{"id":3901,"date":"2023-12-21T09:10:57","date_gmt":"2023-12-21T12:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/capistrano-170-anos\/"},"modified":"2023-12-24T08:09:07","modified_gmt":"2023-12-24T11:09:07","slug":"capistrano-170-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/capistrano-170-anos\/","title":{"rendered":"CAPISTRANO, 170 ANOS"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Soares Neto, ex-ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras, da Academia Cearense de Letras, do Instituto do Cear\u00e1 e da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa<\/p>\n<p>Dizia Gabriel Garcia M\u00e1rquez que \u201cum escritor j\u00e1 nasce escritor, nasce com o dom e a voca\u00e7\u00e3o, precisando apenas aprender a escrever\u201d. <\/p>\n<p>Capistrano falava que \u201caprender a escrever \u00e9 aprender a ler\u201d, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura cr\u00edtica de livros, textos, tradu\u00e7\u00f5es, documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja.<br \/>\nHist\u00f3ria como se fizesse uma longa cr\u00f4nica, um ensaio, um romance e h\u00e1 trechos at\u00e9 que s\u00e3o poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos.<br \/>\nJos\u00e9 Aur\u00e9lio Saraiva C\u00e2mara, um de seus bi\u00f3grafos, diz com propriedade: \u201cDescrever uma vida como a de Capistrano de Abreu \u00e9 enfrentar um ser\u00edssimo trope\u00e7o: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferen\u00e7a do oper\u00e1rio face a aud\u00e1cia e \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o gran\u00edtica do trabalho realizado. Na sua hist\u00f3ria, o homem diz pouco e a obra<br \/>\nLouvo-me da avers\u00e3o declarada de Capistrano \u00e0s academias e as sociedades a que n\u00e3o quis pertencer para ter a certeza de que, na dimens\u00e3o em que ele estiver, n\u00e3o se ocupar\u00e1 de dar aten\u00e7\u00e3o ao que aqui ser\u00e1 descrito.<br \/>\nAs comemora\u00e7\u00f5es dos 170 anos de nascimento de Jo\u00e3o Capistrano de Abreu ecoam, pouco vis\u00edveis, por todo o Brasil.<br \/>\nNo Cear\u00e1, nos 150 anos, houve um calend\u00e1rio oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreci\u00e1vel n\u00famero de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A prop\u00f3sito, compulsando a mem\u00f3ria do Jornal \u201cO Povo\u201d de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lan\u00e7ou um concurso p\u00fablico sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centen\u00e1rio. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos.<br \/>\nFosse hoje, certamente, alguns o fariam. De qualquer modo, n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio pedir v\u00eania aos meus pares, pois declaro p\u00fablica a minha incapacidade de cumprir com brilho a miss\u00e3o que, se ju\u00edzo tivesse, n\u00e3o teria aceitado.<br \/>\nEsse trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o pr\u00f3prio Capistrano: \u201cAs obras de amor s\u00e3o as \u00fanicas que pagam o sacrif\u00edcio\u201d. Vamos, pois, ao sacrif\u00edcio.<br \/>\nNo dia 23 do m\u00eas de outubro de 2003 fez 150 anos que Jo\u00e3o Capistrano de Abreu, filho de Ant\u00f4nia e Joaquim Hon\u00f3rio de Abreu. Nasceu na Ladeira Grande, no s\u00edtio Columinjuba, Maranguape e de l\u00e1 partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro.<br \/>\nDe fam\u00edlia simples, solit\u00e1rio, cr\u00edtico, ir\u00f4nico e taciturno, foi sempre maior do que os col\u00e9gios onde estudou: o Col\u00e9gio de Educandos (onde hoje fica o Col\u00e9gio da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Semin\u00e1rio da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por n\u00e3o ser vocacionado para padre.  Posteriormente, j\u00e1 aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparat\u00f3rios para a Faculdade de Direito do Recife.<br \/>\nFoi reprovado porque seu aprendizado n\u00e3o se cingia ao conte\u00fado program\u00e1tico estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas j\u00e1 se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tom\u00e1s Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. J\u00e1 se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, ingl\u00eas e franc\u00eas. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o seu tutor\/correspondente em Recife e seu pai, Jer\u00f4nimo Hon\u00f3rio.