{"id":3893,"date":"2023-12-21T09:10:57","date_gmt":"2023-12-21T12:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/enfarte-e-familia\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"enfarte-e-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/enfarte-e-familia\/","title":{"rendered":"ENFARTE E FAM\u00cdLIA"},"content":{"rendered":"<p>Um amigo de velhas datas liga pedindo uma hora para conversar comigo. Como esse amigo sabe que n\u00e3o revelarei seu nome, nem sob tortura, posso me permitir escrever, em linhas gerais, sobre o teor da nossa conversa. Ali\u00e1s, eu submeti este artigo \u00e0 sua an\u00e1lise.<br \/>\nUm dia, dirigindo o seu carro ap\u00f3s o trabalho, veio aquela dor violenta entre as costas e o peito e ele teve for\u00e7a de chegar a um hospital. Saiu de l\u00e1 dez dias ap\u00f3s com tr\u00eas pontes de safena, recomenda\u00e7\u00f5es sobre mudan\u00e7a de estilo de vida e uma por\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios a tomar todos os dias, pelo resto da vida. Chamou a mulher e disse desejar repensar sua vida. Ela chorou abra\u00e7ada a ele e ficou calada. Ficou mais 20 dias em casa. Os dias n\u00e3o passavam, a televis\u00e3o cansava e a cabe\u00e7a n\u00e3o parava de martelar quest\u00f5es sem respostas.<br \/>\nEsse meu amigo desejava trocar ideias sobre ele, sua empresa e seus filhos. Descobrira-se mortal. Reuniu a mulher e os filhos para uma conversa. Disse que ia tirar o time de campo e queria saber a opini\u00e3o de cada um. Foi um Deus nos acuda. Segundo ele, os filhos ficaram apavorados, pois ainda n\u00e3o estavam preparados para comandar a empresa, feita com muito trabalho, dedica\u00e7\u00e3o e ren\u00fancia.<br \/>\nPor essas d\u00favidas ele me procurou e conversamos mais do tempo combinado. Relembramos fatos, demos algumas risadas e at\u00e9 algumas l\u00e1grimas rolaram, talvez pela certeza da finitude e da nossa incapacidade de administrar situa\u00e7\u00f5es complexas.<br \/>\nLembrei &#8211; me, rindo comigo mesmo, da condi\u00e7\u00e3o de \u201cconselheiro\u201d e me descobri sem quase nenhuma capacidade de ajud\u00e1-lo. Preferi que, n\u00f3s dois, entend\u00eassemos os dramas na sua cabe\u00e7a e analis\u00e1ssemos o que, igualmente, poderiam pensar \u2013 naquela situa\u00e7\u00e3o \u2013 os seus filhos. Uma coisa estava definida para ele: queria escolher algu\u00e9m capaz para dirigir os neg\u00f3cios no lugar dele. Ele ficaria apenas dando as diretrizes. A quem escolher? Falou, com carinho, sobre os filhos, quase todos formados, mas nenhum quisera fazer mestrado ou ganhar experi\u00eancia trabalhando em outras empresas. \u201cN\u00e3o tinham estrada\u201d e n\u00e3o conheciam, no duro, o ch\u00e3o de f\u00e1brica. Viviam do que a empresa lhes pagava e n\u00e3o esperavam, para t\u00e3o r\u00e1pido, a possibilidade de um deles ter de assumir, para valer, a dire\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio. Talvez, por culpa do meu amigo, n\u00e3o eram ainda trabalhadores profissionais, de sol a sol, n\u00e3o conheciam o seu atual n\u00edvel de &#8220;stress&#8221;, nem amargaram anos de lutas e as noites em claro antes de tomar decis\u00f5es.<br \/>\nA partir de suas informa\u00e7\u00f5es, fizemos o perfil de cada um e, al\u00e9m de todos os problemas, como sombras, as figuras de nora e genro apareceram. A coisa complicava e eu sem saber mais o que dizer. Por fim, lhe sugeri optar por algu\u00e9m de fora da fam\u00edlia, com caracter\u00edsticas e habilidades semelhantes \u00e0s que ele acreditava ter ou queria para a empresa, neste mundo competitivo, n\u00e3o morrer. Ele co\u00e7ou a cabe\u00e7a e pediu um tempo para pensar.<br \/>\nH\u00e1 tr\u00eas dias recebi um telefonema dele. Contratara um profissional de excelente n\u00edvel, na faixa dos 30 anos, ganhando quase o mesmo que seus filhos que ficaram resmungando e ele bateu firme na mesa. Estava decidido. Nenhum assumiria, continuariam fazendo o que sabiam e ainda era pouco. Hoje, ele viaja, pela primeira vez, \u00e0 Europa. Boa viagem.