{"id":3897,"date":"2023-12-21T09:10:57","date_gmt":"2023-12-21T12:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-vida-em-codigo-saulo-ramos\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"a-vida-em-codigo-saulo-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-vida-em-codigo-saulo-ramos\/","title":{"rendered":"A VIDA EM C\u00d3DIGO: SAULO RAMOS"},"content":{"rendered":"<p>Faz anos. Ganhei o livro \u201cC\u00f3digo da Vida\u201d, de Saulo Ramos. Li-o, mais por curiosidade que por outra raz\u00e3o. O livro \u00e9 derramado, aberto, sem censura. Aos 78 anos, em 2007, curado de um c\u00e2ncer, e sabedor de uma doen\u00e7a coron\u00e1ria grave, Saulo Ramos resolve contar sua vida, do seu jeito, seguindo seus c\u00e2nones. Escreve como advogado, mas sem esquecer a sua vertente liter\u00e1ria \u2013 tipo contador de hist\u00f3rias- como integrante de duas academias de letras: a de Ribeir\u00e3o Preto e a Santista. O livro j\u00e1 teve mais de 20 reimpress\u00f5es e deve aumentar os lucros da editora Planeta, agora que Saulo Ramos morreu, em 29 de abril \u00faltimo, v\u00edtima do cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 esfalfado, em face de sua dura, brilhante e, qui\u00e7\u00e1, romanesca vida.<br \/>\nNasceu em 1929, em Brodowski, cidade pequena, vizinha a Ribeir\u00e3o Preto. L\u00e1, j\u00e1 havia nascido outro brasileiro ilustre, C\u00e2ndido Portinari. Portinariest\u00e1 l\u00e1 na p\u00e1gina zero do seu livro com um retrato em crayon de Saulo, aos 24 anos. Ele manuscreve e proclama: \u201cPara Saulo, que honrar\u00e1 nossa Brodowski, lembran\u00e7a afetuosa do Portinari, 1953\u201d. N\u00e3o deu outra, Saulo foi um dos maiores paulistas dos \u00faltimos tempos.<br \/>\nNasceu pobre, chegou a ser caminhoneiro, mas descobriu na advocacia o seu destino. Disc\u00edpulo de Vicente R\u00e1o, um grande advogado, resolveu fazer carreira solo. Foi quase tudo na advocacia e na pol\u00edtica brasileira. S\u00f3 n\u00e3o foi mais porque n\u00e3o o quis. Come\u00e7ou trabalhando com M\u00e1rio Covas, depois foi ajudar J\u00e2nio Quadros a ser presidente por sete meses e chegou a ser ministro da Justi\u00e7a de Jos\u00e9 Sarney, de quem era grande amigo. Tancredo morreu como todos sabem, antes da posse na presid\u00eancia. Havia um impasse. Saulo comandou a equipe que solucionou o problema constitucional. O resto j\u00e1 \u00e9 hist\u00f3ria.<br \/>\nO livro n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de mod\u00e9stia. N\u00e3o poderia s\u00ea-lo. Saulo, aos 78, tinha a l\u00edngua solta dos que acreditam estar pr\u00f3ximo o encontro com o desenlace. \u00c9, talvez, uma autobiografia romanceada. Parte de um caso singular da defesa, por Saulo, de um pai, acusado de pedofilia pela pr\u00f3pria mulher, a partir de grava\u00e7\u00e3o feita com os filhos. E esse eixo b\u00e1sico n\u00e3o \u00e9 seguido. H\u00e1 muitas vertentes e ocasi\u00f5es em que o autor, vaidoso, nomeia v\u00e1rias celebridades. S\u00e3o tantas, entre elas, Che Guevara. Conta um jantar com ele, em 1962, em Punta Del Este, Uruguai. Em seguida, vem a concess\u00e3o por J\u00e2nio Quadros da \u201cOrdem do Cruzeiro do Sul\u201d ao ent\u00e3o ministro cubano. Por fim, afirma que Fidel Castro estaria por traz da trama que matou Guevara na Bol\u00edvia.<br \/>\nParo por aqui, n\u00e3o vou tirar o prazer dos futuros leitores do livro. \u00c9 um passeio pela hist\u00f3ria brasileira contempor\u00e2nea. No livro, Saulo n\u00e3o poupa Lula. Diz cobras e lagartos do ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica e se derrama em amores e elogiosa Jos\u00e9 Sarney. N\u00e3o s\u00f3 Lula \u00e9 criticado, at\u00e9 alguns integrantes do STF s\u00e3o descritos sem muita piedade pela azedia de Saulo. A hist\u00f3ria, que \u00e9 o fim condutor da narrativa, n\u00e3o conclu\u00edda no texto, merece um ep\u00edlogo em que ele deslinda tudo.<br \/>\nN\u00e3o gostei da batida cita\u00e7\u00e3o \u2013 o livro tem 140 &#8211; atribu\u00edda a Charles Chaplin usada para fechar o livro. Ela, no meu pensar, \u00e9 piegas e esgotada. Merecia outra, talvez dele pr\u00f3prio. Quem sabe, esta: \u201cEspero que tais fatos esclare\u00e7am algumas interroga\u00e7\u00f5es daqueles que os viram acontecer e sejam \u00fateis para as novas gera\u00e7\u00f5es, que ainda dependem dos historiadores, nem sempre muito fi\u00e9is, segundo tenho visto em isoladas manifesta\u00e7\u00f5es de jornais. Mas advirto: os fatos s\u00e3o aqui narrados numa espantosa desordem cronol\u00f3gica, por\u00e9m fielmente. Detesto a manipula\u00e7\u00e3o do passado e o mascaramento das vers\u00f5es\u201d. Saulo Ramos.