<br \/>\nDebaixo de repreens\u00f5es, foi para o cabo de enxada como caboclo qualquer, em meio a um alambique para destilar cacha\u00e7a, um engenho de a\u00e7\u00facar, rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna.  Engajou-se, em seguida, em movimentos liter\u00e1rios e culturais de Fortaleza quando escreveu \u201cPerfis Juvenis\u201d, que eram, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edi\u00e7\u00f5es sucessivas no \u201cMaranguapense\u201d, jornal rec\u00e9m criado na pequena cidade de Maranguape.<br \/>\nFoi nessa \u00e9poca que retomou os contatos com Tom\u00e1s Pompeu, Jo\u00e3o Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agita\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria chamada jocosamente de \u201cAcademia Francesa\u201d a reunir jovens quase imberbes.<br \/>\nCapistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe J\u00fanior, Jo\u00e3o Lopes, Rocha Lima e Tom\u00e1s Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna \u2013 A Escola Popular \u2013 que objetivava educar oper\u00e1rios, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constitui\u00e7\u00e3o, de 02 de junho de 1874: \u201cA escola noturna popular, al\u00e9m das aulas de primeiras letras, gram\u00e1tica, franc\u00eas, ingl\u00eas, geografia e aritm\u00e9tica, que come\u00e7aram a funcionar, abrir\u00e1 espa\u00e7o para uma s\u00e9rie de confer\u00eancias do g\u00eanero das que est\u00e3o fazendo na Corte com tanta aceita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFundaram tamb\u00e9m o jornal Fraternidade, de origem ma\u00e7\u00f4nica e inspira\u00e7\u00e3o positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libert\u00e1rio contra a religiosidade do clero e dos fi\u00e9is, apregoado pelo jornal A Tribuna Cat\u00f3lica.<br \/>\n\u00c9 prov\u00e1vel que a figura admirada e j\u00e1 ent\u00e3o m\u00edtica de Jos\u00e9 de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado a Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Cear\u00e1.<br \/>\nCapistrano, aos 21 anos, tinha os p\u00e9s na prov\u00edncia e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi.<br \/>\nDe Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Te\u00f3filo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: \u201cA impress\u00e3o que teve o consagrado homem de letras e pol\u00edtico, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Come\u00e7aram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admira\u00e7\u00e3o, viu que ali n\u00e3o estava um simples sertanejo, por\u00e9m um erudito.\u201d<br \/>\nEra efervesc\u00eancia demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a ben\u00e7\u00e3o ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guar\u00e1 no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria Jos\u00e9 de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano.<br \/>\nA partir da\u00ed \u00e9 que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser s\u00fadito do Imp\u00e9rio, mas n\u00e3o abria m\u00e3o de ser, ao mesmo tempo, um cidad\u00e3o brasileiro. \u00c9 assim que Jos\u00e9 de Alencar apresenta Capistrano: \u201cEsse mo\u00e7o, que j\u00e1 \u00e9 f\u00e1cil e elegante escritor, aspira ao est\u00e1gio da imprensa desta Corte. Creio eu que, al\u00e9m de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da gl\u00f3ria, que lhe est\u00e3o atribuindo acidentes m\u00ednimos.\u201d<br \/>\nOs caminhos da sua vida nunca foram f\u00e1ceis, apesar das rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. \u00c9 prov\u00e1vel que come\u00e7asse a\u00ed o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar portugu\u00eas e franc\u00eas no Col\u00e9gio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores.<br \/>\nSua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Not\u00edcias. J\u00e1 em 1882, Valentim Magalh\u00e3es, na se\u00e7\u00e3o Tipos e Tip\u00f5es, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: \u201c(&#8230;) quem seja aquele rapaz forte, de estatura me\u00e3, grosso de tronco, de cabe\u00e7a um tanto c\u00fabica, dessas que v\u00eam bradando aos olhos da gente: \u2018eu sou do norte\u2019, de pesco\u00e7o atl\u00e9tico, olhos pequeninos, piscos, m\u00edopes, escandalosamente m\u00edopes; trajando escuro com filos\u00f3fico descuido, chap\u00e9u raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ningu\u00e9m sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente \u00e0 parede, cabe\u00e7a levemente \u00e0 banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(&#8230;)(&#8230;) Pois esse rapaz \u00e9 o Capistrano de Abreu, a cabe\u00e7a mais ilustrada, mais pensadora, mais \u2018curvada\u2019 ao trabalho de quantos funcionam no escrit\u00f3rio da Gazeta( &#8230;).