{"id":3895,"date":"2023-12-21T09:10:57","date_gmt":"2023-12-21T12:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/psique\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"psique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/psique\/","title":{"rendered":"PSIQU\u00c9"},"content":{"rendered":"<p>Neste m\u00eas de dezembro todos recebem cart\u00f5es, brindes, presentes e convites. Boa parte deles peca pela falta de imagina\u00e7\u00e3o e alguns atentam contra a sensibilidade. Um dos convites que recebi me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Foi um de formatura em psicologia.<br \/>\nPor que me chamou a aten\u00e7\u00e3o? Pela linda gravura de William Adolphe Bouguereau, designada como &#8220;Invading Cupid&#8217;s realm&#8221; ou invadindo o reino de Cupido. Uma linda mulher semi-nua cercada de anjos parece quebrar barreiras.<br \/>\nFoi isso o que o convite me passou: quebrar barreiras. Al\u00e9m dessa abertura inusitada, procurou n\u00e3o puxar saco de ningu\u00e9m escolhendo os pais como &#8220;patronos&#8221; e os mestres como &#8220;paraninfos&#8221;. E n\u00e3o fica s\u00f3 nisso. Conta o Mito de Eros e Psiqu\u00e9. Vejam um dos trechos: &#8220;Psiqu\u00e9 penetrou o pal\u00e1cio e, a partir de ent\u00e3o, foi servida por uma multid\u00e3o de Vozes, que lhe atendiam mesmo os desejos n\u00e3o formulados. Naquela mesma noite da chegada da princesa, Eros, sem se deixar ver, fez de Psiqu\u00e9 sua mulher, mas, antes do nascer do sol, desapareceu r\u00e1pida e misteriosamente&#8221;.<br \/>\nAinda fugindo das cita\u00e7\u00f5es convencionais, o convite cont\u00e9m cita\u00e7\u00f5es que transcrevo para conhecimento de voc\u00eas.<br \/>\nDe Ruy Barbosa, aos pais (Se um dia j\u00e1 homem feito e realizado, sentires que a terra cede a teus p\u00e9s e que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para te estender a m\u00e3o, esquece a tua maturidade, passa pela tua mocidade, volta \u00e0 tua inf\u00e2ncia e balbucia entre l\u00e1grimas e esperan\u00e7a as \u00faltimas palavras que te restar\u00e3o na alma: meu pai, minha m\u00e3e).<br \/>\nDe Fernando Pessoa, aos professores (Mestre, meu mestre! Na m\u00e1goa quotidiana das matem\u00e1ticas do ser, Eu escrevo de lado como um p\u00f3 de todos os ventos, Ergo as m\u00e3os para ti, que est\u00e1s longe, t\u00e3o longe de mim!).<br \/>\nM\u00e1rio Quintana, aos clientes (&#8230; at\u00e9 que um dia, por ast\u00facia ou por acaso, depois de quase todos os enganos, ele descobriu a porta do labirinto. Nada de ir tateando os muros como um cego. Nada de muros. Seus passos tinham &#8211; enfim! &#8211; a liberdade de tra\u00e7ar seus pr\u00f3prios labirintos).<br \/>\nComo mensagem final, Manuel Bandeira (Assim eu quereria o meu \u00faltimo poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais. Que fosse ardente como um solu\u00e7o sem l\u00e1grimas. Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume. A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais l\u00edmpidos. A paix\u00e3o dos suicidas que se matam sem explica\u00e7\u00e3o).<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um charme?<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/12\/1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste m\u00eas de dezembro todos recebem cart\u00f5es, brindes, presentes e convites. Boa parte deles peca pela falta de imagina\u00e7\u00e3o e alguns atentam contra a sensibilidade. Um dos convites que recebi me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Foi um de formatura em psicologia.<br \/>\nPor que me chamou a aten\u00e7\u00e3o? Pela linda gravura de William Adolphe Bouguereau, designada como &#8220;Invading Cupid&#8217;s realm&#8221; ou invadindo o reino de Cupido. Uma linda mulher semi-nua cercada de anjos parece quebrar barreiras.<br \/>\nFoi isso o que o convite me passou: quebrar barreiras. Al\u00e9m dessa abertura inusitada, procurou n\u00e3o puxar saco de ningu\u00e9m escolhendo os pais como &#8220;patronos&#8221; e os mestres como &#8220;paraninfos&#8221;. E n\u00e3o fica s\u00f3 nisso. Conta o Mito de Eros e Psiqu\u00e9. Vejam um dos trechos: &#8220;Psiqu\u00e9 penetrou o pal\u00e1cio e, a partir de ent\u00e3o, foi servida por uma multid\u00e3o de Vozes, que lhe atendiam mesmo os desejos n\u00e3o formulados. Naquela mesma noite da chegada da princesa, Eros, sem se deixar ver, fez de Psiqu\u00e9 sua mulher, mas, antes do nascer do sol, desapareceu r\u00e1pida e misteriosamente&#8221;.<br \/>\nAinda fugindo das cita\u00e7\u00f5es convencionais, o convite cont\u00e9m cita\u00e7\u00f5es que transcrevo para conhecimento de voc\u00eas.<br \/>\nDe Ruy Barbosa, aos pais (Se um dia j\u00e1 homem feito e realizado, sentires que a terra cede a teus p\u00e9s e que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para te estender a m\u00e3o, esquece a tua maturidade, passa pela tua mocidade, volta \u00e0 tua inf\u00e2ncia e balbucia entre l\u00e1grimas e esperan\u00e7a as \u00faltimas palavras que te restar\u00e3o na alma: meu pai, minha m\u00e3e).<br \/>\nDe Fernando Pessoa, aos professores (Mestre, meu mestre! Na m\u00e1goa quotidiana das matem\u00e1ticas do ser, Eu escrevo de lado como um p\u00f3 de todos os ventos, Ergo as m\u00e3os para ti, que est\u00e1s longe, t\u00e3o longe de mim!).<br \/>\nM\u00e1rio Quintana, aos clientes (&#8230; at\u00e9 que um dia, por ast\u00facia ou por acaso, depois de quase todos os enganos, ele descobriu a porta do labirinto. Nada de ir tateando os muros como um cego. Nada de muros. Seus passos tinham &#8211; enfim! &#8211; a liberdade de tra\u00e7ar seus pr\u00f3prios labirintos).<br \/>\nComo mensagem final, Manuel Bandeira (Assim eu quereria o meu \u00faltimo poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais. Que fosse ardente como um solu\u00e7o sem l\u00e1grimas. Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume. A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais l\u00edmpidos. A paix\u00e3o dos suicidas que se matam sem explica\u00e7\u00e3o).<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um charme?<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 19\/12\/1999.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3895","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-inedito"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3895","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3895"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3895\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3910,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3895\/revisions\/3910"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3895"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}