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/12\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amigo de velhas datas liga pedindo uma hora para conversar comigo. Como esse amigo sabe que n\u00e3o revelarei seu nome, nem sob tortura, posso me permitir escrever, em linhas gerais, sobre o teor da nossa conversa. Ali\u00e1s, eu submeti este artigo \u00e0 sua an\u00e1lise.<br \/>\nUm dia, dirigindo o seu carro ap\u00f3s o trabalho, veio aquela dor violenta entre as costas e o peito e ele teve for\u00e7a de chegar a um hospital. Saiu de l\u00e1 dez dias ap\u00f3s com tr\u00eas pontes de safena, recomenda\u00e7\u00f5es sobre mudan\u00e7a de estilo de vida e uma por\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios a tomar todos os dias, pelo resto da vida. Chamou a mulher e disse desejar repensar sua vida. Ela chorou abra\u00e7ada a ele e ficou calada. Ficou mais 20 dias em casa. Os dias n\u00e3o passavam, a televis\u00e3o cansava e a cabe\u00e7a n\u00e3o parava de martelar quest\u00f5es sem respostas.<br \/>\nEsse meu amigo desejava trocar ideias sobre ele, sua empresa e seus filhos. Descobrira-se mortal. Reuniu a mulher e os filhos para uma conversa. Disse que ia tirar o time de campo e queria saber a opini\u00e3o de cada um. Foi um Deus nos acuda. Segundo ele, os filhos ficaram apavorados, pois ainda n\u00e3o estavam preparados para comandar a empresa, feita com muito trabalho, dedica\u00e7\u00e3o e ren\u00fancia.<br \/>\nPor essas d\u00favidas ele me procurou e conversamos mais do tempo combinado. Relembramos fatos, demos algumas risadas e at\u00e9 algumas l\u00e1grimas rolaram, talvez pela certeza da finitude e da nossa incapacidade de administrar situa\u00e7\u00f5es complexas.<br \/>\nLembrei &#8211; me, rindo comigo mesmo, da condi\u00e7\u00e3o de \u201cconselheiro\u201d e me descobri sem quase nenhuma capacidade de ajud\u00e1-lo. Preferi que, n\u00f3s dois, entend\u00eassemos os dramas na sua cabe\u00e7a e analis\u00e1ssemos o que, igualmente, poderiam pensar \u2013 naquela situa\u00e7\u00e3o \u2013 os seus filhos. Uma coisa estava definida para ele: queria escolher algu\u00e9m capaz para dirigir os neg\u00f3cios no lugar dele. Ele ficaria apenas dando as diretrizes. A quem escolher? Falou, com carinho, sobre os filhos, quase todos formados, mas nenhum quisera fazer mestrado ou ganhar experi\u00eancia trabalhando em outras empresas. \u201cN\u00e3o tinham estrada\u201d e n\u00e3o conheciam, no duro, o ch\u00e3o de f\u00e1brica. Viviam do que a empresa lhes pagava e n\u00e3o esperavam, para t\u00e3o r\u00e1pido, a possibilidade de um deles ter de assumir, para valer, a dire\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio. Talvez, por culpa do meu amigo, n\u00e3o eram ainda trabalhadores profissionais, de sol a sol, n\u00e3o conheciam o seu atual n\u00edvel de &#8220;stress&#8221;, nem amargaram anos de lutas e as noites em claro antes de tomar decis\u00f5es.<br \/>\nA partir de suas informa\u00e7\u00f5es, fizemos o perfil de cada um e, al\u00e9m de todos os problemas, como sombras, as figuras de nora e genro apareceram. A coisa complicava e eu sem saber mais o que dizer. Por fim, lhe sugeri optar por algu\u00e9m de fora da fam\u00edlia, com caracter\u00edsticas e habilidades semelhantes \u00e0s que ele acreditava ter ou queria para a empresa, neste mundo competitivo, n\u00e3o morrer. Ele co\u00e7ou a cabe\u00e7a e pediu um tempo para pensar.<br \/>\nH\u00e1 tr\u00eas dias recebi um telefonema dele. Contratara um profissional de excelente n\u00edvel, na faixa dos 30 anos, ganhando quase o mesmo que seus filhos que ficaram resmungando e ele bateu firme na mesa. Estava decidido. Nenhum assumiria, continuariam fazendo o que sabiam e ainda era pouco. Hoje, ele viaja, pela primeira vez, \u00e0 Europa. Boa viagem.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 05\/12\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3893","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-inedito"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3893","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3893"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3893\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3905,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3893\/revisions\/3905"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}