\u201d<br \/>\nNesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotec\u00e1rio e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de ent\u00e3o, come\u00e7aria a consolidar a sua carreira de historiador.<br \/>\nSeriam transformadas em marca-p\u00e1ginas da hist\u00f3ria suas incurs\u00f5es brilhantes como cr\u00edtico ou ensa\u00edsta liter\u00e1rio. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Col\u00e9gio Pedro II, mantido pelo Imp\u00e9rio. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, j\u00e1 criticava o ensino de Hist\u00f3ria do col\u00e9gio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro \u201cHist\u00f3ria do Brasil\u201d. Matoso Maia pede-lhe para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: \u201dN\u00e3o poder satisfaz\u00ea-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para ent\u00e3o o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.\u201d<br \/>\nTomava forma o grande historiador com \u00eanfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a hist\u00f3ria. Segundo Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrol\u00f3gio que publicou no Jornal do Com\u00e9rcio, Capistrano mostrou: \u201cum modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiogr\u00e1fico, exemplar pelo esp\u00edrito cr\u00edtico, a orienta\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, o dom\u00ednio filos\u00f3fico.\u201d<br \/>\nCasou, em 1881, com Maria Jos\u00e9 de Castro Fonseca, filha de um Almirante. A ela dera aulas particulares, particulares at\u00e9 demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: \u201cCasei-me a 30 de mar\u00e7o, isto \u00e9, dois meses antes do que esperava. Ainda n\u00e3o tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obst\u00e1culos que poderiam ser insuper\u00e1veis.\u201d<br \/>\nDesse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria Jos\u00e9 de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspond\u00eancia s\u00e3o: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria Jos\u00e9 de Jesus, beatificada pela Igreja Cat\u00f3lica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse m\u00eas e cuja morte prematura, de pneumonia dupla,  em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade.<br \/>\nEm 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin T\u00e1vora, consegue realizar o sonho de ser professor do Col\u00e9gio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descri\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de um pa\u00eds, regi\u00e3o, prov\u00edncia ou munic\u00edpio e Hist\u00f3ria do Brasil, com a tese \u201cDescobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no S\u00e9culo XVI. \u201c<br \/>\nEm 1889 foi exclu\u00edda do curr\u00edculo escolar do Col\u00e9gio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar Hist\u00f3ria Geral, denuncia o fato e \u00e9 posto em disponibilidade.<br \/>\nNesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Cap\u00edtulos da Hist\u00f3ria Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. \u00c9 nela que fica real\u00e7ada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e n\u00e3o um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas.<br \/>\nCapistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou m\u00e9todo cr\u00edtico com tr\u00eas elementos b\u00e1sicos: testemunha visual, car\u00e1ter l\u00f3gico do relato e coer\u00eancia entre o texto e realidade, renovou os m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de interpreta\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica brasileira da \u00e9poca, partindo do determinismo sociol\u00f3gico &#8211; positivista que foi e deixou de ser &#8211; para, em seguida, descobrir a ess\u00eancia do que regia a sociedade colonial. Fica claro que sua an\u00e1lise da sociedade brasileira, lastreada na influ\u00eancia te\u00f3rica da teoria realista alem\u00e3 de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corogr\u00e1ficos, da miscigena\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a, dos aspectos econ\u00f4micos e psicol\u00f3gicos, sempre real\u00e7ando a conquista do interior pelo brasileiro mesti\u00e7o.