos deles n\u00e3o fazem hoje o menor sentido, mas acreditem, aconteceram.<br \/>\n&#8211; Aos cinco anos me perdi. Fiquei olhando desconfiado para todos os lados. Um senhor perguntou meu nome, o nome dos meus pais e onde eu morava. Voltei para casa. Todos se conheciam.<br \/>\n&#8211; Tinha s\u00f3 nove anos e gostava de voar de teco-teco (avi\u00e3o monomotor) com meu pai. Ele colocava um caix\u00e3o coberto de alum\u00ednio cheio de gelo dentro do avi\u00e3o. Desc\u00edamos nas praias desertas e compr\u00e1vamos peixes. Voltava feliz e cheirando a peixe.<br \/>\n&#8211; Nessa mesma \u00e9poca aproveitei o carro do meu pai dando sopa e liguei a chave. Sem saber como, engatei a r\u00e9 e foi fogo para parar. N\u00e3o sabia como. Aprendi a dirigir ao contr\u00e1rio.<br \/>\n&#8211; Foi aos 10 anos. N\u00e3o tinha idade para fazer o &#8220;admiss\u00e3o ao gin\u00e1sio&#8221;. Um exame ent\u00e3o obrigat\u00f3rio ao ingresso no curso secund\u00e1rio. Aumentaram minha idade. At\u00e9 hoje sou, oficialmente, um ano mais velho. Quando fui casar deu problema, a certid\u00e3o de nascimento era diferente do batist\u00e9rio.<br \/>\n&#8211; Por volta dos 11 anos, no carnaval, meu pai me deu um vidro de lan\u00e7a perfume. Sa\u00ed em um caminh\u00e3o cheio de gente e despejei todo o conte\u00fado do vidro em uma menina. Ela me olhava e eu esvaziava o vidro, sem trocarmos uma palavra. O vidro secou e eu mudo fiquei.<br \/>\n&#8211; Aos 12 anos comprei uma bola e fiz um time de futebol. Fiquei na reserva. Acabei com o time.<br \/>\n&#8211; Com treze anos j\u00e1 era encrenqueiro. Um professor era um p\u00e9 no saco e a maioria da turma n\u00e3o gostava dele. Na hora do recreio, juntamos areia e fizemos um simulacro de seu corpo em cima da grande mesa da sala de aula. Quando ele chegou, esbravejou e todos rimos. Ele deixou a turma.<br \/>\n&#8211; Aos 13 anos apaixonei-me por uma mo\u00e7a mais velha. Ela foi a uma festa \u00e0 noite e eu esperei que o dia amanhecesse para brigar.<\/p>\n<p>&#8211; Tinha um parente bispo que, vez por outra, me convidava para viajar com ele. Um dia chegamos a um convento, onde serviram uma merenda refor\u00e7ada. Ele me chamou ao canto e disse: Encha os bolsos com o que voc\u00ea puder. Bispo n\u00e3o pode, mas perdoa.<br \/>\n&#8211; Nessa \u00e9poca, 13 anos, tive um surto de f\u00e9 fora do comum. Queria entrar no semin\u00e1rio para ser padre. Meu parente, bispo, pediu que um padre amigo conversasse comigo. Batemos um longo papo e ele sugeriu que eu passasse uns meses rezando para confirmar minha f\u00e9. Deu no que deu.<br \/>\n&#8211; Aos 14 anos, v\u00e9spera do Dia das M\u00e3es, fiz um discurso infame no col\u00e9gio. Ganhei o apelido de &#8220;Jo\u00e3o Mam\u00e3e&#8221;.<br \/>\n&#8211; Aos 16 anos fazia pol\u00edtica estudantil e gostava dos congressos para escrever dedicat\u00f3rias nas pastas de papel\u00e3o das colegas. Recebia delas, em contrapartida, muitas frases feitas, a exemplo de: &#8220;o essencial \u00e9 invis\u00edvel aos olhos&#8221; ou &#8220;tu \u00e9s eternamente respons\u00e1vel por aquele que cativas&#8221;. Antoine Saint-Exupery e &#8220;O Pequeno Pr\u00edncipe&#8221; estavam na moda. Antes das misses.<br \/>\nTudo isto foi j\u00e1 na segunda metade deste s\u00e9culo que est\u00e1 por terminar e parece t\u00e3o distante, como se o hoje ca\u00e7oasse do passado.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 21\/11\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3891","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-inedito"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3891","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3891"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3891\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3908,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3891\/revisions\/3908"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3891"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3891"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3891"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}