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto<br \/>\n CR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 3\/5\/2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz anos. Ganhei o livro \u201cC\u00f3digo da Vida\u201d, de Saulo Ramos. Li-o, mais por curiosidade que por outra raz\u00e3o. O livro \u00e9 derramado, aberto, sem censura. Aos 78 anos, em 2007, curado de um c\u00e2ncer, e sabedor de uma doen\u00e7a coron\u00e1ria grave, Saulo Ramos resolve contar sua vida, do seu jeito, seguindo seus c\u00e2nones. Escreve como advogado, mas sem esquecer a sua vertente liter\u00e1ria \u2013 tipo contador de hist\u00f3rias- como integrante de duas academias de letras: a de Ribeir\u00e3o Preto e a Santista. O livro j\u00e1 teve mais de 20 reimpress\u00f5es e deve aumentar os lucros da editora Planeta, agora que Saulo Ramos morreu, em 29 de abril \u00faltimo, v\u00edtima do cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 esfalfado, em face de sua dura, brilhante e, qui\u00e7\u00e1, romanesca vida.<br \/>\nNasceu em 1929, em Brodowski, cidade pequena, vizinha a Ribeir\u00e3o Preto. L\u00e1, j\u00e1 havia nascido outro brasileiro ilustre, C\u00e2ndido Portinari. Portinariest\u00e1 l\u00e1 na p\u00e1gina zero do seu livro com um retrato em crayon de Saulo, aos 24 anos. Ele manuscreve e proclama: \u201cPara Saulo, que honrar\u00e1 nossa Brodowski, lembran\u00e7a afetuosa do Portinari, 1953\u201d. N\u00e3o deu outra, Saulo foi um dos maiores paulistas dos \u00faltimos tempos.<br \/>\nNasceu pobre, chegou a ser caminhoneiro, mas descobriu na advocacia o seu destino. Disc\u00edpulo de Vicente R\u00e1o, um grande advogado, resolveu fazer carreira solo. Foi quase tudo na advocacia e na pol\u00edtica brasileira. S\u00f3 n\u00e3o foi mais porque n\u00e3o o quis. Come\u00e7ou trabalhando com M\u00e1rio Covas, depois foi ajudar J\u00e2nio Quadros a ser presidente por sete meses e chegou a ser ministro da Justi\u00e7a de Jos\u00e9 Sarney, de quem era grande amigo. Tancredo morreu como todos sabem, antes da posse na presid\u00eancia. Havia um impasse. Saulo comandou a equipe que solucionou o problema constitucional. O resto j\u00e1 \u00e9 hist\u00f3ria.<br \/>\nO livro n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de mod\u00e9stia. N\u00e3o poderia s\u00ea-lo. Saulo, aos 78, tinha a l\u00edngua solta dos que acreditam estar pr\u00f3ximo o encontro com o desenlace. \u00c9, talvez, uma autobiografia romanceada. Parte de um caso singular da defesa, por Saulo, de um pai, acusado de pedofilia pela pr\u00f3pria mulher, a partir de grava\u00e7\u00e3o feita com os filhos. E esse eixo b\u00e1sico n\u00e3o \u00e9 seguido. H\u00e1 muitas vertentes e ocasi\u00f5es em que o autor, vaidoso, nomeia v\u00e1rias celebridades. S\u00e3o tantas, entre elas, Che Guevara. Conta um jantar com ele, em 1962, em Punta Del Este, Uruguai. Em seguida, vem a concess\u00e3o por J\u00e2nio Quadros da \u201cOrdem do Cruzeiro do Sul\u201d ao ent\u00e3o ministro cubano. Por fim, afirma que Fidel Castro estaria por traz da trama que matou Guevara na Bol\u00edvia.<br \/>\nParo por aqui, n\u00e3o vou tirar o prazer dos futuros leitores do livro. \u00c9 um passeio pela hist\u00f3ria brasileira contempor\u00e2nea. No livro, Saulo n\u00e3o poupa Lula. Diz cobras e lagartos do ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica e se derrama em amores e elogiosa Jos\u00e9 Sarney. N\u00e3o s\u00f3 Lula \u00e9 criticado, at\u00e9 alguns integrantes do STF s\u00e3o descritos sem muita piedade pela azedia de Saulo. A hist\u00f3ria, que \u00e9 o fim condutor da narrativa, n\u00e3o conclu\u00edda no texto, merece um ep\u00edlogo em que ele deslinda tudo.<br \/>\nN\u00e3o gostei da batida cita\u00e7\u00e3o \u2013 o livro tem 140 &#8211; atribu\u00edda a Charles Chaplin usada para fechar o livro. Ela, no meu pensar, \u00e9 piegas e esgotada. Merecia outra, talvez dele pr\u00f3prio. Quem sabe, esta: \u201cEspero que tais fatos esclare\u00e7am algumas interroga\u00e7\u00f5es daqueles que os viram acontecer e sejam \u00fateis para as novas gera\u00e7\u00f5es, que ainda dependem dos historiadores, nem sempre muito fi\u00e9is, segundo tenho visto em isoladas manifesta\u00e7\u00f5es de jornais. Mas advirto: os fatos s\u00e3o aqui narrados numa espantosa desordem cronol\u00f3gica, por\u00e9m fielmente. Detesto a manipula\u00e7\u00e3o do passado e o mascaramento das vers\u00f5es\u201d. Saulo Ramos.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto<br \/>\n CR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 3\/5\/2013<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3897","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-inedito"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3897","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3897"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3897\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3912,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3897\/revisions\/3912"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}