<br \/>\nPara ele, j\u00e1 mostrando a sua face republicana, o destaque n\u00e3o \u00e9 o portugu\u00eas ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem express\u00e3o pol\u00edtica, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, deixando, cada vez mais patente, a desimport\u00e2ncia do Rei, vice-rei, governadores e dos her\u00f3is. O povo \u00e9 o sujeito da hist\u00f3ria.<br \/>\nPor outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua \u00f3tica corogr\u00e1fica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, soci\u00f3logo e antrop\u00f3logo fosse, com quase um s\u00e9culo de anteced\u00eancia, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas.<br \/>\nCapistrano denuncia isso em carta a Jo\u00e3o L\u00facio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: \u201cMuita gente \u00e9 amiga dos morros e cita em seu favor a opini\u00e3o dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou advers\u00e1rio convicto: enquanto n\u00e3o for arrasada a maioria, morros s\u00e3o compartimentos estanques que impedem a circula\u00e7\u00e3o social.\u201d<br \/>\nAutodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede de dormir e para onde viajava pelo Brasil \u2013 quase sempre para casa de amigos &#8211; a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, n\u00e3o sossegou at\u00e9 aprender a l\u00edngua alem\u00e3, al\u00e9m do latim, franc\u00eas e ingl\u00eas que j\u00e1 manejava.<br \/>\nSem nunca ter sa\u00eddo do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avan\u00e7ad\u00edssima para a m\u00e9dia de vida do brasileiro de sua \u00e9poca, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de Jo\u00e3o Ningu\u00e9m, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspond\u00eancia aos amigos.<br \/>\nSua correspond\u00eancia, organizada pacientemente por Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues em tr\u00eas volumes, \u00e9, segundo alguns, a sua segunda grande obra. \u00c9 ela uma demonstra\u00e7\u00e3o de apre\u00e7o aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doen\u00e7as, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou at\u00e9 \u00e0 morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em f\u00e9retro a, p\u00e9, o levaram ao Cemit\u00e9rio.<br \/>\nProvavelmente, a melhor descri\u00e7\u00e3o de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo Jo\u00e3o Pandi\u00e1 Cal\u00f3geras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico, logo ap\u00f3s a sua morte. Diz Cal\u00f3geras: \u201cRude, em sua terr\u00edvel franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hip\u00f3critas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destitu\u00eddo de toda inveja. Indulgente, quando explic\u00e1vel a falta por um motivo mais alto, por amor \u00e0 intelig\u00eancia ou \u00e0 bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intrat\u00e1vel em quest\u00f5es de honra, de lealdade e de afei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o admitia atenuantes para o delinquente.\u201d<br \/>\nEsse perfil poderia ser resumido em uma frase do pr\u00f3prio Capistrano: \u201cEu proporia que se substitu\u00edssem todos os artigos da Constitui\u00e7\u00e3o por: Artigo \u00danico \u2013 Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara\u201d.  Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas: \u201cTodo artista tem um germe original que \u00e9 a base e o \u2018substratum\u2019 de seu talento\u201d  e, \u201cNunca pensei  que eu pudesse morrer\u201d.<br \/>\nNa verdade, n\u00e3o morreu. Transformou-se.<\/p>\n<p>Bibliografia consultada<\/p>\n<p>&#8211;   AMARAL, Eduardo L\u00facio Guilherme, Correspond\u00eancia Cordial &#8211;  Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Cear\u00e1,  Sec. Cultura do Ce, 2003.<br \/>\n&#8211;   BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular &#8211; Capistrano de Abreu e Madre Maria Jos\u00e9, Fortaleza, Museu do Cear\u00e1, Sec. Cultura do Ce, 2003.<br \/>\n&#8211;  C\u00e2mara , Jos\u00e9 Aur\u00e9lio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999.<br \/>\n&#8211;   Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Dispon\u00edvel:  www.modernosdescobrimentos.inf.br<br \/>\n&#8211;   RODRIGUES, Jos\u00e9 Hon\u00f3rio (Org.). Correspond\u00eancia &#8211; Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1977.<br \/>\n&#8211;   S\u00c1EZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumi\u00e7o de Capistrano de Abreu [on line]. Florian\u00f3polis UFSC. Dispon\u00edvel: www.cfh.ufsc.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Soares Neto, ex-ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras, da Academia Cearense de Letras, do Instituto do Cear\u00e1 e da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa<\/p>\n<p>Dizia Gabriel Garcia M\u00e1rquez que \u201cum escritor j\u00e1 nasce escritor, nasce com o dom e a voca\u00e7\u00e3o, precisando apenas aprender a escrever\u201d. <\/p>\n<p>Capistrano falava que \u201caprender a escrever \u00e9 aprender a ler\u201d, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura cr\u00edtica de livros, textos, tradu\u00e7\u00f5es, documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja.<br \/>\nHist\u00f3ria como se fizesse uma longa cr\u00f4nica, um ensaio, um romance e h\u00e1 trechos at\u00e9 que s\u00e3o poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos.<br \/>\nJos\u00e9 Aur\u00e9lio Saraiva C\u00e2mara, um de seus bi\u00f3grafos, diz com propriedade: \u201cDescrever uma vida como a de Capistrano de Abreu \u00e9 enfrentar um ser\u00edssimo trope\u00e7o: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferen\u00e7a do oper\u00e1rio face a aud\u00e1cia e \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o gran\u00edtica do trabalho realizado. Na sua hist\u00f3ria, o homem diz pouco e a obra<br \/>\nLouvo-me da avers\u00e3o declarada de Capistrano \u00e0s academias e as sociedades a que n\u00e3o quis pertencer para ter a certeza de que, na dimens\u00e3o em que ele estiver, n\u00e3o se ocupar\u00e1 de dar aten\u00e7\u00e3o ao que aqui ser\u00e1 descrito.<br \/>\nAs comemora\u00e7\u00f5es dos 170 anos de nascimento de Jo\u00e3o Capistrano de Abreu ecoam, pouco vis\u00edveis, por todo o Brasil.<br \/>\nNo Cear\u00e1, nos 150 anos, houve um calend\u00e1rio oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreci\u00e1vel n\u00famero de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A prop\u00f3sito, compulsando a mem\u00f3ria do Jornal \u201cO Povo\u201d de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lan\u00e7ou um concurso p\u00fablico sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centen\u00e1rio. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos.<br \/>\nFosse hoje, certamente, alguns o fariam. De qualquer modo, n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio pedir v\u00eania aos meus pares, pois declaro p\u00fablica a minha incapacidade de cumprir com brilho a miss\u00e3o que, se ju\u00edzo tivesse, n\u00e3o teria aceitado.<br \/>\nEsse trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o pr\u00f3prio Capistrano: \u201cAs obras de amor s\u00e3o as \u00fanicas que pagam o sacrif\u00edcio\u201d. Vamos, pois, ao sacrif\u00edcio.<br \/>\nNo dia 23 do m\u00eas de outubro de 2003 fez 150 anos que Jo\u00e3o Capistrano de Abreu, filho de Ant\u00f4nia e Joaquim Hon\u00f3rio de Abreu. Nasceu na Ladeira Grande, no s\u00edtio Columinjuba, Maranguape e de l\u00e1 partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro.<br \/>\nDe fam\u00edlia simples, solit\u00e1rio, cr\u00edtico, ir\u00f4nico e taciturno, foi sempre maior do que os col\u00e9gios onde estudou: o Col\u00e9gio de Educandos (onde hoje fica o Col\u00e9gio da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Semin\u00e1rio da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por n\u00e3o ser vocacionado para padre.  Posteriormente, j\u00e1 aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparat\u00f3rios para a Faculdade de Direito do Recife.<br \/>\nFoi reprovado porque seu aprendizado n\u00e3o se cingia ao conte\u00fado program\u00e1tico estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas j\u00e1 se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tom\u00e1s Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. J\u00e1 se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, ingl\u00eas e franc\u00eas. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o seu tutor\/correspondente em Recife e seu pai, Jer\u00f4nimo Hon\u00f3rio.<br \/>\nDebaixo de repreens\u00f5es, foi para o cabo de enxada como caboclo qualquer, em meio a um alambique para destilar cacha\u00e7a, um engenho de a\u00e7\u00facar, rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna.  Engajou-se, em seguida, em movimentos liter\u00e1rios e culturais de Fortaleza quando escreveu \u201cPerfis Juvenis\u201d, que eram, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edi\u00e7\u00f5es sucessivas no \u201cMaranguapense\u201d, jornal rec\u00e9m criado na pequena cidade de Maranguape.<br \/>\nFoi nessa \u00e9poca que retomou os contatos com Tom\u00e1s Pompeu, Jo\u00e3o Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agita\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria chamada jocosamente de \u201cAcademia Francesa\u201d a reunir jovens quase imberbes.<br \/>\nCapistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe J\u00fanior, Jo\u00e3o Lopes, Rocha Lima e Tom\u00e1s Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna \u2013 A Escola Popular \u2013 que objetivava educar oper\u00e1rios, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constitui\u00e7\u00e3o, de 02 de junho de 1874: \u201cA escola noturna popular, al\u00e9m das aulas de primeiras letras, gram\u00e1tica, franc\u00eas, ingl\u00eas, geografia e aritm\u00e9tica, que come\u00e7aram a funcionar, abrir\u00e1 espa\u00e7o para uma s\u00e9rie de confer\u00eancias do g\u00eanero das que est\u00e3o fazendo na Corte com tanta aceita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFundaram tamb\u00e9m o jornal Fraternidade, de origem ma\u00e7\u00f4nica e inspira\u00e7\u00e3o positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libert\u00e1rio contra a religiosidade do clero e dos fi\u00e9is, apregoado pelo jornal A Tribuna Cat\u00f3lica.<br \/>\n\u00c9 prov\u00e1vel que a figura admirada e j\u00e1 ent\u00e3o m\u00edtica de Jos\u00e9 de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado a Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Cear\u00e1.<br \/>\nCapistrano, aos 21 anos, tinha os p\u00e9s na prov\u00edncia e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi.<br \/>\nDe Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Te\u00f3filo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: \u201cA impress\u00e3o que teve o consagrado homem de letras e pol\u00edtico, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Come\u00e7aram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admira\u00e7\u00e3o, viu que ali n\u00e3o estava um simples sertanejo, por\u00e9m um erudito.\u201d<br \/>\nEra efervesc\u00eancia demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a ben\u00e7\u00e3o ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guar\u00e1 no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria Jos\u00e9 de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano.<br \/>\nA partir da\u00ed \u00e9 que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser s\u00fadito do Imp\u00e9rio, mas n\u00e3o abria m\u00e3o de ser, ao mesmo tempo, um cidad\u00e3o brasileiro. \u00c9 assim que Jos\u00e9 de Alencar apresenta Capistrano: \u201cEsse mo\u00e7o, que j\u00e1 \u00e9 f\u00e1cil e elegante escritor, aspira ao est\u00e1gio da imprensa desta Corte. Creio eu que, al\u00e9m de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da gl\u00f3ria, que lhe est\u00e3o atribuindo acidentes m\u00ednimos.\u201d<br \/>\nOs caminhos da sua vida nunca foram f\u00e1ceis, apesar das rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. \u00c9 prov\u00e1vel que come\u00e7asse a\u00ed o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar portugu\u00eas e franc\u00eas no Col\u00e9gio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores.<br \/>\nSua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Not\u00edcias. J\u00e1 em 1882, Valentim Magalh\u00e3es, na se\u00e7\u00e3o Tipos e Tip\u00f5es, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: \u201c(&#8230;) quem seja aquele rapaz forte, de estatura me\u00e3, grosso de tronco, de cabe\u00e7a um tanto c\u00fabica, dessas que v\u00eam bradando aos olhos da gente: \u2018eu sou do norte\u2019, de pesco\u00e7o atl\u00e9tico, olhos pequeninos, piscos, m\u00edopes, escandalosamente m\u00edopes; trajando escuro com filos\u00f3fico descuido, chap\u00e9u raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ningu\u00e9m sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente \u00e0 parede, cabe\u00e7a levemente \u00e0 banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(&#8230;)(&#8230;) Pois esse rapaz \u00e9 o Capistrano de Abreu, a cabe\u00e7a mais ilustrada, mais pensadora, mais \u2018curvada\u2019 ao trabalho de quantos funcionam no escrit\u00f3rio da Gazeta( &#8230;).\u201d<br \/>\nNesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotec\u00e1rio e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de ent\u00e3o, come\u00e7aria a consolidar a sua carreira de historiador.<br \/>\nSeriam transformadas em marca-p\u00e1ginas da hist\u00f3ria suas incurs\u00f5es brilhantes como cr\u00edtico ou ensa\u00edsta liter\u00e1rio. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Col\u00e9gio Pedro II, mantido pelo Imp\u00e9rio. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, j\u00e1 criticava o ensino de Hist\u00f3ria do col\u00e9gio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro \u201cHist\u00f3ria do Brasil\u201d. Matoso Maia pede-lhe para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: \u201dN\u00e3o poder satisfaz\u00ea-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para ent\u00e3o o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.\u201d<br \/>\nTomava forma o grande historiador com \u00eanfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a hist\u00f3ria. Segundo Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrol\u00f3gio que publicou no Jornal do Com\u00e9rcio, Capistrano mostrou: \u201cum modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiogr\u00e1fico, exemplar pelo esp\u00edrito cr\u00edtico, a orienta\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, o dom\u00ednio filos\u00f3fico.\u201d<br \/>\nCasou, em 1881, com Maria Jos\u00e9 de Castro Fonseca, filha de um Almirante. A ela dera aulas particulares, particulares at\u00e9 demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: \u201cCasei-me a 30 de mar\u00e7o, isto \u00e9, dois meses antes do que esperava. Ainda n\u00e3o tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obst\u00e1culos que poderiam ser insuper\u00e1veis.\u201d<br \/>\nDesse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria Jos\u00e9 de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspond\u00eancia s\u00e3o: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria Jos\u00e9 de Jesus, beatificada pela Igreja Cat\u00f3lica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse m\u00eas e cuja morte prematura, de pneumonia dupla,  em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade.<br \/>\nEm 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin T\u00e1vora, consegue realizar o sonho de ser professor do Col\u00e9gio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descri\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de um pa\u00eds, regi\u00e3o, prov\u00edncia ou munic\u00edpio e Hist\u00f3ria do Brasil, com a tese \u201cDescobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no S\u00e9culo XVI. \u201c<br \/>\nEm 1889 foi exclu\u00edda do curr\u00edculo escolar do Col\u00e9gio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar Hist\u00f3ria Geral, denuncia o fato e \u00e9 posto em disponibilidade.<br \/>\nNesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Cap\u00edtulos da Hist\u00f3ria Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. \u00c9 nela que fica real\u00e7ada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e n\u00e3o um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas.<br \/>\nCapistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou m\u00e9todo cr\u00edtico com tr\u00eas elementos b\u00e1sicos: testemunha visual, car\u00e1ter l\u00f3gico do relato e coer\u00eancia entre o texto e realidade, renovou os m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e de interpreta\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica brasileira da \u00e9poca, partindo do determinismo sociol\u00f3gico &#8211; positivista que foi e deixou de ser &#8211; para, em seguida, descobrir a ess\u00eancia do que regia a sociedade colonial. Fica claro que sua an\u00e1lise da sociedade brasileira, lastreada na influ\u00eancia te\u00f3rica da teoria realista alem\u00e3 de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corogr\u00e1ficos, da miscigena\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a, dos aspectos econ\u00f4micos e psicol\u00f3gicos, sempre real\u00e7ando a conquista do interior pelo brasileiro mesti\u00e7o.<br \/>\nPara ele, j\u00e1 mostrando a sua face republicana, o destaque n\u00e3o \u00e9 o portugu\u00eas ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem express\u00e3o pol\u00edtica, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, deixando, cada vez mais patente, a desimport\u00e2ncia do Rei, vice-rei, governadores e dos her\u00f3is. O povo \u00e9 o sujeito da hist\u00f3ria.<br \/>\nPor outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua \u00f3tica corogr\u00e1fica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, soci\u00f3logo e antrop\u00f3logo fosse, com quase um s\u00e9culo de anteced\u00eancia, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas.<br \/>\nCapistrano denuncia isso em carta a Jo\u00e3o L\u00facio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: \u201cMuita gente \u00e9 amiga dos morros e cita em seu favor a opini\u00e3o dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou advers\u00e1rio convicto: enquanto n\u00e3o for arrasada a maioria, morros s\u00e3o compartimentos estanques que impedem a circula\u00e7\u00e3o social.\u201d<br \/>\nAutodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede de dormir e para onde viajava pelo Brasil \u2013 quase sempre para casa de amigos &#8211; a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, n\u00e3o sossegou at\u00e9 aprender a l\u00edngua alem\u00e3, al\u00e9m do latim, franc\u00eas e ingl\u00eas que j\u00e1 manejava.<br \/>\nSem nunca ter sa\u00eddo do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avan\u00e7ad\u00edssima para a m\u00e9dia de vida do brasileiro de sua \u00e9poca, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de Jo\u00e3o Ningu\u00e9m, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspond\u00eancia aos amigos.<br \/>\nSua correspond\u00eancia, organizada pacientemente por Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues em tr\u00eas volumes, \u00e9, segundo alguns, a sua segunda grande obra. \u00c9 ela uma demonstra\u00e7\u00e3o de apre\u00e7o aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doen\u00e7as, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou at\u00e9 \u00e0 morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em f\u00e9retro a, p\u00e9, o levaram ao Cemit\u00e9rio.<br \/>\nProvavelmente, a melhor descri\u00e7\u00e3o de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo Jo\u00e3o Pandi\u00e1 Cal\u00f3geras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico, logo ap\u00f3s a sua morte. Diz Cal\u00f3geras: \u201cRude, em sua terr\u00edvel franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hip\u00f3critas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destitu\u00eddo de toda inveja. Indulgente, quando explic\u00e1vel a falta por um motivo mais alto, por amor \u00e0 intelig\u00eancia ou \u00e0 bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intrat\u00e1vel em quest\u00f5es de honra, de lealdade e de afei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o admitia atenuantes para o delinquente.\u201d<br \/>\nEsse perfil poderia ser resumido em uma frase do pr\u00f3prio Capistrano: \u201cEu proporia que se substitu\u00edssem todos os artigos da Constitui\u00e7\u00e3o por: Artigo \u00danico \u2013 Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara\u201d.  Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas: \u201cTodo artista tem um germe original que \u00e9 a base e o \u2018substratum\u2019 de seu talento\u201d  e, \u201cNunca pensei  que eu pudesse morrer\u201d.<br \/>\nNa verdade, n\u00e3o morreu. Transformou-se.<\/p>\n<p>Bibliografia consultada<\/p>\n<p>&#8211;   AMARAL, Eduardo L\u00facio Guilherme, Correspond\u00eancia Cordial &#8211;  Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Cear\u00e1,  Sec. Cultura do Ce, 2003.<br \/>\n&#8211;   BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular &#8211; Capistrano de Abreu e Madre Maria Jos\u00e9, Fortaleza, Museu do Cear\u00e1, Sec. Cultura do Ce, 2003.<br \/>\n&#8211;  C\u00e2mara , Jos\u00e9 Aur\u00e9lio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999.<br \/>\n&#8211;   Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Dispon\u00edvel:  www.modernosdescobrimentos.inf.br<br \/>\n&#8211;   RODRIGUES, Jos\u00e9 Hon\u00f3rio (Org.). Correspond\u00eancia &#8211; Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1977.<br \/>\n&#8211;   S\u00c1EZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumi\u00e7o de Capistrano de Abreu [on line]. Florian\u00f3polis UFSC. Dispon\u00edvel: www.cfh.ufsc.br<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-3901","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-inedito"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3901"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3901\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3904,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3901\/revisions\/3904"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}